Quando chega um email em minha caixa de entrada oferecendo-me um vinho por "apenas" R$ 1.299,00 eu me pergunto duas coisas.
Uma delas é que tipo de gente se dá ao luxo de pagar esse valor por uma garrafa de vinho. Se o vinho tem esse preço, é porque existe gente que compra.
Aí fica difícil reprovar o marketing de vinícolas que acabaram de ser fundadas e chegam a pedir R$ 500,00 por uma garrafa ícone de seu portfolio, numa exploração descarada de gente que acredita que vinho é status.
A outra coisa que penso é se eu seria tão retardado a ponto de um dia comprar um vinho assim.
Mas nem se eu ganhasse na Mega Sena!
Mais fácil seria plantar alguns hectares de Petit Verdot na Chapada dos Guimarães e engarrafar o sumo dois anos depois cobrando R$ 500,00 pela garrafa.
É cada uma que me aparece...
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quarta-feira, 10 de abril de 2019
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
E o desprezo pelo vinho branco continua
Há algumas semanas atrás tive a chance de ir a dois restaurantes de boa reputação na cidade de Rondonópolis, interior de Mato Grosso. Um deles já era velho conhecido, ao outro fomos pela primeira vez. E como nossas saídas noturnas têm sido muito raras, obviamente decidimos que beberíamos vinho.
O primeiro deles foi o Mediterrâneo Restaurante, cujas especialidades culinárias espelham o nome do estabelecimento. Ambiente requintado e harmonioso, bom atendimento. Eis que chega à mesa a carta de vinhos, e como nossa opção seria peixe a escolha seria naturalmente por um vinho branco.
Após perguntarmos sobre a disponibilidade da garrafa selecionada, esperamos um pouco pelo retorno do garçom e fomos informados que ela estava em falta. Escolhi outra, mas também não tinham a garrafa disponível. Quando o rapaz percebeu que eu não arredaria dos brancos ele finalmente comunicou que o estabelecimento estava completamente sem vinhos brancos. Ou seja, das cinco ou seis opções na carta não havia sequer uma garrafa.
O resultado: fomos obrigado a pedir um tinto, adequando os pratos ao mesmo. Para meu paladar o vinho estava muito denso, pesado, carregado demais na madeira. Foi esse aí:
O segundo restaurante foi visitado umas duas ou três semanas mais tarde. Trata-se do Kenkou Sushi House, velho conhecido da família e de nosso círculo de amigos. Por algum motivo que me é extremamente obscuro, nunca tínhamos tomado vinho no estabelecimento, mas nesse dia estávamos decididos a mudar essa escrita.
Na carta de vinhos, que está junto aos demais itens do menu disponível no tablet de cada mesa, apenas um vinho branco estava listado: o Cosecha Chardonnay, reservado disfarçado da Viña Tarapacá. "Okay, tudo bem, esse será o escolhido", pensei. Qual foi nossa surpresa, porém? O vinho estava indisponível. A alternativa seria um Moscatel da Casa Valduga ou um tinto.
E terminamos optando por este:
Este Merlot estava agradável. Bem feitinho, redondo, a Merlot é mesmo uma uva coringa quando bem vinificada.
Notem que não estamos falando aqui de estabelecimentos de qualidade duvidosa, mas sim de restaurantes muito bem estabelecidos e de ótima reputação (cliquem nos links e verão as avaliações do TripAdvisor). A completa ausência de vinhos brancos é ainda mais alarmante no caso do Kenkou, uma casa especializada em culinária japonesa.
O aparente desconhecimento dos responsáveis dos restaurantes quanto à importância do vinho branco é somente um dos indícios que denotam o preconceito arraigado de população e empresários quanto a este item específico em sua grade de atendimento ao cliente. Nem vou entrar no mérito dos preços, que no caso do Mediterrâneo são totalmente abusivos e contribuem ainda mais para a marginalização da bebida e suprema permanência da cerveja nas mesas dos frequentadores.
E assim segue o baile.
Vinho branco pra quê mesmo, né?
O primeiro deles foi o Mediterrâneo Restaurante, cujas especialidades culinárias espelham o nome do estabelecimento. Ambiente requintado e harmonioso, bom atendimento. Eis que chega à mesa a carta de vinhos, e como nossa opção seria peixe a escolha seria naturalmente por um vinho branco.
