terça-feira, 24 de maio de 2016

Casa Santos Lima, Quinta de Bons-Ventos Tinto, VR Lisboa 2014 (Portugal)

Vinho: Quinta de Bons-Ventos Tinto, VR Lisboa
Safra: 2014
Região: Lisboa
País: Portugal
Vinícola: Casa Santos Lima (http://www.casasantoslima.com)


Uma das coisas que mais chamam a atenção no universo enófilo é a quantidade de surpresas com as quais nos deparamos à medida em que passamos a provar os mais diversos tipo de vinho. Como o fato, por exemplo, de degustar uma garrafa fantástica, que pode ser encontrada à venda em qualquer supermercado e com preço muito em conta.

É o caso do vinho desta postagem.

É muito comum encontrar pessoas que ignoram completamente os vinhos mais baratos. Elas costumam declarar aos quatro ventos que vinho bom deve ter preço mínimo de três dígitos, e que qualquer coisa abaixo disso sequer merece consideração. Um preconceito infundado que soa ainda mais irônico quanto se nota que o Quinta de Bons-Ventos dá baile em muito vinho safado que passa dos cem reais.

Enfim, um verdadeiro exemplo do que podemos seguramente chamar de muito bom e barato.


Um pouco de história

A Casa Santos Lima é uma vinícola familiar fundada no final do século XIX, hoje comandada pela neta e pelo bisneto do fundador.

A área plantada abrange 290 hectares, sendo distribuída em diversas quintas contíguas, com destaque para a Quinta da Boavista, Quinta das Setencostas, Quinta de Bons-Ventos, Quinta da Espiga, Quinta das Amoras, Quinta do Vale Perdido, Quinta do Figo e Quinta do Espírito Santo.

Apesar destas propriedades pertencerem à família Santos Lima há mais de um século, foi só em 1996 que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva abandonou a carreira de mais de 20 anos no setor financeiro para começar a engarrafar e comercializar seus vinhos, que hoje são exportados para 40 países em cinco continentes.

Os nomes dos inúmeros rótulos produzidos geralmente refletem os nomes das quintas, em versões varietais ou em cortes produzidos a partir de uvas autóctones e internacionais.


O vinho degustado: Quinta de Bons-Ventos Tinto, VR Lisboa 2014

As castas que compõem o blend são Castelão, Camarate, Tinta Miúda e em menor proporção Touriga Nacional. A Castelão, também chamada de Periquita e João de Santarém, é a segunda casta mais plantada de Portugal (coisa que só fiquei sabendo agora). Já a Camarate é pouco conhecida e cultivada, tendo similaridades genéticas com a Alfroucheiro e a Castelão. Tinta Miúda é outro nome dado à Graciano, mais conhecida pelos vinhos provenientes da região espanhola de Rioja. A Touriga Nacional dispensa apresentações, sendo considerada por muitos a casta portuguesa mais nobre de todas.

Com aromas que remetem aos toques de frutas vermelhas esperados de um bom blend português, o olfato é ainda marcado por notas de especiarias. Em boca o equilíbrio impressiona, e percebe-se que a breve passagem por carvalho foi ideal para adorná-lo com uma suavidade ímpar, que confere ao néctar a textura aveludada que tanto amamos em nossos vinhos tintos. A acidez não é pronunciada e os taninos são macios.

O vinho foi escolhido com mais dois amigos para acompanhar um jantar de fim de noite com massas e carnes no restaurante Genésio Pasta e Chopp, localizado no bairro Vila Madalena em São Paulo. Devo dizer que a temperatura ambiente bem fresca também ajudou na sua apreciação.

Saúde!

domingo, 22 de maio de 2016

Compra pela Internet - Vinhobr Vinhos

Morar longe dos grandes centros tem lá suas vantagens, como o custo de vida mais em conta e o tráfego mais desafogado, por exemplo. A disponibilidade de vinhos, no entanto, não é uma dessas vantagens. É exatamente por isso que às vezes precisamos fazer compras pela Internet, ou seja, por ser impossível encontrar localmente aquele vinho que tanto queremos.

