Muitos são os aspectos que nós, enófilos, analisamos quando estamos diante de uma taça de vinho. Da cor à textura, dos aromas ao paladar, é possível descrevê-lo com minimalista reserva ou mesmo redigir uma pequena epístola de apreciação sensorial.
Ainda tenho muito a aprender sobre todos os passos da degustação. É claro que é sempre bastante divertido se arriscar a descrever um vinho com algo que vá além dos adjetivos básicos, bem como tentar discernir a simbiose que se forma quando o vinho é combinado com comida. Como dizem por aí, a gente dá “nossos pulos”, não é mesmo?
No entanto, apesar de já estar me dedicando ao hobby com relativa intensidade há pouco mais de um ano, existe um aspecto do processo de degustação com o qual ainda não me sinto à vontade: a avaliação do que eu prefiro chamar de tempo de persistência do vinho, também tratado por alguns como “fim de boca”, evolução ou retrogosto. Este último termo, por sinal, não me agrada muito por ter uma conotação levemente negativa.
Segundo reportagem da revista Adega, por exemplo, o fim de boca é definido como a sensação que se sente no final da degustação, porém antes de se deglutir o vinho; o retrogosto relaciona-se à sensação percebida após a deglutição do vinho, e pode apresentar um caráter negativo. Então quer dizer que fim de boca não é a mesma coisa que retrogosto? Interessante...
Já segundo o Dr. Vinny da Wine Spectator, o termo finish se refere à impressão que o vinho deixa depois de ter sido provado (ele não faz distinção entre cuspir/deglutir). Este “fim de boca” pode estar relacionado ao retrogosto, ao tempo em que os sabores permanecem na boca até desaparecerem e também à percepção da textura (se o vinho tem taninos que secam, por exemplo). A sensação de que o sabor permanece em boca durante muito tempo – um final longo – seria indicativo de um vinho de qualidade superior. Nem sempre, porém, um “fim de boca” é bom simplesmente por ser longo, já que ele pode ser adstringente demais, quente, rascante. Em outras palavras, desagradável. Em suma, característico de um vinho desequilibrado.
Depois de muito pensar, decidi adotar uma definição que está mais em linha com o que diz a Wine Spectator: a persistência ou “fim de boca” (finish) seria a sensação tátil que permanece na boca após o vinho ter sido provado, sendo que essa sensação pode ter duração longa, média ou curta.
Vou adotar como descritores para esta sensação os mesmos que eu usaria para caracterizar a textura do vinho, mas não o paladar (sabores). Por textura, entenda-se termos como aveludado, macio, duro, agressivo, contido, granuloso, encorpado, aguado, quente, morto, vivo, forte, fraco, rico, pobre, etéreo, pesado, metálico, poroso, etc.
Essa primeira parte, a da descrição da textura, é relativamente fácil de encarar.
O difícil, no meu caso, é conseguir sentir a duração do fim de boca, ou seja, o tempo de persistência do vinho. Uma das vertentes da enoliteratura alega que para vinhos simples a persistência é de 0 a 3 segundos (curta), para vinhos intermediários é de 4 a 7 segundos (média) e no caso de uma duração de fim de boca acima de 8 segundos (longa) estamos diante de um bom vinho.
Problema: não é fácil para mim discernir quando um gosto abandona meu paladar. Eu simplesmente não consigo estabelecer um limite para o antes e o depois. Afinal, de que forma posso definir meu limiar de percepção? A meu ver há sabores que permanecem em boca durante minutos, que dirá segundos! Será que minha língua é defeituosa?
Vou continuar tentando encontrar um caminho me pautando pelo que escrevi mais acima, mas se alguém puder me dar dicas sobre como mensurar o tempo de persistência de um vinho de maneira mais consistente fique à vontade.
quinta-feira, 24 de março de 2016
sábado, 19 de março de 2016
Vigneti del Vulture, Pipoli Aglianico del Vulture DOC, Basilicata 2013 (Itália)
Vinho: Pipoli Aglianico del Vulture DOC
Safra: 2013
Região: Basilicata
País: Itália
Vinícola: Vigneti del Vulture (http://www.farnesevini.it/vigneti_del_vulture_azienda)
Ainda me lembro bem de quando provamos um vinho feito da uva Aglianico. Foi em nossas férias de 2013, mais precisamente numa noite fria e aconchegante em nossa passagem pela cidade de Gênova (foto mais abaixo). Na época eu não entendia coisa nenhuma de vinho, mas a impressão que ficou é que havíamos tido um fantástico jantar, com ótima comida e ótimo vinho.
A Aglianico é uma uva tinta nativa da região sul da Itália, e segundo fontes online ela é notória por produzir vinhos encorpados que tendem a exibir aromas de frutas maduras e almiscaradas, com taninos firmes e bom potencial de envelhecimento. Mesmo quando cultivada em climas quentes a Aglianico seria capaz de atingir altos níveis de acidez, o que faz dela uma variedade perfeita para vinificação nas regiões mediterrâneas.
Como a Aglianico aparece nos vinhos italianos
A presença mais marcante desta uva está nas regiões de Campania e Basilicata. Em ambas a Aglianico pode aparecer como varietal ou em blends tintos IGT/IGP que levam também variedades internacionais como a Merlot e a Cabernet Sauvignon, mas o interessante mesmo é ir atrás das categorias mais nobres feitas a partir desta casta.
A base da DOC Aglianico del Vulture são as vinhas cultivadas ao redor do Monte Vulture, um vulcão extinto que domina a paisagem e o horizonte ao norte de Basilicata. Para ter direito à denominação de origem os vinhos têm que ficar um ano na bodega após a colheita, não podendo ser colocados no mercado antes de 1º de Novembro do ano seguinte ao ano em que as uvas foram cultivadas. Devem ter teor alcoolico mínimo de 11,5% e podem envelhecer em barris ou em garrafa, conforme critérios de cada produtor.
A variante Aglianico del Vulture Superiore é a única DOCG de Basilicata e precisa envelhecer por três anos, sendo pelo menos um ano em recipiente de madeira e um ano em garrafa, com teor alcoolico mínimo de 13,0%.
Versões Riserva dos vinhos acima podem ser produzidas, sendo que estas precisam passar por no mínimo 2 anos de envelhecimento em madeira e serem liberadas para consumo somente após 5 anos. No caso da DOC, o teor alcoolico mínimo passa a ser de 12,5%.
Na região de Campania, a DOC Aglianico del Taburno mais ou menos espelha os critérios que definem a versão mais famosa de Basilicata. Já a variante tinta da DOC Falerno del Massico é predominantemente feita a partir de Aglianico e Piedirosso, com uma ocasional adição de Primitivo e Barbera. Por fim, a DOCG Taurasi está para a DOCG Chianti assim como a uva Aglianico está para a Sangiovese, visto que estes vinhos devem levar no mínimo 85% de Aglianico em sua composição. Os 15% restantes correspondem a variedades permitidas pela norma italiana, entre elas a própria Sangiovese.
Existem ainda no mercado italiano exemplares mais obscuros e sem qualificação DOC, como o Aglianico Dolce e o Aglianico di Filiano. Fora da Itália, a uva é cultivada principalmente na Califórnia e na Austrália.
Um pouco de história
A Vigneti del Vulture faz parte do grupo Farnese e está localizada na cidade de Acerenza, província de Potenza em Basilicata. Não consegui encontrar muita informação sobre sua origem, além do fato das variedades que mais se adaptaram ao solo da vinícola terem sido a tinta Aglianico e a branca Greco.
Outras vinícolas que hoje integram a Farnese, empresa cujas origens remontam ao século 16, são a Cantine Cellaro, Vigneti Zabù, Caldora, Vesevo e Vigneti del Salento. Da linha principal da Farnese fazem parte os vinhos da linha Fantini, nome que está sendo adotado internamente na Itália como o sétimo empreendimento dentro do grupo - inclusive substituindo o próprio nome Farnese nos rótulos. Na verdade, há muita confusão envolvendo os dois nomes, pois é possível ver muitas referências a Fantini-Farnese ou Farnese-Fantini.
Os vinhos da Vigneti del Vulture
São poucos, mas aparentemente bastante característicos. Além do Aglianico del Vulture que me inspirou a pesquisar e elaborar a postagem, fazem parte da linha Pipoli um rosé feito de Aglianico e um blend branco de Greco e Fiano, ambos IGPs. Já o Pipoli Zero Aglianico del Vulture DOC possui a distinção de não levar nada de dióxido de enxofre no processo de vinificação.
Completam o portfolio de tintos o Tufarello Puglia IGP 100% Nero di Troia (ou Uva di Troia) e o vinho top da vinícola Piano del Cerro Aglianico del Vulture DOC, que conta com maior tempo de envelhecimento em barricas que os outros DOCs.
O único outro branco produzido pela Vigneti del Vulture chama-se Sensuale e é feito a partir de uvas Moscato.