Após perguntarmos sobre a disponibilidade da garrafa selecionada, esperamos um pouco pelo retorno do garçom e fomos informados que ela estava em falta. Escolhi outra, mas também não tinham a garrafa disponível. Quando o rapaz percebeu que eu não arredaria dos brancos ele finalmente comunicou que o estabelecimento estava completamente sem vinhos brancos. Ou seja, das cinco ou seis opções na carta não havia sequer uma garrafa.
O resultado: fomos obrigado a pedir um tinto, adequando os pratos ao mesmo. Para meu paladar o vinho estava muito denso, pesado, carregado demais na madeira. Foi esse aí:
Serrera Wines / Marton Andina
Serrera del Pecado Malbec Cabernet Sauvignon 2014
Mendoza, Argentina
O segundo restaurante foi visitado umas duas ou três semanas mais tarde. Trata-se do Kenkou Sushi House, velho conhecido da família e de nosso círculo de amigos. Por algum motivo que me é extremamente obscuro, nunca tínhamos tomado vinho no estabelecimento, mas nesse dia estávamos decididos a mudar essa escrita.
Na carta de vinhos, que está junto aos demais itens do menu disponível no tablet de cada mesa, apenas um vinho branco estava listado: o Cosecha Chardonnay, reservado disfarçado da Viña Tarapacá. "Okay, tudo bem, esse será o escolhido", pensei. Qual foi nossa surpresa, porém? O vinho estava indisponível. A alternativa seria um Moscatel da Casa Valduga ou um tinto.
E terminamos optando por este:
Viña San Pedro Tarapacá
Cosecha Tarapacá Merlot 2017
Valle Central, Chile
Este Merlot estava agradável. Bem feitinho, redondo, a Merlot é mesmo uma uva coringa quando bem vinificada.
Notem que não estamos falando aqui de estabelecimentos de qualidade duvidosa, mas sim de restaurantes muito bem estabelecidos e de ótima reputação (cliquem nos links e verão as avaliações do TripAdvisor). A completa ausência de vinhos brancos é ainda mais alarmante no caso do Kenkou, uma casa especializada em culinária japonesa.
O aparente desconhecimento dos responsáveis dos restaurantes quanto à importância do vinho branco é somente um dos indícios que denotam o preconceito arraigado de população e empresários quanto a este item específico em sua grade de atendimento ao cliente. Nem vou entrar no mérito dos preços, que no caso do Mediterrâneo são totalmente abusivos e contribuem ainda mais para a marginalização da bebida e suprema permanência da cerveja nas mesas dos frequentadores.
E assim segue o baile.
Vinho branco pra quê mesmo, né?
terça-feira, 22 de maio de 2018
Da quilometragem enófila
Uma das grandes verdades sobre o nosso hobby — a enofilia — é o inegável prazer que ele nos proporciona. Prazer em vários níveis, sob as mais diversas condições econômicas e dentro das mais variadas expectativas pessoais, seja ele sensorial (o barato da degustação e da harmonização), cultural (o aprendizado contínuo), geográfico (as viagens) ou social (as amizades).
Para todos os que gostam de vinho é fascinante ler e se informar sobre esse universo, mas a verdade maior é que para aprender de fato sobre vinhos é preciso bebê-los. E quanto mais bebemos e degustamos, mais aumenta nossa quilometragem enófila.
Vira e mexe é bom analisarmos o que aprendemos nos últimos tempos, e para quais novas preferências ou velhas constatações apontam nossas experiências. Está aí um exercício que vale a pena fazer, mesmo que seja virtualmente impossível abraçar todos os vinhos produzidos no mundo (para isso teríamos que ganhar na Mega Sena, parar de trabalhar e viver viajando, em degustações diárias no café da manhã, no almoço e no jantar).
Afinal, a quantas anda nossa quilometragem enófila?
Tudo bem que diminuí o ritmo de publicações nesse blogue durante os meses recentes, mas com certeza não diminuí a quantidade de degustações. Coloco a seguir, portanto, algumas das constatações que tenho feito desde as elucubrações iniciais de alguns anos atrás.