Há algumas semanas iniciei uma romaria em mercados locais e em websites em busca do mais famoso Liebfraumilch já distribuído no Brasil, o Josef Friederich. Sim, o famoso vinho da garrafa azul que hoje é motivo de piada para muitos e que abrilhanta vários depoimentos nostálgicos de enófilos da velha guarda.

Não me apedrejem ainda! Eu tenho um bom motivo para ir atrás desse vinho, e espero estar compartilhando-o em breve aqui no blogue (aqui está o motivo).

Pois bem, depois de desistir de encontrar o vinho localmente parti para as inevitáveis consultas no Google e no Buscapé. Nunca imaginei que seria tão difícil encontrar uma loja online que o tivesse em estoque e o enviasse para Cuiabá, mas depois de alguns dias acabei me deparando com o site da Vinhobr Vinhos, que tem loja física sob o nome de Bacco & Tabacco, localizada na região metropolitana de Curitiba. O site está no ar desde 2010.


O pedido foi feito no dia 1 de Abril, e despachado via correios em 4 de Abril. Recebi a caixa em 22 de Abril.

O prazo de entrega previsto era de 8 dias úteis, sendo assim observa-se que a entrega foi realizada com 6 dias úteis de atraso. Considerando que tanto eu quanto o vendedor estamos nas mãos dos correios, não dá para ficar insatisfeito com esse atraso. Sofro com a falta de qualidade dessa estatal há anos, e francamente me acostumei com os serviços deficientes por ela prestados.


Enfim, como podem observar nas fotos acima a caixa foi recebida com uma ótima embalagem, e os vinhos estavam muito bem protegidos (além do Liebfraumilch pedi também um Torrontés para acompanhar).

Mas havia dentro dela uma surpresinha com a qual eu não contava.


No site da Vinhobr Vinhos este era o anúncio do Liebfraumilch que eu havia pedido:


O vinho que recebi, no entanto, foi esse:


Como vocês podem observar, mais uma vez o cliente neste caso é vítima de propaganda errônea e deficiente por parte do vendedor, que usou a foto padrão de um Liebfraumilch para vender outro produto, cuja especificação nem sequer aparece na página, e o descreveu de forma genérica (o vinho da garrafa azul). Uma parte disso foi falha minha, já que no afã de comprar deixei de lado as precauções que sempre tive diante de uma compra que exigia detalhes mais específicos.

Eu poderia ter recorrido à loja para reclamar e solicitar a troca, mas a burocracia e o tempo extra que isso levaria não justificariam o esforço. Além disso, pelo que andei pesquisando esse HXM Inspiration Liebfraumilch 2012 da Weinkellerei Rechtsheim não parece ser um desperdício, e entrou para a adega como mais um inesperado espólio de caçadas enófilas.

VEREDITO FINAL: não indico, mas compraria de novo se necessário (leia-se: tirando todas as dúvidas via SAC antes de concluir a compra)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Julgamento de Paris (Bottle Shock, 2008)

Livremente baseado num episódio real que ocorreu durante a década de 70 e que abalou a hegemonia dos vinhos franceses no cenário vinícola mundial, O Julgamento de Paris (título original: Bottle Shock) é uma produção independente lançada em 2008, dirigida por Randall Miller e estrelada por um eclético elenco liderado por Alan Rickman, Bill Pullman e Chris Pine. Assisti há algumas semanas atrás por meio do serviço de streaming da Netflix.