O vinho degustado: Vigneti del Vulture, Pipoli Aglianico del Vulture DOC 2013
Após os processos de colheita e fermentação, 60% do vinho repousa em tanques de aço inoxidável e 40% em barricas usadas por um período de dez meses. Segue-se um envelhecimento em garrafa de três meses antes do vinho ir ao mercado. O perfil resultante é o de um Aglianico que no nariz mostra-se rico em aromas de fruta madura, como ameixa e cassis, e como eu estava paciente com minha taça cheguei até mesmo a sentir nuances florais (morango?) enquanto o álcool evaporava e emanava névoas que lembram terra molhada.
Em boca foi encorpado, e se for para comparar com outras castas mais famosas eu diria que o paladar lembra uma mescla de Malbec e Syrah de acidez comedida, viscoso na medida certa e com uma pegada tânica que pode assustar de início. Nada como um bom descanso ali na taça mesmo para acalmar o néctar e fazê-lo entrar em equilíbrio (recomendo decantar), que foi de fato o que aconteceu.
Acho que não é à toa que alguns consideram o Aglianico del Vulture como o Barolo do sul da Itália. Mas quem sou eu para opinar sobre Barolo? Algum dia talvez eu possa emitir uma opinião mais consistente sobre essa comparação. A única coisa que sei por enquanto é que as garrafas de Aglianico são bem mais em conta que as de Nebbiolo!
No mais, harmonizei a primeira metade da garrafa com pizza e a segunda com comida japonesa quente, uma combinação um pouco arriscada que acabou funcionando.
Saúde!
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.aglianicodelvulture.net
http://www.wine-searcher.com/regions-aglianico+del+vulture
http://www.curiouswines.ie/proddetail.php?prod=Farnese_Sangiovese
http://www.wine-searcher.com/grape-511-uva-di-troia
Safra: 2013
Região: Basilicata
País: Itália
Vinícola: Vigneti del Vulture (http://www.farnesevini.it/vigneti_del_vulture_azienda)
Ainda me lembro bem de quando provamos um vinho feito da uva Aglianico. Foi em nossas férias de 2013, mais precisamente numa noite fria e aconchegante em nossa passagem pela cidade de Gênova (foto mais abaixo). Na época eu não entendia coisa nenhuma de vinho, mas a impressão que ficou é que havíamos tido um fantástico jantar, com ótima comida e ótimo vinho.
A Aglianico é uma uva tinta nativa da região sul da Itália, e segundo fontes online ela é notória por produzir vinhos encorpados que tendem a exibir aromas de frutas maduras e almiscaradas, com taninos firmes e bom potencial de envelhecimento. Mesmo quando cultivada em climas quentes a Aglianico seria capaz de atingir altos níveis de acidez, o que faz dela uma variedade perfeita para vinificação nas regiões mediterrâneas.
I Feudi di Villanova, Aglianico Campania IGT 2010 (Itália)
Degustado em 8 de Outubro de 2013 num aconchegante restaurante em Gênova
Degustado em 8 de Outubro de 2013 num aconchegante restaurante em Gênova
Como a Aglianico aparece nos vinhos italianos
A presença mais marcante desta uva está nas regiões de Campania e Basilicata. Em ambas a Aglianico pode aparecer como varietal ou em blends tintos IGT/IGP que levam também variedades internacionais como a Merlot e a Cabernet Sauvignon, mas o interessante mesmo é ir atrás das categorias mais nobres feitas a partir desta casta.
A base da DOC Aglianico del Vulture são as vinhas cultivadas ao redor do Monte Vulture, um vulcão extinto que domina a paisagem e o horizonte ao norte de Basilicata. Para ter direito à denominação de origem os vinhos têm que ficar um ano na bodega após a colheita, não podendo ser colocados no mercado antes de 1º de Novembro do ano seguinte ao ano em que as uvas foram cultivadas. Devem ter teor alcoolico mínimo de 11,5% e podem envelhecer em barris ou em garrafa, conforme critérios de cada produtor.
A variante Aglianico del Vulture Superiore é a única DOCG de Basilicata e precisa envelhecer por três anos, sendo pelo menos um ano em recipiente de madeira e um ano em garrafa, com teor alcoolico mínimo de 13,0%.
Versões Riserva dos vinhos acima podem ser produzidas, sendo que estas precisam passar por no mínimo 2 anos de envelhecimento em madeira e serem liberadas para consumo somente após 5 anos. No caso da DOC, o teor alcoolico mínimo passa a ser de 12,5%.
Na região de Campania, a DOC Aglianico del Taburno mais ou menos espelha os critérios que definem a versão mais famosa de Basilicata. Já a variante tinta da DOC Falerno del Massico é predominantemente feita a partir de Aglianico e Piedirosso, com uma ocasional adição de Primitivo e Barbera. Por fim, a DOCG Taurasi está para a DOCG Chianti assim como a uva Aglianico está para a Sangiovese, visto que estes vinhos devem levar no mínimo 85% de Aglianico em sua composição. Os 15% restantes correspondem a variedades permitidas pela norma italiana, entre elas a própria Sangiovese.
Existem ainda no mercado italiano exemplares mais obscuros e sem qualificação DOC, como o Aglianico Dolce e o Aglianico di Filiano. Fora da Itália, a uva é cultivada principalmente na Califórnia e na Austrália.
Um pouco de história
A Vigneti del Vulture faz parte do grupo Farnese e está localizada na cidade de Acerenza, província de Potenza em Basilicata. Não consegui encontrar muita informação sobre sua origem, além do fato das variedades que mais se adaptaram ao solo da vinícola terem sido a tinta Aglianico e a branca Greco.
Outras vinícolas que hoje integram a Farnese, empresa cujas origens remontam ao século 16, são a Cantine Cellaro, Vigneti Zabù, Caldora, Vesevo e Vigneti del Salento. Da linha principal da Farnese fazem parte os vinhos da linha Fantini, nome que está sendo adotado internamente na Itália como o sétimo empreendimento dentro do grupo - inclusive substituindo o próprio nome Farnese nos rótulos. Na verdade, há muita confusão envolvendo os dois nomes, pois é possível ver muitas referências a Fantini-Farnese ou Farnese-Fantini.
Os vinhos da Vigneti del Vulture
São poucos, mas aparentemente bastante característicos. Além do Aglianico del Vulture que me inspirou a pesquisar e elaborar a postagem, fazem parte da linha Pipoli um rosé feito de Aglianico e um blend branco de Greco e Fiano, ambos IGPs. Já o Pipoli Zero Aglianico del Vulture DOC possui a distinção de não levar nada de dióxido de enxofre no processo de vinificação.
Completam o portfolio de tintos o Tufarello Puglia IGP 100% Nero di Troia (ou Uva di Troia) e o vinho top da vinícola Piano del Cerro Aglianico del Vulture DOC, que conta com maior tempo de envelhecimento em barricas que os outros DOCs.
O único outro branco produzido pela Vigneti del Vulture chama-se Sensuale e é feito a partir de uvas Moscato.
O vinho degustado: Vigneti del Vulture, Pipoli Aglianico del Vulture DOC 2013
Após os processos de colheita e fermentação, 60% do vinho repousa em tanques de aço inoxidável e 40% em barricas usadas por um período de dez meses. Segue-se um envelhecimento em garrafa de três meses antes do vinho ir ao mercado. O perfil resultante é o de um Aglianico que no nariz mostra-se rico em aromas de fruta madura, como ameixa e cassis, e como eu estava paciente com minha taça cheguei até mesmo a sentir nuances florais (morango?) enquanto o álcool evaporava e emanava névoas que lembram terra molhada.
Em boca foi encorpado, e se for para comparar com outras castas mais famosas eu diria que o paladar lembra uma mescla de Malbec e Syrah de acidez comedida, viscoso na medida certa e com uma pegada tânica que pode assustar de início. Nada como um bom descanso ali na taça mesmo para acalmar o néctar e fazê-lo entrar em equilíbrio (recomendo decantar), que foi de fato o que aconteceu.
Acho que não é à toa que alguns consideram o Aglianico del Vulture como o Barolo do sul da Itália. Mas quem sou eu para opinar sobre Barolo? Algum dia talvez eu possa emitir uma opinião mais consistente sobre essa comparação. A única coisa que sei por enquanto é que as garrafas de Aglianico são bem mais em conta que as de Nebbiolo!
No mais, harmonizei a primeira metade da garrafa com pizza e a segunda com comida japonesa quente, uma combinação um pouco arriscada que acabou funcionando.
Saúde!
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.aglianicodelvulture.net
http://www.wine-searcher.com/regions-aglianico+del+vulture
http://www.curiouswines.ie/proddetail.php?prod=Farnese_Sangiovese
http://www.wine-searcher.com/grape-511-uva-di-troia
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Lisini, Rosso di Montalcino DOC, Toscana 2013 (Itália)
Vinho: Rosso di Montalcino DOC
Safra: 2013
Região: Toscana
País: Itália
Vinícola: Lisini, também chamada Azienda Lisini (http://www.lisini.it)
Um pouco de história
Cobrindo uma área de 154 hectares, a propriedade da Azienda Lisini está localizada em Sant’Angelo in Colle, a 8 km no lado sul da cidade de Montalcino. Os parreirais de Sangiovese possuem um microclima especial por serem banhados pelas correntes oceânicas provenientes de Maremma, que acarretam verões secos e invernos suaves. Com um índice pluviométrico reduzido e ausência de névoa na altitude média de 350 metros sobre o nível do mar, os solos são dotados de significativo percentual de ferro e vão do argiloso ao sedimentar arenoso.