• Vinhos do velho mundo são melhores que vinhos do novo mundo. Por quê? Em sua grande maioria eles são mais harmoniosos, elegantes e saborosos. Simples assim.
• O país que entrega os vinhos mais consistentes é, sem dúvida, Portugal. Seja nas garrafas mais singelas ou nos maiores ícones, os vinhos portugueses raramente decepcionam.
• Devido às grandes distâncias que precisam viajar para chegar até nós brasileiros, os vinhos do velho mundo se degradam mais rápido que os demais. Sempre, SEMPRE devemos procurar a safra mais recente deles, fugindo das promoções e desovas de safras antigas, principalmente em supermercados.
• Novamente, os vinhos mais resistentes às grandes viagens são os portugueses. Seria algo relacionado à logística lusitana ou seria influência de suas robustas castas autóctones?
• Vinho branco NUNCA será considerado bebida "digna de homem" nesse país. Em discussões ou reuniões de clube do Bolinha nem adianta tentar empurrar vinho branco. Vinho rosé então...
• Falando em brancos, a Viognier é uma casta fantástica e deveria ser melhor conhecida por todos.
• Tenho desenvolvido uma simpatia cada vez maior pela Merlot, que parece ser de fato o meio-termo mais seguro no mundo dos tintos.
• A melhor finalidade da Malbec são os rosés feitos da partir dela.
• Carvalho continua superestimado.
• É cada vez mais triste constatar como estão caros os bons vinhos feitos de Riesling.
• Já os Beaujolais nunca vão entrar nas faixas de preço às quais verdadeiramente pertencem.
• Dito isso, é abominável a safadeza com que certas distribuidoras/vinícolas usam o marketing para inflacionar os preços de seus vinhos.
• A maioria esmagadora dos restaurantes está assassinando a cultura da democratização do vinho com o aumento contínuo de preços em suas cartas. A probabilidade do vinho ser mais difundido em regiões sem cultura enófila é ZERO.
• Está ficando cada vez mais difícil escolher vinhos nas cartas dos restaurantes. Primeiro, porque é sempre mais do mesmo. Segundo, porque querem cobrar preços cada vez maiores por mais do mesmo.
• Rolha livre ou taxa de rolha simbólica é vida.
• Comprar vinhos pela Internet é melhor que comprar em supermercados ou lojas especializadas, seja por diversidade ou por preço.
• Clubes de vinho são alternativas que ainda valem a pena se você não quiser gastar muito.
• Arriscar faz parte e é sempre bom tentar conhecer aquele rótulo mais inusitado, mesmo que no final o resultado seja decepção.
• Felizes são os enófilos que participam de confrarias com gente animada e apaixonada por vinho.
• Beber grandes vinhos em companhia de quem não se importa com vinho é algo que nunca mais farei na vida. Neste caso a ideia é "antes beber sozinho do que mal acompanhado".
• A não ser que seja para meu próprio consumo, há muito tempo desisti de ser aquele que traz a garrafa e as taças à mesa em qualquer encontro de família ou amigos.
• Para situações de confraternização com pessoas avessas à cultura do vinho procuro manter sempre algumas garrafas bem baratas na adega.
• Em contrapartida, na ocasião em que é possível beber festivamente com amigos é natural que o grau de satisfação com qualquer vinho aumente.
Acho que por hoje está bom.
Volto ao tema daqui a três anos, se eu ainda estiver por aqui. Nesse meio tempo sintam-se à vontade para adicionar suas constatações ou contestações às minhas constatações.
Para todos os que gostam de vinho é fascinante ler e se informar sobre esse universo, mas a verdade maior é que para aprender de fato sobre vinhos é preciso bebê-los. E quanto mais bebemos e degustamos, mais aumenta nossa quilometragem enófila.
Vira e mexe é bom analisarmos o que aprendemos nos últimos tempos, e para quais novas preferências ou velhas constatações apontam nossas experiências. Está aí um exercício que vale a pena fazer, mesmo que seja virtualmente impossível abraçar todos os vinhos produzidos no mundo (para isso teríamos que ganhar na Mega Sena, parar de trabalhar e viver viajando, em degustações diárias no café da manhã, no almoço e no jantar).