Os mais antenados no universo enófilo sabem que o título brasileiro do filme corresponde à forma como ficou conhecida a famosa degustação às cegas promovida em 1976 pelo então comerciante britânico Steven Spurrier, onde vinhos californianos derrotaram alguns dos mais renomados rótulos de Bordeaux e da Borgonha num júri formado por célebres degustadores franceses. O episódio mudou para sempre a reputação dos vinhos californianos (especialmente na região de Napa Valley) e de vinhos do novo mundo em geral, além de catapultar ainda mais a carreira de Spurrier mesmo com a revolta momentânea dos franceses contra sua pessoa.


Considerando que o filme é uma produção norteamericana, quanto há nela de verídico em relação aos fatos documentados?

A primeira coisa a se dizer, obviamente, é que não se deve esperar um retrato fiel do verdadeiro julgamento de Paris. Afinal, o longa-metragem lança mão de muitas sequências fictícias de cunho dramático/cômico no intuito de criar tensão, suspense e expectativa, seja ela narrativa ou puramente romântica. Sim, há várias pessoas reais retratadas na película, mas duvido muito que a caracterização das situações lhes faça jus, haja vista o processo que o verdadeiro Steven Spurrier ameaçou abrir contra os produtores, alegando que sua representação no cinema seria falsa, difamatória e depreciativa.

Na história do filme, as aspirações do comerciante Spurrier (Alan Rickman) são alimentadas pelas conversas com um vizinho de negócios e amigo de taça (Dennis Farina) que acabam por convencê-lo a organizar uma degustação às cegas que colocará os vinhos da Califórnia contra os famosos vinhos franceses. Enquanto Spurrier degusta e escolhe as melhores garrafas de vinhos em vinícolas de Sonoma e de Napa Valley, a outra metade da história se concentra sobre o Chateau Montelena, conduzido pelo proprietário Jim Barrett (Bill Pullman) e por seu filho surfista de espírito livre Bo (Chris Pine). Ao mesmo tempo em que se esforça para obter o melhor suco de Chardonnay possível de suas videiras, Jim se vê assombrado pela ameaça de falência. Já o filho trabalha e se diverte na companhia do melhor amigo e enólogo da vinícola Gustavo Brambilia (Freddy Rodriguez), mas logo começa a arrastar a asa para uma recém-chegada e bela aprendiz (Rachael Taylor).


Tecnicamente, O Julgamento de Paris é um deleite para os enófilos. Há uma infinidade de belas locações e paisagens relacionadas ao universo vinícola, e muito da linguagem do meio aparece no roteiro descompromissado, que não exige nenhum esforço para ser acompanhado. A leveza da história é potencializada pela subtrama envolvendo o jovem triângulo amoroso, que nada acrescenta à linha narrativa principal e serve somente como chamariz de público, num recurso de fácil identificação para a plateia em geral. Tamanha é a superficialidade do romance que um dos pilares do triângulo é abandonado após cumprir seu papel dramático, retornando somente no final para a esperada catarse emotiva. Tudo é muito previsível, mas o mais difícil mesmo é aguentar a peruca desgrenhada que arranjaram para Chris Pine (o capitão Kirk da nova encarnação cinematográfica de Star Trek). Rachael Taylor (uma boa atriz que se perdeu depois de um promissor início de carreira, tendo visivelmente roubado a cena de Megan Fox no primeiro Transformers) não tem muito com o que trabalhar além de ser a principal presença feminina da história, que nada aprende e que serve somente de colírio visual. A participação de Eliza Dushku, por exemplo, é mínima, mas ela tem mais importância que Taylor no desfecho do filme. Freddy Rodriguez é a anomalia maior em relação à realidade da história, uma vez que seu enólogo só viria a trabalhar no Chateau Montelena após a famosa degustação (o verdadeiro enólogo Mike Grgich foi eliminado nas revisões do roteiro, e teria sido encarnado por Danny DeVito).