As raízes desta propriedade datam do século 14, mas foi somente dois séculos mais tarde que os Lisini se estabeleceram na região de Montalcino. Nos anos que precederam a explosão do famoso vinho Brunello de Montalcino a companhia já era renomada por sua produção de óleo de oliva extra virgem de grande qualidade, feita a partir de oliveiras localizadas na mesma região dos vinhedos.
A primeira safra da vinícola foi lançada em 1967, coincidindo com o estabelecimento do consórcio original de doze produtores de Brunello di Montalcino. Na década seguinte suas instalações foram modernizadas e a companhia se consolidou. Elina Lisini inclusive ocupou a cadeira de presidente do consórcio algum tempo depois.
O que há de tão especial em Montalcino?
Montalcino é uma comunidade muito pequena localizada no topo de uma elevação da região da Toscana, e cujo nome vem de uma antiga variedade de carvalho que cobria o terreno há muito tempo no passado. Nem sempre a cidade e suas redondezas foram pólo de produção vinícola, mas foi com muita esperteza e muita tenacidade que os produtores da região construíram a fama dos vinhos elaborados a partir da variedade italiana Sangiovese, em especial do Brunello di Montalcino. Como mencionado acima, a formação do consórcio de produtores de Brunello foi o pontapé inicial para o estabelecimento do que hoje é um dos rótulos mais cobiçados por enófilos mundo afora, que rivalizam em preço com Barolos e Barbarescos.
Primeiro vinho a obter a certificação DOCG na Itália, em 1980, o Brunello di Montalcino precisa ser envelhecido por no mínimo 2 anos em carvalho e passar pelo menos 4 meses de descanso em garrafa antes de ir ao mercado. Apesar disso, muitos produtores trabalham seus Brunellos por mais tempo (veja mais abaixo os tempos dos vinhos da Lisini).
Em 1984 foi criada a DOC Rosso di Montalcino, cujos vinhos devem ser feitos a partir de uvas da mesma região dos Brunellos, porém com tempos mais curtos em barril (mínimo de 6 meses). A intenção original era possibilitar aos produtores lançarem vinhos jovens e de perfil mais fresco, inclusive podendo ser Brunellos "desclassificados" antes dos dois anos de envelhecimento serem completados. Por isso mesmo há muitas pessoas que se referem ao Rosso como um "Brunello baby".
Outras DOCs de menos renome também são produzidas na região de Montalcino, como o Sant'Antimo e o branco Moscadello di Montalcino. Rótulos com a indicação geográfica típica genérica Toscana IGT também são produzidos ali.
Os vinhos da Lisini
Hoje a produção dos cinco rótulos tradicionais da Lisini fica a cargo do enólogo Filippo Paoletti, que utiliza tanques de cimento, aço inox e grandes barris de carvalho eslavo para vinificar exclusivamente a variedade Sangiovese. De acordo com informações em seu website, nenhum dos rótulos passa por filtração ao final do processo.
Numa passada rápida, os cinco vinhos produzidos são os seguintes, em ordem de importância de vinificação e custo final ao consumidor:
O vinho degustado: Lisini, Rosso di Montalcino DOC 2013
Este é o primeiro Rosso di Montalcino que provei. De acordo com o site da Lisini, são produzidas de 8.000 a 10.000 garrafas por ano.
Devo dizer que o vinho correspondeu às minhas expectativas. A acidez é marcante, porém num contexto de suave rugosidade onde álcool e taninos se mesclam para proporcionar um paladar bastante equilibrado. Em suma, o álcool não se sobressai, e eu nem precisei usar o decanter. No olfato lembra uma mistura úmida de cerejas e amoras pretas, levemente terrosa.
A expressão diferenciada da qual eu estava acostumado com a maioria dos rótulos de Sangiovese que já havia provado, tanto em versões varietais quanto em blends da DOCG Chianti, deve-se provavelmente à acidez mais equilibrada. Faltou pouco para que o vinho demonstrasse aquela sensação mais pura de veludo, mas foi definitivamente uma garrafa elegante e ao mesmo tempo mais acessível ao paladar, que pode perfeitamente dispensar comida e servir de acompanhamento para uma boa conversa.
No meu caso, a combinação envolveu pizza e bacalhau com polenta ao molho vermelho (não no mesmo dia, claro).
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.bbr.com/producer-74-lisini-tuscany
http://www.wine.com/v6/Lisini/learnabout.aspx?winery=2964&state=CA
http://www.uncorked.co.uk/offers/lisini-brunello-original-and-one-greats
http://www.bbc.com/news/magazine-21777695
http://en.wikipedia.org/wiki/Brunello_di_Montalcino
Safra: 2013
Região: Toscana
País: Itália
Vinícola: Lisini, também chamada Azienda Lisini (http://www.lisini.it)
Um pouco de história
Cobrindo uma área de 154 hectares, a propriedade da Azienda Lisini está localizada em Sant’Angelo in Colle, a 8 km no lado sul da cidade de Montalcino. Os parreirais de Sangiovese possuem um microclima especial por serem banhados pelas correntes oceânicas provenientes de Maremma, que acarretam verões secos e invernos suaves. Com um índice pluviométrico reduzido e ausência de névoa na altitude média de 350 metros sobre o nível do mar, os solos são dotados de significativo percentual de ferro e vão do argiloso ao sedimentar arenoso.
As raízes desta propriedade datam do século 14, mas foi somente dois séculos mais tarde que os Lisini se estabeleceram na região de Montalcino. Nos anos que precederam a explosão do famoso vinho Brunello de Montalcino a companhia já era renomada por sua produção de óleo de oliva extra virgem de grande qualidade, feita a partir de oliveiras localizadas na mesma região dos vinhedos.
A primeira safra da vinícola foi lançada em 1967, coincidindo com o estabelecimento do consórcio original de doze produtores de Brunello di Montalcino. Na década seguinte suas instalações foram modernizadas e a companhia se consolidou. Elina Lisini inclusive ocupou a cadeira de presidente do consórcio algum tempo depois.
O que há de tão especial em Montalcino?
Montalcino é uma comunidade muito pequena localizada no topo de uma elevação da região da Toscana, e cujo nome vem de uma antiga variedade de carvalho que cobria o terreno há muito tempo no passado. Nem sempre a cidade e suas redondezas foram pólo de produção vinícola, mas foi com muita esperteza e muita tenacidade que os produtores da região construíram a fama dos vinhos elaborados a partir da variedade italiana Sangiovese, em especial do Brunello di Montalcino. Como mencionado acima, a formação do consórcio de produtores de Brunello foi o pontapé inicial para o estabelecimento do que hoje é um dos rótulos mais cobiçados por enófilos mundo afora, que rivalizam em preço com Barolos e Barbarescos.
Primeiro vinho a obter a certificação DOCG na Itália, em 1980, o Brunello di Montalcino precisa ser envelhecido por no mínimo 2 anos em carvalho e passar pelo menos 4 meses de descanso em garrafa antes de ir ao mercado. Apesar disso, muitos produtores trabalham seus Brunellos por mais tempo (veja mais abaixo os tempos dos vinhos da Lisini).
Em 1984 foi criada a DOC Rosso di Montalcino, cujos vinhos devem ser feitos a partir de uvas da mesma região dos Brunellos, porém com tempos mais curtos em barril (mínimo de 6 meses). A intenção original era possibilitar aos produtores lançarem vinhos jovens e de perfil mais fresco, inclusive podendo ser Brunellos "desclassificados" antes dos dois anos de envelhecimento serem completados. Por isso mesmo há muitas pessoas que se referem ao Rosso como um "Brunello baby".
Outras DOCs de menos renome também são produzidas na região de Montalcino, como o Sant'Antimo e o branco Moscadello di Montalcino. Rótulos com a indicação geográfica típica genérica Toscana IGT também são produzidos ali.
Os vinhos da Lisini
Hoje a produção dos cinco rótulos tradicionais da Lisini fica a cargo do enólogo Filippo Paoletti, que utiliza tanques de cimento, aço inox e grandes barris de carvalho eslavo para vinificar exclusivamente a variedade Sangiovese. De acordo com informações em seu website, nenhum dos rótulos passa por filtração ao final do processo.
Numa passada rápida, os cinco vinhos produzidos são os seguintes, em ordem de importância de vinificação e custo final ao consumidor:
- San Biagio Rosso Toscano IGT - fermentado em tanques de aço inox e engarrafado em seguida;
- Rosso di Montalcino DOC - fermentado em tanques de cimento vitrificado e envelhecido 6 meses em carvalho eslavo, com descanso de 3 meses em garrafa;
- Brunello di Montalcino DOCG - fermentado em tanques de aço inox e envelhecido 36 meses em carvalho eslavo, com descanso de 6 a 8 meses em garrafa;
- Brunello di Montalcino DOCG Riserva - vinificado como o Brunello tradicional porém com seleção especial das uvas e de produção limitada, somente em safras consideradas excepcionais;
- Ugolaia Brunello di Montalcino DOCG Riserva - feito com uvas do vinhedo que lhe dá o nome, fermentado em tanques de aço inox e envelhecido 36 meses em carvalho eslavo, com descanso de mais 18 meses em garrafa.