Já pensou em uma mesa como essa em cada refeição?
Crédito: @andrew_wilcocks (Twitter)
Crédito: @andrew_wilcocks (Twitter)
Afinal, a quantas anda nossa quilometragem enófila?
• Vinhos do velho mundo são melhores que vinhos do novo mundo. Por quê? Em sua grande maioria eles são mais harmoniosos, elegantes e saborosos. Simples assim.
• O país que entrega os vinhos mais consistentes é, sem dúvida, Portugal. Seja nas garrafas mais singelas ou nos maiores ícones, os vinhos portugueses raramente decepcionam.
• Devido às grandes distâncias que precisam viajar para chegar até nós brasileiros, os vinhos do velho mundo se degradam mais rápido que os demais. Sempre, SEMPRE devemos procurar a safra mais recente deles, fugindo das promoções e desovas de safras antigas, principalmente em supermercados.
• Novamente, os vinhos mais resistentes às grandes viagens são os portugueses. Seria algo relacionado à logística lusitana ou seria influência de suas robustas castas autóctones?
Garantia de coisa boa, ora pois pois!
• Vinho branco NUNCA será considerado bebida "digna de homem" nesse país. Em discussões ou reuniões de clube do Bolinha nem adianta tentar empurrar vinho branco. Vinho rosé então...
• Falando em brancos, a Viognier é uma casta fantástica e deveria ser melhor conhecida por todos.
• Tenho desenvolvido uma simpatia cada vez maior pela Merlot, que parece ser de fato o meio-termo mais seguro no mundo dos tintos.
• A melhor finalidade da Malbec são os rosés feitos da partir dela.
• Carvalho continua superestimado.
• Já os Beaujolais nunca vão entrar nas faixas de preço às quais verdadeiramente pertencem.
• Dito isso, é abominável a safadeza com que certas distribuidoras/vinícolas usam o marketing para inflacionar os preços de seus vinhos.
Se é caro é bom, se é barato não presta
Uma dica interessante de leitura: How a Wine's Price Tag Affects Its Taste
Uma dica interessante de leitura: How a Wine's Price Tag Affects Its Taste
• Está ficando cada vez mais difícil escolher vinhos nas cartas dos restaurantes. Primeiro, porque é sempre mais do mesmo. Segundo, porque querem cobrar preços cada vez maiores por mais do mesmo.
• Rolha livre ou taxa de rolha simbólica é vida.
• Comprar vinhos pela Internet é melhor que comprar em supermercados ou lojas especializadas, seja por diversidade ou por preço.
• Clubes de vinho são alternativas que ainda valem a pena se você não quiser gastar muito.
• Arriscar faz parte e é sempre bom tentar conhecer aquele rótulo mais inusitado, mesmo que no final o resultado seja decepção.
• Felizes são os enófilos que participam de confrarias com gente animada e apaixonada por vinho.
• A não ser que seja para meu próprio consumo, há muito tempo desisti de ser aquele que traz a garrafa e as taças à mesa em qualquer encontro de família ou amigos.
• Para situações de confraternização com pessoas avessas à cultura do vinho procuro manter sempre algumas garrafas bem baratas na adega.
• Em contrapartida, na ocasião em que é possível beber festivamente com amigos é natural que o grau de satisfação com qualquer vinho aumente.
Acho que por hoje está bom.
Volto ao tema daqui a três anos, se eu ainda estiver por aqui. Nesse meio tempo sintam-se à vontade para adicionar suas constatações ou contestações às minhas constatações.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Que susto, Chile!
Esses dias atrás, mais precisamente no ano passado, levei um susto.
Fui questionado quanto a quais vinhos chilenos teria na adega no momento, e como estava ali perto na mesa estudando resolvi olhar para ver, rapidamente.
Para minha surpresa, não havia nenhum. Ou seja, desde que comecei a tentar entender de vinho e comprei a adega, aquela era a primeira vez que estava sem os tão onipresentes vinhos chilenos em casa.
Isso não foi algo consciente, óbvio, já que tenho naturalmente gravitado em direção aos vinhos do velho mundo, que são em geral menos pesados e mais sutis em boca.