Ainda no elenco principal, Bill Pullman faz o dever de casa com a austeridade que o papel exige, enquanto Dennis Farina brilha no pouco tempo que tem em cena. Quanto ao saudoso Alan Rickman, se sua fleuma britânica foi capaz de fazer justiça à persona de Steven Spurrier não sei, mas basta dizer que ator preserva aqui a veia sarcástica que caracteriza a maior parte de suas interpretações no cinema, todas variações em maior ou menor grau do papel que o deixou famoso para o mundo (o bandido Hans de Duro de Matar). Mesmo considerando-o um bom ator, o verdadeiro Steven Spurrier se sentiu insultado porque tinha na época 34 anos, ao contrário dos 61 de Rickman quando o interpretou.

Como diversão passageira O Julgamento de Paris não faz feio. É um filme bonito, bem interpretado e que ousa contar mais uma vez a inesperada vitória do perdedor sobre um oponente tido como imbatível. Só não assista esperando um tratado de enologia ou uma narrativa cerebral pontuada por relações bergmanianas.

O verdadeiro Steven Spurrier no julgamento de Paris

Alguns fatos interessantes relacionados ao filme

Numa produção rival que estava em vias de ser realizada na mesma época com o título original de The Judgement of Paris, a ideia era ter Hugh Grant ou Jude Law na pele de Spurrier. Os produtores tentaram impedir a realização do longa de Randall Miller com base em alegações de que eles teriam os direitos de filmagem do livro escrito pelo jornalista George Taber da revista TIME (o único a estar presente durante o fatídico evento de 1976, interpretado no filme por Louis Giambalvo). O livro de Taber, no entanto, teria sido publicado após a conclusão do roteiro do filme de Miller, e nenhuma influência teria tido sobre suas passagens fantasiosas. No final das contas, esta outra versão da história nunca chegou a ser filmada, assim como os chiliques de Spurrier e de alguns outros não chegaram a impedir a realização do trabalho que hoje tem o título abrasileirado de O Julgamento de Paris.

A vinícola onde foram feitas as filmagens, Kunde Family Winery, se beneficiou bastante do filme e hoje recebe muitos visitantes que o assistiram. Até mesmo o ringue de boxe que aparece na história permanece preservado em seu devido lugar.

O diretor Randal Miller, que solidificou sua carreira com trabalhos leves como este, Baila Comigo e o elogiado CBGB – O Berço do Punk Rock (que também tem Alan Rickman no elenco), protagonizou um episódio bastante triste em 2014, quando uma diretora assistente de sua equipe morreu atropelada por um trem durante uma filmagem não autorizada. Responsabilizado pela negligência da produção, que foi interrompida e nunca retomada, Miller passou um ano preso e está proibido de exercer qualquer atividade relacionada a cinema por mais nove anos.


Algumas opiniões pessoais

Nenhuma menção é feita no filme ao famoso Cabernet Sauvignon da Stag’s Leap Wine Cellars, o vinho que desbancou os até então imbatíveis franceses de Bordeaux. O roteiro é focado exclusivamente no Chardonnay do Chateau Montelena, que saiu vitorioso diante dos alardeados Chardonnays da Borgonha. Considerando o que eu havia lido até então sobre o julgamento de Paris, confesso que eu desconhecia completamente o fato de que também houve um embate entre vinhos brancos. Seria a simples omissão da categoria dos brancos em qualquer menção relacionada ao evento mais um sinal evidente de como o vinho branco é injustamente depreciado em relação ao tinto?

Por fim, se eu tivesse que escolher um ator para interpretar Steven Spurrier em outro filme eu sugeriria Edward Norton, Martin Freeman ou Liam Neeson.

E vocês, leitores enófilos ou cinéfilos, quem escolheriam?


Referências de pesquisa para este texto:
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/1558855/Films-at-war-over-fall-of-French-wine.html
http://www.ridgewine.com/about/explore/judgment-of-paris
http://www.sfgate.com/wine/article/Chateau-Montelena-More-than-Bottle-Shock-3260538.php
http://www.imdb.com/title/tt0914797
http://en.wikipedia.org/wiki/Judgment_of_Paris_%28wine%29