O vinho degustado: Lisini, Rosso di Montalcino DOC 2013
Este é o primeiro Rosso di Montalcino que provei. De acordo com o site da Lisini, são produzidas de 8.000 a 10.000 garrafas por ano.
Devo dizer que o vinho correspondeu às minhas expectativas. A acidez é marcante, porém num contexto de suave rugosidade onde álcool e taninos se mesclam para proporcionar um paladar bastante equilibrado. Em suma, o álcool não se sobressai, e eu nem precisei usar o decanter. No olfato lembra uma mistura úmida de cerejas e amoras pretas, levemente terrosa.
A expressão diferenciada da qual eu estava acostumado com a maioria dos rótulos de Sangiovese que já havia provado, tanto em versões varietais quanto em blends da DOCG Chianti, deve-se provavelmente à acidez mais equilibrada. Faltou pouco para que o vinho demonstrasse aquela sensação mais pura de veludo, mas foi definitivamente uma garrafa elegante e ao mesmo tempo mais acessível ao paladar, que pode perfeitamente dispensar comida e servir de acompanhamento para uma boa conversa.
No meu caso, a combinação envolveu pizza e bacalhau com polenta ao molho vermelho (não no mesmo dia, claro).
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.bbr.com/producer-74-lisini-tuscany
http://www.wine.com/v6/Lisini/learnabout.aspx?winery=2964&state=CA
http://www.uncorked.co.uk/offers/lisini-brunello-original-and-one-greats
http://www.bbc.com/news/magazine-21777695
http://en.wikipedia.org/wiki/Brunello_di_Montalcino
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Vinho fora de casa - Parte 2: Uma apologia da Meia Garrafa
Amada por poucos e ignorada por muitos, a meia garrafa de vinho possui um charme próprio ao trazer metade do volume de uma garrafa comum (375 mililitros, o que equivale a pouco mais de 1/3 de litro). Muito embora seja possível elencar vantagens e desvantagens do formato, a verdade é que existem muitas utilidades para ela além daquelas que são mostradas no clássico filme sul-africano Os Deuses Devem Estar Loucos.
De longe, a meia garrafa se confunde facilmente com uma garrafa de cerveja long neck, e de perto representa uma excelente maneira de apreciar um vinho sem exceder a tolerância de álcool da maioria das pessoas. No meu caso, a meia garrafa representa o volume médio ideal para se consumir como acompanhamento para uma refeição fora de casa. Nem mais, nem menos. Bem, talvez um pouco mais, mas bem pouco.
Mercadologicamente, é esperado que a disponibilidade de meias garrafas em lojas, supermercados e restaurantes seja bastante inferior à das garrafas normais. O formato diferenciado e todos os custos associados não é muito vantajoso para os pequenos produtores, e como o preço médio acaba ficando sempre acima da metade de uma garrafa normal muitos deles acabam por não poder colocar tais produtos no mercado. E há também aqueles que se recusam a fabricá-las apesar de possuírem os recursos.
Não vou entrar no mérito do vinho em meias garrafas envelhecer mais rápido que numa garrafa comum, até porque hoje em dia a esmagadora oferta disponível para nós, simples mortais, está aí para ser consumida imediatamente.
O problema da meia garrafa na maioria dos restaurantes é que sua disponibilidade nas cartas de vinho é extremamente reduzida ou mesmo completamente ausente. Longe de mim querer dar uma de sommelier, mas da posição de consumidor em que estou acredito que seria de bom tom ter ao menos 20% a 30% de opções de meia garrafa quando as comparamos ao grosso da carta – algo como 2 ou 3 opções para cada 10 garrafas normais.
Dos restaurantes que têm meias garrafas na carta, noto que é comum estas serem as versões menores das garrafas inteiras (o que é ótimo), que sejam de linhas inferiores ou de entrada, ou que dêem preferência única aos tintos. Com relação a este último aspecto, será que os brancos são tão mais leves que não justificam um estoque de meias garrafas?
No começo eu não dava muita bola para isso, mas hoje digo que sou um enófilo mais feliz sempre que me deparo com uma carta de vinhos que tenha ao menos duas boas opções de meia garrafa em cada categoria. Apesar de já ter perdido a vergonha de levar sobra de vinho para casa, cada vez mais tenho me deparado com situações onde a meia garrafa é uma saída razoável e elegante.
Nesse último feriado de Carnaval viajamos a Fortaleza, e como apreciadores da boa mesa visitamos quatro restaurantes distintos à noite. Em todos eles eu pedi uma meia garrafa para acompanhar o jantar, e para celebrar o fato faço a seguir um breve relato de cada uma das experiências:
Um Chardonnay correto com o tempo ideal de barrica. Acompanhou perfeitamente o cardápio escolhido, da entrada de lulas empanadas ao prato principal de lagostas grelhadas. O restaurante, aparentemente um dos mais badalados de Fortaleza e o mais badalado da Av. Beira Mar, tem vários ambientes e localização privilegiada. A fila de espera nos assustou um pouco, mas acho que nem chegamos a esperar vinte minutos para sentar à mesa. Muito bom, vale a pena conhecer.
Um típico Malbec argentino, muito potente no alto de seus 14,5% de álcool. Aromas de fruta madura e paladar concentrado, encorpado, que harmonizou muito bem com um ternero ao molho de shitake e shimeji com risoto primavera. Visualmente, a etiqueta lembra muito uma cerveja long neck! Para quem busca um lugar refinado, com boas opções no cardápio e na carta de vinhos, o Tio Armênio é escolha certa. O melhor de tudo é que os preços são bem mais acessíveis que a média para um restaurante de sua categoria, então #ficaadica!
Sempre que podemos durante nossas viagens damos um jeito de ir a algum restaurante da rede Outback. Devido ao feriado prolongado, essa foi a primeira vez em que tivemos que aguardar um tempo considerável para conseguir uma mesa, mas a espera valeu a pena. A escolha da meia garrafa passou por lapsos de desinformação por parte do garçom, mas depois de algumas idas e vindas decidi-me por um vinho que ainda nem constava no cardápio oficial, um blend de Tinta Roriz (Tempranillo), Tinta Barroca, Touriga Franca e Touriga Nacional marcado por taninos presentes e carvalho bastante proeminente. A harmonização foi com costelinha de porco defumada ao molho barbecue, um dos nossos pratos favoritos no Outback.
No último dia resolvemos arriscar, e logo que entramos no restaurante cheguei a achar que não encontraria uma carta de vinhos. Como vocês podem ver eu estava enganado, e das opções disponíveis acabei por escolher este assemblage com parcelas iguais de Merlot e Cabernet Franc para acompanhar o couvert de pães e queijos e um talharim com frutos do mar. Um vinho com certa personalidade, que soa agradável ao paladar apesar de não se exibir muito no lado aromático. Nenhuma ressalva a se fazer ao restaurante, que tem bom ambiente e mostrou ótimo atendimento.
Enfim, deixo aqui meu mais sincero apreço pelas meias garrafas nos restaurantes. :)
A primeira parte desta breve dissertação sobre o ato de limitar a degustação de vinho fora de casa pode ser lida aqui. Já a terceira parte, que trata sobre o consumo de vinho por taça, pode ser lida aqui.
Um abraço a todos que têm me acompanhado e saúde!
De longe, a meia garrafa se confunde facilmente com uma garrafa de cerveja long neck, e de perto representa uma excelente maneira de apreciar um vinho sem exceder a tolerância de álcool da maioria das pessoas. No meu caso, a meia garrafa representa o volume médio ideal para se consumir como acompanhamento para uma refeição fora de casa. Nem mais, nem menos. Bem, talvez um pouco mais, mas bem pouco.
Mercadologicamente, é esperado que a disponibilidade de meias garrafas em lojas, supermercados e restaurantes seja bastante inferior à das garrafas normais. O formato diferenciado e todos os custos associados não é muito vantajoso para os pequenos produtores, e como o preço médio acaba ficando sempre acima da metade de uma garrafa normal muitos deles acabam por não poder colocar tais produtos no mercado. E há também aqueles que se recusam a fabricá-las apesar de possuírem os recursos.
Não vou entrar no mérito do vinho em meias garrafas envelhecer mais rápido que numa garrafa comum, até porque hoje em dia a esmagadora oferta disponível para nós, simples mortais, está aí para ser consumida imediatamente.
O problema da meia garrafa na maioria dos restaurantes é que sua disponibilidade nas cartas de vinho é extremamente reduzida ou mesmo completamente ausente. Longe de mim querer dar uma de sommelier, mas da posição de consumidor em que estou acredito que seria de bom tom ter ao menos 20% a 30% de opções de meia garrafa quando as comparamos ao grosso da carta – algo como 2 ou 3 opções para cada 10 garrafas normais.
Dos restaurantes que têm meias garrafas na carta, noto que é comum estas serem as versões menores das garrafas inteiras (o que é ótimo), que sejam de linhas inferiores ou de entrada, ou que dêem preferência única aos tintos. Com relação a este último aspecto, será que os brancos são tão mais leves que não justificam um estoque de meias garrafas?
No começo eu não dava muita bola para isso, mas hoje digo que sou um enófilo mais feliz sempre que me deparo com uma carta de vinhos que tenha ao menos duas boas opções de meia garrafa em cada categoria. Apesar de já ter perdido a vergonha de levar sobra de vinho para casa, cada vez mais tenho me deparado com situações onde a meia garrafa é uma saída razoável e elegante.
Nesse último feriado de Carnaval viajamos a Fortaleza, e como apreciadores da boa mesa visitamos quatro restaurantes distintos à noite. Em todos eles eu pedi uma meia garrafa para acompanhar o jantar, e para celebrar o fato faço a seguir um breve relato de cada uma das experiências:
Viña Parapacá, León de Tarapacá Chardonnay, DO Valle Central 2013 (Chile)
Degustado no restaurante Coco Bambu da Av. Beira Mar
Degustado no restaurante Coco Bambu da Av. Beira Mar
Um Chardonnay correto com o tempo ideal de barrica. Acompanhou perfeitamente o cardápio escolhido, da entrada de lulas empanadas ao prato principal de lagostas grelhadas. O restaurante, aparentemente um dos mais badalados de Fortaleza e o mais badalado da Av. Beira Mar, tem vários ambientes e localização privilegiada. A fila de espera nos assustou um pouco, mas acho que nem chegamos a esperar vinte minutos para sentar à mesa. Muito bom, vale a pena conhecer.
Bodega Alta Vista, Alta Vista Premium Estate Malbec, Mendoza 2013 (Argentina)
Degustado no restaurante Tio Armênio do Shopping RioMar
Degustado no restaurante Tio Armênio do Shopping RioMar
Um típico Malbec argentino, muito potente no alto de seus 14,5% de álcool. Aromas de fruta madura e paladar concentrado, encorpado, que harmonizou muito bem com um ternero ao molho de shitake e shimeji com risoto primavera. Visualmente, a etiqueta lembra muito uma cerveja long neck! Para quem busca um lugar refinado, com boas opções no cardápio e na carta de vinhos, o Tio Armênio é escolha certa. O melhor de tudo é que os preços são bem mais acessíveis que a média para um restaurante de sua categoria, então #ficaadica!
Casa Ferreirinha, Esteva Douro DOC 2013 (Portugal)
Degustado no restaurante Outback Steakhouse do Shopping Iguatemi
Degustado no restaurante Outback Steakhouse do Shopping Iguatemi
Sempre que podemos durante nossas viagens damos um jeito de ir a algum restaurante da rede Outback. Devido ao feriado prolongado, essa foi a primeira vez em que tivemos que aguardar um tempo considerável para conseguir uma mesa, mas a espera valeu a pena. A escolha da meia garrafa passou por lapsos de desinformação por parte do garçom, mas depois de algumas idas e vindas decidi-me por um vinho que ainda nem constava no cardápio oficial, um blend de Tinta Roriz (Tempranillo), Tinta Barroca, Touriga Franca e Touriga Nacional marcado por taninos presentes e carvalho bastante proeminente. A harmonização foi com costelinha de porco defumada ao molho barbecue, um dos nossos pratos favoritos no Outback.
Schröder & Schÿler, Château Bel Air Bordeaux AOC 2011 (França)
Degustado no restaurante La Luna, anexo ao hotel Ponta Mar
Degustado no restaurante La Luna, anexo ao hotel Ponta Mar
No último dia resolvemos arriscar, e logo que entramos no restaurante cheguei a achar que não encontraria uma carta de vinhos. Como vocês podem ver eu estava enganado, e das opções disponíveis acabei por escolher este assemblage com parcelas iguais de Merlot e Cabernet Franc para acompanhar o couvert de pães e queijos e um talharim com frutos do mar. Um vinho com certa personalidade, que soa agradável ao paladar apesar de não se exibir muito no lado aromático. Nenhuma ressalva a se fazer ao restaurante, que tem bom ambiente e mostrou ótimo atendimento.
Enfim, deixo aqui meu mais sincero apreço pelas meias garrafas nos restaurantes. :)
A primeira parte desta breve dissertação sobre o ato de limitar a degustação de vinho fora de casa pode ser lida aqui. Já a terceira parte, que trata sobre o consumo de vinho por taça, pode ser lida aqui.
Um abraço a todos que têm me acompanhado e saúde!
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Vinho fora de casa - Parte 1: Administrando a garrafa inteira sozinho
Todo enófilo já passou ou ainda passará pela seguinte situação: sedento por um vinho depois de um cansativo dia de trabalho, ou mesmo desejoso de saborear mais uma garrafa para simplesmente celebrar a vida e tudo o que nela há de belo, você se senta à mesa do restaurante e descobre que seu/sua acompanhante não pode te acompanhar por ordens médicas ou é do tipo de pessoa que passa todo o jantar bebericando uma taça somente.
E agora, o que fazer?
Por mais simples que pareça, tal situação implica em vários desdobramentos com os quais muitas pessoas ainda não estão preparadas para lidar, ou se sentem mesmo simplesmente desconfortáveis.
De uns tempos para cá tenho passado por isso, e após observar bastante e testar algumas das alternativas para o “problema” decidi compartilhar minhas experiências. Vou primeiramente elencar as soluções mais óbvias para o dilema, considerando sempre que o enófilo está sentado à mesa diante de uma carta de vinhos:
Opção 1. Abrir uma garrafa (750 ml).
Opção 2. Abrir uma meia garrafa (375 ml).
Opção 3. Tomar vinho por taça (150~175 ml).
Falemos agora sobre a primeira opção.
Abrir uma garrafa inteira significa, em primeiro momento, que você estará propenso a tomar todo (ou quase todo) o vinho. Ainda que alguns caboclos que conheço declarem aos quatro ventos que são capazes de beber uma garrafa de vinho “brincando”, acredito que uma garrafa inteira é demais para uma pessoa normal durante um jantar com duração média de duas horas. O álcool sobe pra cabeça, afeta o discernimento, incita comportamentos inapropriados e impossibilita completamente a direção responsável. Isso é fato, e não adianta achar que o baixo teor alcoolico de um Vinho Verde vai te ajudar pois o importante neste caso é sempre pensar em segurança e moderação.
Há alguns meses atrás, numa das vezes em que saímos para conhecer um novo restaurante, encarei uma garrafa inteira sozinho só para ver como seria a experiência. Bebi tudo, até a última gota, de um Sangiovese toscano com 14% de teor alcoolico (veja abaixo). O resultado foi um mês de gozação da minha esposa, que me zoou muito sobre o derramamento que provoquei em seu suco, o apagar da vela na mesa, as risadas do rapaz do estacionamento ao me observar ziguezagueando em direção ao banco do passageiro e minhas constantes declarações de “estou bem, estou bem...” já dentro do carro.
Obviamente, quem voltou dirigindo naquela noite foi minha esposa. Por mais que eu soubesse que era ela quem voltaria dirigindo, em determinado ponto do jantar eu já não estava em domínio de meus sentidos olfativos ou gustativos. Nem me recordo do sabor do meu prato, e tenho lembranças somente enevoadas do momento em que paguei a conta.
O que quero dizer, amigos enófilos, é que a atitude de beber uma garrafa inteira durante uma refeição fora de casa é extremamente desaconselhável, mesmo que haja alguém são para dirigir no trajeto de volta.
Por outro lado, nem tudo está perdido caso você decida por pedir uma garrafa inteira. Ora bolas, por que deveríamos beber tudo num intervalo de tempo tão curto? O que te impede de beber somente a metade da garrafa e levar o que sobrou para casa? Você está pagando pelo vinho, e a partir do momento em que chega à mesa ele é seu para fazer o que quiser.
Por acreditar que isso seja falta de etiqueta ou mesmo por timidez ou vergonha, a esmagadora maioria dos frequentadores de restaurantes não leva o vinho que sobrou consigo. Tudo bem se o que restou mal dá para limpar o fundo de uma taça, mas e se estamos diante de uma garrafa que ainda está pela metade? Amigos, não sejamos levianos com o líquido que amamos! Deixando-o na mesa, o destino é o lixo ou o paladar dos funcionários, que se forem espertos não se furtarão ao prazer de degustar um vinho já devidamente aerado assim que a mesa for limpa!
Recentemente, um de nossos restaurantes favoritos tomou a decisão de abolir sua carta de vinhos e manter somente dois rótulos na casa, algo que descobrimos de surpresa durante um jantar (em contrapartida, a rolha é livre todos os dias). Novamente diante do dilema de ter uma garrafa toda para mim, desta vez levei o que sobrou para casa e continuei degustando-a no conforto do meu lar no dia seguinte.
Como podem ver, essa foi uma decisão completamente acertada, pois a metade do volume de uma garrafa é na minha opinião a quantidade média ideal a ser consumida acompanhando um jantar fora.
Em vários estados dos EUA e do Canadá, inclusive, existe uma lei que permite que os restaurantes forneçam um serviço de re-selagem das garrafas para que os clientes levem o que sobrou do vinho para casa. Sabe-se que lá é proibido dirigir transportando garrafas abertas, o que acabava motivando as pessoas a beberem tudo antes de deixar o restaurante. A lei foi criada, portanto, para coibir esse comportamento e diminuir a incidência de acidentes decorrentes de bebedeira, o que de fato aconteceu de acordo com as estatísticas. Para saber um pouco mais clique aqui, aqui ou aqui.
Infelizmente todos sabem que no Brasil a lei é bem diferente. E que beber com responsabilidade é responsabilidade absoluta de cada um.
Para encerrar, uma última dúvida que pode surgir quanto a levar o vinho que sobrou para casa é como preservá-lo. Para isto as duas principais alternativas são dispositivos como o vacu-vin ou uma boa borrifada de gás inerte assim que chego em casa. Eu prefiro esta última opção, que venho usando há meses e funciona muito bem.
E você, já levou alguma garrafa de vinho pela metade do restaurante para casa?
No próximo texto discorro sobre o consumo de vinhos em meia garrafa.
E agora, o que fazer?
Por mais simples que pareça, tal situação implica em vários desdobramentos com os quais muitas pessoas ainda não estão preparadas para lidar, ou se sentem mesmo simplesmente desconfortáveis.
De uns tempos para cá tenho passado por isso, e após observar bastante e testar algumas das alternativas para o “problema” decidi compartilhar minhas experiências. Vou primeiramente elencar as soluções mais óbvias para o dilema, considerando sempre que o enófilo está sentado à mesa diante de uma carta de vinhos:
Opção 1. Abrir uma garrafa (750 ml).
Opção 2. Abrir uma meia garrafa (375 ml).
Opção 3. Tomar vinho por taça (150~175 ml).
Falemos agora sobre a primeira opção.
Abrir uma garrafa inteira significa, em primeiro momento, que você estará propenso a tomar todo (ou quase todo) o vinho. Ainda que alguns caboclos que conheço declarem aos quatro ventos que são capazes de beber uma garrafa de vinho “brincando”, acredito que uma garrafa inteira é demais para uma pessoa normal durante um jantar com duração média de duas horas. O álcool sobe pra cabeça, afeta o discernimento, incita comportamentos inapropriados e impossibilita completamente a direção responsável. Isso é fato, e não adianta achar que o baixo teor alcoolico de um Vinho Verde vai te ajudar pois o importante neste caso é sempre pensar em segurança e moderação.
Há alguns meses atrás, numa das vezes em que saímos para conhecer um novo restaurante, encarei uma garrafa inteira sozinho só para ver como seria a experiência. Bebi tudo, até a última gota, de um Sangiovese toscano com 14% de teor alcoolico (veja abaixo). O resultado foi um mês de gozação da minha esposa, que me zoou muito sobre o derramamento que provoquei em seu suco, o apagar da vela na mesa, as risadas do rapaz do estacionamento ao me observar ziguezagueando em direção ao banco do passageiro e minhas constantes declarações de “estou bem, estou bem...” já dentro do carro.
Castellani, Le Casine Sangiovese, Toscana IGT 2013 (Itália)
Bebendo a garrafa sozinho e enfiando o pé na jaca
Bebendo a garrafa sozinho e enfiando o pé na jaca
Obviamente, quem voltou dirigindo naquela noite foi minha esposa. Por mais que eu soubesse que era ela quem voltaria dirigindo, em determinado ponto do jantar eu já não estava em domínio de meus sentidos olfativos ou gustativos. Nem me recordo do sabor do meu prato, e tenho lembranças somente enevoadas do momento em que paguei a conta.
O que quero dizer, amigos enófilos, é que a atitude de beber uma garrafa inteira durante uma refeição fora de casa é extremamente desaconselhável, mesmo que haja alguém são para dirigir no trajeto de volta.
Por outro lado, nem tudo está perdido caso você decida por pedir uma garrafa inteira. Ora bolas, por que deveríamos beber tudo num intervalo de tempo tão curto? O que te impede de beber somente a metade da garrafa e levar o que sobrou para casa? Você está pagando pelo vinho, e a partir do momento em que chega à mesa ele é seu para fazer o que quiser.
Por acreditar que isso seja falta de etiqueta ou mesmo por timidez ou vergonha, a esmagadora maioria dos frequentadores de restaurantes não leva o vinho que sobrou consigo. Tudo bem se o que restou mal dá para limpar o fundo de uma taça, mas e se estamos diante de uma garrafa que ainda está pela metade? Amigos, não sejamos levianos com o líquido que amamos! Deixando-o na mesa, o destino é o lixo ou o paladar dos funcionários, que se forem espertos não se furtarão ao prazer de degustar um vinho já devidamente aerado assim que a mesa for limpa!
Recentemente, um de nossos restaurantes favoritos tomou a decisão de abolir sua carta de vinhos e manter somente dois rótulos na casa, algo que descobrimos de surpresa durante um jantar (em contrapartida, a rolha é livre todos os dias). Novamente diante do dilema de ter uma garrafa toda para mim, desta vez levei o que sobrou para casa e continuei degustando-a no conforto do meu lar no dia seguinte.
Bodega Septima, Septima Cabernet Sauvignon, Mendoza 2013 (Argentina)
Além de acompanhar um rodízio de massas e risotos, acompanhou-me também até a minha casa
Além de acompanhar um rodízio de massas e risotos, acompanhou-me também até a minha casa
Como podem ver, essa foi uma decisão completamente acertada, pois a metade do volume de uma garrafa é na minha opinião a quantidade média ideal a ser consumida acompanhando um jantar fora.
Em vários estados dos EUA e do Canadá, inclusive, existe uma lei que permite que os restaurantes forneçam um serviço de re-selagem das garrafas para que os clientes levem o que sobrou do vinho para casa. Sabe-se que lá é proibido dirigir transportando garrafas abertas, o que acabava motivando as pessoas a beberem tudo antes de deixar o restaurante. A lei foi criada, portanto, para coibir esse comportamento e diminuir a incidência de acidentes decorrentes de bebedeira, o que de fato aconteceu de acordo com as estatísticas. Para saber um pouco mais clique aqui, aqui ou aqui.
Infelizmente todos sabem que no Brasil a lei é bem diferente. E que beber com responsabilidade é responsabilidade absoluta de cada um.
Para encerrar, uma última dúvida que pode surgir quanto a levar o vinho que sobrou para casa é como preservá-lo. Para isto as duas principais alternativas são dispositivos como o vacu-vin ou uma boa borrifada de gás inerte assim que chego em casa. Eu prefiro esta última opção, que venho usando há meses e funciona muito bem.
E você, já levou alguma garrafa de vinho pela metade do restaurante para casa?
No próximo texto discorro sobre o consumo de vinhos em meia garrafa.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Woodbridge Pinot Noir, California 2012 (EUA)
Vinho: Woodbridge Pinot Noir
Safra: 2012
Região: California (Lodi)
País: EUA
Vinícola: Woodbridge Winery (http://www.woodbridgewines.com)
Um pouco de história
A Woodbridge Winery teve sua origem no final da década de 70, por iniciativa de um dos grandes nomes da história vitivinícola norteamericana e mundial, um sujeito visionário chamado Robert Mondavi.
Dada a importância de Mondavi para o mundo do vinho, é praticamente impossível falar dos vinhos Woodbridge sem considerar também seus outros empreendimentos, como a primeira vinícola que ele estabeleceu em Napa Valley. Na época da fundação da Woodbridge, Mondavi já trabalhava e desfrutava de excelente reputação com a Robert Mondavi Winery, que curiosamente surgiu a partir de uma terrível briga familiar. Foi na vinícola que leva seu nome, por exemplo, que ele criou e popularizou os vinhos Fumé Blanc feitos a partir de Sauvignon Blanc com passagem por madeira. O sucesso foi tanto que até hoje algumas pessoas acreditam que Fumé Blanc seja uma variedade distinta de uva branca.
Disposto a ampliar sua influência e diversificar suas atividades, Mondavi iniciou dois empreendimentos absolutamente distintos em 1979. No mais nobre deles, estabeleceu uma joint venture com o grupo francês Château Mouton Rothschild em plena Napa Valley. Mais tarde batizado de Opus One, o arrojado projeto foi o primeiro a vender um vinho de categoria premium nos Estados Unidos – um blend que leva o nome da vinícola e tem a Cabernet Sauvignon como principal componente, e que veio a se tornar um ícone caríssimo com o passar dos anos.
O outro empreendimento iniciado por Robert Mondavi em 1979 foi exatamente a fundação da Woodbridge Winery, que tinha como objetivo a produção de vinhos de qualidade destinados ao consumo do dia-a-dia (leia-se: mais baratos e acessíveis). Localizada na região de Lodi, que também é uma AVA, a vinícola era originalmente uma cooperativa de produtores que foi rebatizada com o nome da cidadezinha mais próxima.
Mesmo sem contar com a reputação de suas irmãs mais badaladas, nas décadas seguintes a Woodbridge se tornou muito conhecida devido à grande visibilidade junto à população em geral e à presença nas garrafas do chamativo complemento “by Robert Mondavi”.
A Woodbridge Winery hoje
Pode ser que em outros tempos Mondavi tenha tido certa influência na vinificação dos vinhos Woodbridge. Hoje em dia, no entanto, a realidade é muito mais comercial e menos glamorosa. Após se tornar uma companhia de capital aberto nos anos 90, o grupo Mondavi cresceu e estabeleceu parcerias em várias partes do mundo. Porém, num ambiente constantemente marcado por disputas familiares, em determinado momento o homem chegou a se declarar descontente com o foco que seus filhos davam à linha Woodbridge, que apesar de responder por mais da metade do faturamento das empresas teria colocado os vinhos de mais alta gama do grupo em segundo plano, arranhando sua imagem.
A celeuma continuou, e infelizmente as empresas de Mondavi acabaram sendo arrebatadas pela gigante Constellation Brands em 2004. Apesar de prosseguirem debaixo do mesmo grupo e operarem com certa independência, as vinícolas já não tinham membros da família envolvidos no negócio, e desde então carregam o nome Mondavi puramente por herança comercial.
Mondavi após Constellation Brands
E o que foi feito da família após a venda do grupo Mondavi?
Praticamente todos os membros, incluindo o patriarca, se uniram num novo empreendimento chamado Continuum Estate, localizado em outra sub-região de Napa Valley. Mondavi faleceu em 2008 aos 94 anos, mas seus filhos e netos seguem trabalhando em Continuum Estate para produzir um único vinho que tenta seguir o molde de excelência criado com o Opus One.
Os vinhos da Woodbridge
Existem duas categorias de vinhos produzidos pela Woodbridge Winery.
O Woodbridge by Robert Mondavi é distribuído em todo o mundo, sendo facilmente encontrado em lojas e supermercados. A linha engloba exemplares aparentemente varietais das cepas mais conhecidas. Digo “aparentemente” porque a composição de muitos destes vinhos, apesar de trazer somente um tipo de uva no rótulo, leva parcelas menores de outras cepas. Todos saem com a denominação genérica California, uma vez que são feitos a partir de uvas provenientes de diferentes produtores.
A segunda categoria, denominada Winemaker’s Selection, compreende uma gama de vinhos mais elaborados, que carregam no rótulo a AVA Lodi e incluem variações interessantes feitas a partir de castas autóctones italianas e portuguesas, além do já mencionado Fumé Blanc. O motivo de não podermos encontrar estes vinhos em lojas brasileiras é que eles são vendidos somente na própria vinícola ou distribuídos em seu clube exclusivo, chamado Heritage Wine Club.
O vinho degustado: Woodbridge Pinot Noir, California 2012
Aromas de cereja e frutas azedinhas, seguido por paladar de corpo leve, marcado por sutil presença de carvalho contra estrutura de pouco tanino, o que termina por prover maciez moderada ao vinho.
Esse exemplar da linha Woodbridge é correto, e cumpre o que promete desde que não se crie grandes expectativas. Está longe de ser um vinho ruim ou desequilibrado, mas fica a dúvida de até onde ele pode ser considerado um Pinot Noir puro. Os dados da vinícola dizem que na composição entram também Syrah (11%), Tempranillo (2%), Cinsault (2%), Tannat (2%), Alicante Bouschet (2%) e mais 2% de um blend proprietário de varietais tintos. O percentual de Pinot Noir é de 79%.
O vinho foi harmonizado com paleta de cordeiro acompanhada de arroz, batatas e brócolis, tendo sido escolhido para participação no segundo evento da confraria virtual Viva o Vinho.
Saúde!
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.woodbridgewines.com/Inside-Woodbridge/winemaking.php
http://www.woodbridgewines.com/Inside-Woodbridge/mondavi-history.php
http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Mondavi
http://en.wikipedia.org/wiki/Opus_One_Winery
http://www.nytimes.com/2003/07/02/dining/wine-talk-with-head-held-high-mondavi-at-90-faces-a-storm.html
http://www.decanter.com/wine-news/colossus-robert-mondavi-dies-82224
Safra: 2012
Região: California (Lodi)
País: EUA
Vinícola: Woodbridge Winery (http://www.woodbridgewines.com)
Um pouco de história
A Woodbridge Winery teve sua origem no final da década de 70, por iniciativa de um dos grandes nomes da história vitivinícola norteamericana e mundial, um sujeito visionário chamado Robert Mondavi.
Dada a importância de Mondavi para o mundo do vinho, é praticamente impossível falar dos vinhos Woodbridge sem considerar também seus outros empreendimentos, como a primeira vinícola que ele estabeleceu em Napa Valley. Na época da fundação da Woodbridge, Mondavi já trabalhava e desfrutava de excelente reputação com a Robert Mondavi Winery, que curiosamente surgiu a partir de uma terrível briga familiar. Foi na vinícola que leva seu nome, por exemplo, que ele criou e popularizou os vinhos Fumé Blanc feitos a partir de Sauvignon Blanc com passagem por madeira. O sucesso foi tanto que até hoje algumas pessoas acreditam que Fumé Blanc seja uma variedade distinta de uva branca.
Disposto a ampliar sua influência e diversificar suas atividades, Mondavi iniciou dois empreendimentos absolutamente distintos em 1979. No mais nobre deles, estabeleceu uma joint venture com o grupo francês Château Mouton Rothschild em plena Napa Valley. Mais tarde batizado de Opus One, o arrojado projeto foi o primeiro a vender um vinho de categoria premium nos Estados Unidos – um blend que leva o nome da vinícola e tem a Cabernet Sauvignon como principal componente, e que veio a se tornar um ícone caríssimo com o passar dos anos.
O outro empreendimento iniciado por Robert Mondavi em 1979 foi exatamente a fundação da Woodbridge Winery, que tinha como objetivo a produção de vinhos de qualidade destinados ao consumo do dia-a-dia (leia-se: mais baratos e acessíveis). Localizada na região de Lodi, que também é uma AVA, a vinícola era originalmente uma cooperativa de produtores que foi rebatizada com o nome da cidadezinha mais próxima.
Mesmo sem contar com a reputação de suas irmãs mais badaladas, nas décadas seguintes a Woodbridge se tornou muito conhecida devido à grande visibilidade junto à população em geral e à presença nas garrafas do chamativo complemento “by Robert Mondavi”.
A Woodbridge Winery hoje
Pode ser que em outros tempos Mondavi tenha tido certa influência na vinificação dos vinhos Woodbridge. Hoje em dia, no entanto, a realidade é muito mais comercial e menos glamorosa. Após se tornar uma companhia de capital aberto nos anos 90, o grupo Mondavi cresceu e estabeleceu parcerias em várias partes do mundo. Porém, num ambiente constantemente marcado por disputas familiares, em determinado momento o homem chegou a se declarar descontente com o foco que seus filhos davam à linha Woodbridge, que apesar de responder por mais da metade do faturamento das empresas teria colocado os vinhos de mais alta gama do grupo em segundo plano, arranhando sua imagem.
A celeuma continuou, e infelizmente as empresas de Mondavi acabaram sendo arrebatadas pela gigante Constellation Brands em 2004. Apesar de prosseguirem debaixo do mesmo grupo e operarem com certa independência, as vinícolas já não tinham membros da família envolvidos no negócio, e desde então carregam o nome Mondavi puramente por herança comercial.
Mondavi após Constellation Brands
E o que foi feito da família após a venda do grupo Mondavi?
Praticamente todos os membros, incluindo o patriarca, se uniram num novo empreendimento chamado Continuum Estate, localizado em outra sub-região de Napa Valley. Mondavi faleceu em 2008 aos 94 anos, mas seus filhos e netos seguem trabalhando em Continuum Estate para produzir um único vinho que tenta seguir o molde de excelência criado com o Opus One.
Os vinhos da Woodbridge
Existem duas categorias de vinhos produzidos pela Woodbridge Winery.
O Woodbridge by Robert Mondavi é distribuído em todo o mundo, sendo facilmente encontrado em lojas e supermercados. A linha engloba exemplares aparentemente varietais das cepas mais conhecidas. Digo “aparentemente” porque a composição de muitos destes vinhos, apesar de trazer somente um tipo de uva no rótulo, leva parcelas menores de outras cepas. Todos saem com a denominação genérica California, uma vez que são feitos a partir de uvas provenientes de diferentes produtores.
A segunda categoria, denominada Winemaker’s Selection, compreende uma gama de vinhos mais elaborados, que carregam no rótulo a AVA Lodi e incluem variações interessantes feitas a partir de castas autóctones italianas e portuguesas, além do já mencionado Fumé Blanc. O motivo de não podermos encontrar estes vinhos em lojas brasileiras é que eles são vendidos somente na própria vinícola ou distribuídos em seu clube exclusivo, chamado Heritage Wine Club.
O vinho degustado: Woodbridge Pinot Noir, California 2012
Aromas de cereja e frutas azedinhas, seguido por paladar de corpo leve, marcado por sutil presença de carvalho contra estrutura de pouco tanino, o que termina por prover maciez moderada ao vinho.
Esse exemplar da linha Woodbridge é correto, e cumpre o que promete desde que não se crie grandes expectativas. Está longe de ser um vinho ruim ou desequilibrado, mas fica a dúvida de até onde ele pode ser considerado um Pinot Noir puro. Os dados da vinícola dizem que na composição entram também Syrah (11%), Tempranillo (2%), Cinsault (2%), Tannat (2%), Alicante Bouschet (2%) e mais 2% de um blend proprietário de varietais tintos. O percentual de Pinot Noir é de 79%.
O vinho foi harmonizado com paleta de cordeiro acompanhada de arroz, batatas e brócolis, tendo sido escolhido para participação no segundo evento da confraria virtual Viva o Vinho.
Saúde!
Referências de pesquisa para este texto:
http://www.woodbridgewines.com/Inside-Woodbridge/winemaking.php
http://www.woodbridgewines.com/Inside-Woodbridge/mondavi-history.php
http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Mondavi
http://en.wikipedia.org/wiki/Opus_One_Winery
http://www.nytimes.com/2003/07/02/dining/wine-talk-with-head-held-high-mondavi-at-90-faces-a-storm.html
http://www.decanter.com/wine-news/colossus-robert-mondavi-dies-82224
sábado, 30 de janeiro de 2016
A absolutamente sustentável leveza do vinho branco
Quando alguém diz que não gosta disso ou daquilo à mesa, costumo retrucar que isso é bom porque assim sobra mais pra quem gosta.
Apesar dessa afirmação algo infantilizada se aplicar mais fortemente para coentro, rabanete ou pequi, num contexto enófilo geral ela também vale para o vinho branco. Porque vinho branco junto a grande parte do povo brasileiro, que prima por uma cultura machista e pseudo-intelectual, não passa de bebida de mulher ou de gente “fresca”. Obviamente tal ideia não surgiu da noite para o dia, tendo raízes profundas em nossa herança cultural.
Quando vejo matérias em revistas e websites tentando convencer o leitor a tomar mais vinho branco percebo sempre os mesmos argumentos cansados, batidos, gastos de tanto serem copiados por meio de CTRL+C / CTRL+V. Coisas como a ideia de que o vinho branco é mais refrescante e casa com verão, com sol, com praia, com piscina, etc.
Isso me enerva porque, seguindo esse raciocínio, em locais de clima frio ou muito frio não se beberia vinho branco.
Outra vertente que tenta trazer as pessoas para o lado branco da enofilia está na sugestão de harmonização gastronômica com peixes, frutos do mar e pratos “leves”. Apesar de ser outra afirmação óbvia, o que existe de gente que não se furta ao tinto em refeições do tipo é alarmante.
Infelizmente, sinto que todas essas altercações e tentativas de convencimento, na maior parte das vezes, entram por um ouvido e saem pelo outro.
Antes de continuar, declaro que em nenhum momento tenho a intenção de denegrir o gosto alheio, até porque cada um tem o seu e isso é o mais importante sempre. O que me deixa perplexo e ligeiramente irritado às vezes é a malhação gratuita e infundada à categoria dos vinhos brancos. Se você, leitor, é um colega enófilo que não guarda uma garrafa sequer de vinho branco na adega e já está me olhando torto desde o segundo parágrafo deste texto, sinto muito. Nós provavelmente teríamos uma acalorada discussão se estivéssemos sentados à mesa diante de uma carta de vinhos.
Na minha modesta opinião existem motivos bem mais razoáveis que os expostos acima para dar uma chance aos vinhos brancos. Rogo que deixem de lado essa balela de que eles só combinam com clima quente ou que eles só podem acompanhar frutos do mar. Mesmo sem ter muita quilometragem enófila, ouso contribuir com alguns pitacos neste tema não tão delicado e nem tão controverso, mas bastante pertinente principalmente em ocasiões de interação social.
Eis três pontos importantes:
Sobre este tema em particular, confesso que meu estilo de vinho branco preferido é o jovem, frutado, de pegada mais mineral, sem passagem por carvalho. Mesmo assim, procuro ter sempre por perto uma garrafa com passagem por carvalho (geralmente Chardonnay), uma vez que elas são o correspondente natural para tintos de corpo médio. A combinação do álcool com os taninos, neste caso, contribui com um peso que praticamente iguala o branco ao tinto.
Outra coisa extremamente importante: consumir vinho branco fora da faixa de temperatura ideal é o fim da rosca. O balde com gelo faz muita diferença.
Ah, mas e se eu estiver num frio de 5 graus?
Neste caso um tinto encorpado é a melhor pedida, claro! Mas basear-se na temperatura ambiente a ferro e fogo também é outra forma de cercear a diversidade. Afinal, lareira, aquecedores e aparelhos de ar condicionado existem pra quê mesmo?
Apesar dessa afirmação algo infantilizada se aplicar mais fortemente para coentro, rabanete ou pequi, num contexto enófilo geral ela também vale para o vinho branco. Porque vinho branco junto a grande parte do povo brasileiro, que prima por uma cultura machista e pseudo-intelectual, não passa de bebida de mulher ou de gente “fresca”. Obviamente tal ideia não surgiu da noite para o dia, tendo raízes profundas em nossa herança cultural.
Quando vejo matérias em revistas e websites tentando convencer o leitor a tomar mais vinho branco percebo sempre os mesmos argumentos cansados, batidos, gastos de tanto serem copiados por meio de CTRL+C / CTRL+V. Coisas como a ideia de que o vinho branco é mais refrescante e casa com verão, com sol, com praia, com piscina, etc.
Isso me enerva porque, seguindo esse raciocínio, em locais de clima frio ou muito frio não se beberia vinho branco.
Outra vertente que tenta trazer as pessoas para o lado branco da enofilia está na sugestão de harmonização gastronômica com peixes, frutos do mar e pratos “leves”. Apesar de ser outra afirmação óbvia, o que existe de gente que não se furta ao tinto em refeições do tipo é alarmante.
Infelizmente, sinto que todas essas altercações e tentativas de convencimento, na maior parte das vezes, entram por um ouvido e saem pelo outro.
Antes de continuar, declaro que em nenhum momento tenho a intenção de denegrir o gosto alheio, até porque cada um tem o seu e isso é o mais importante sempre. O que me deixa perplexo e ligeiramente irritado às vezes é a malhação gratuita e infundada à categoria dos vinhos brancos. Se você, leitor, é um colega enófilo que não guarda uma garrafa sequer de vinho branco na adega e já está me olhando torto desde o segundo parágrafo deste texto, sinto muito. Nós provavelmente teríamos uma acalorada discussão se estivéssemos sentados à mesa diante de uma carta de vinhos.
Na minha modesta opinião existem motivos bem mais razoáveis que os expostos acima para dar uma chance aos vinhos brancos. Rogo que deixem de lado essa balela de que eles só combinam com clima quente ou que eles só podem acompanhar frutos do mar. Mesmo sem ter muita quilometragem enófila, ouso contribuir com alguns pitacos neste tema não tão delicado e nem tão controverso, mas bastante pertinente principalmente em ocasiões de interação social.
Eis três pontos importantes:
- O vinho branco é imbatível como aperitivo – O evento não começou ainda e os convivas querem abrir uma garrafa? É nesses momentos que os vinhos brancos brilham, pois além de virem antes dos tintos na escala de múltiplas harmonizações eles são leves, não pesam no paladar e alegram as mentes sem incorrer em alcoolização excessiva. Que maravilha é um Sauvignon Blanc ou um Torrontés da safra mais recente possível. Um Vinho Verde então!
- Leveza – Para um mesmo teor alcoolico, a maioria dos vinhos brancos sem passagem por carvalho sempre será mais leve que qualquer vinho tinto. Como um degustador contumaz, daqueles que chegam a abrir três ou mais garrafas por semana, muitas vezes meu paladar clama por algo mais leve. Leveza é bem-vinda quando nossas glândulas começam a ficar saturadas com taninos, quando há um compromisso madrugador no dia seguinte ou quando a(s) companhia(s) desejam algo alcoolico com menos potencial de te “derrubar”. Atenção: leve não é a mesma coisa que ralo, e é mais provável a gente se deparar com um tinto aguado do que com um branco aguado.
- Maior diversidade aromática – Via de regra, tenho percebido que os vinhos tintos se diferenciam mesmo na sensação tátil do paladar. Nos vinhos brancos a situação se inverte, ou seja, é na análise olfativa que se percebe uma maior diversidade entre as mais diversas castas. Além disso, a probabilidade de vivenciar uma riqueza aromática maior nas garrafas de preço mais modesto está do lado dos vinhos brancos, uma vez que é mais difícil encontrar personalidade aromática em tintos baratinhos.
Sobre este tema em particular, confesso que meu estilo de vinho branco preferido é o jovem, frutado, de pegada mais mineral, sem passagem por carvalho. Mesmo assim, procuro ter sempre por perto uma garrafa com passagem por carvalho (geralmente Chardonnay), uma vez que elas são o correspondente natural para tintos de corpo médio. A combinação do álcool com os taninos, neste caso, contribui com um peso que praticamente iguala o branco ao tinto.
Outra coisa extremamente importante: consumir vinho branco fora da faixa de temperatura ideal é o fim da rosca. O balde com gelo faz muita diferença.
Ah, mas e se eu estiver num frio de 5 graus?
Neste caso um tinto encorpado é a melhor pedida, claro! Mas basear-se na temperatura ambiente a ferro e fogo também é outra forma de cercear a diversidade. Afinal, lareira, aquecedores e aparelhos de ar condicionado existem pra quê mesmo?
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