Se essa tendência vai continuar, não sei.
Por enquanto, só para desencargo vou pegar uns brancos da terra de Pinochet na próxima vez em que for ao supermercado.
Fui questionado quanto a quais vinhos chilenos teria na adega no momento, e como estava ali perto na mesa estudando resolvi olhar para ver, rapidamente.
Para minha surpresa, não havia nenhum. Ou seja, desde que comecei a tentar entender de vinho e comprei a adega, aquela era a primeira vez que estava sem os tão onipresentes vinhos chilenos em casa.
Isso não foi algo consciente, óbvio, já que tenho naturalmente gravitado em direção aos vinhos do velho mundo, que são em geral menos pesados e mais sutis em boca.
Se essa tendência vai continuar, não sei.
Por enquanto, só para desencargo vou pegar uns brancos da terra de Pinochet na próxima vez em que for ao supermercado.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Abaixo o Decanter?
Este texto é uma elucubração que tenta desmistificar o papel do decanter como item essencial a um enófilo.
Sim, essa jarra estranha de vidro ou cristal que soa como frescura desse povo que se diz entendido em vinho, mas na verdade é mais um trambolho que só serve pra ocupar espaço na prateleira.
Seguindo a linha de pensamento que tenta simplificar o ato de tomar vinho, algo que tem o nobre propósito de atrair novos adeptos e facilitar a compreensão de quem está começando a se interessar pelo assunto, quero abrir aqui um parênteses e propôr duas indagações que surgiram, inicialmente, quando comprei um garrafa de Sauvignon Blanc jovem, daqueles bem límpidos e que devem ser tomados geladinhos.
Enfim...
Para minha surpresa, ao fotografar o rótulo e o contrarrótulo antes de mandar a garrafa do Sauvignon Blanc mencionado acima para a adega, tomei um susto com a quantidade de partículas suspensas dentro do vinho. Não era algo irrisório, mas sim uma volume razoavelmente preocupante de partículas que poderiam ser de qualquer coisa, como restos de mosto vínico, rolha em decomposição ou pura e simples sujeira.
Tirando o fato de que isso soa extremamente preocupante para um vinho tão jovem, produzido sem frescuras (é devidamente filtrado) e que não deveria apresentar sedimento algum em seu curto ciclo de vida, desde então fiquei matutando sobre o que faria ao abrir a garrafa (ainda não o fiz).
Seguindo a cartilha clássica encontrada em qualquer papiro enófilo, de início pensei em deixar o vinho na vertical por um tempo e só então abri-lo com cuidado, fazendo a transferência do líquido para um decanter.
Então ocorreu-me que usar o decanter num vinho tão jovem, que não necessita de aeração, seria um claro desperdício de tempo e esforço. E aí tive um estalo.
Ora bolas, se eu preciso me livrar de borras, sedimentos ou sujeira por que eu me daria a todo o trabalho que envolve um decanter? Desde de esteja limpinho, um filtro ou coador com área de filtragem adequada faz a mesma coisa de maneira mais eficiente, seja para vinhos jovens ou para vinhos velhos. Aí é só depositar o líquido numa jarra e retorná-lo pra garrafa em seguida, pronto.
A área de contato maior do vinho com o ar dentro de um decanter serve para aumentar seu contato com o oxigênio, evaporando o álcool mais rapidamente e liberando os aromas subjacentes. No caso de aeradores, seu propósito seria o de acelerar esse processo por meio do "turbilhonamento" do líquido.
Pensando de maneira extremamente prática, oxigenar um vinho e liberar aromas é algo que pode ser feito simplesmente chacoalhando a garrafa após abri-la e deixando o vinho respirar na taça depois de servido. O resultado seria o mesmo, além de ser mais rápido e evitar todos os contratempos de controle de temperatura relacionados ao uso do decanter.
Obviamente não vou me desfazer dos meus dois decanters. Porém, cada vez mais me convenço de que com exceção do garbo que acompanha o correto uso de um decanter à mesa, que para a plateia leiga soa mais como afetação do que algo realmente útil, este item pode ser sumariamente substituído por objetos ou procedimentos mais simples.
Estarei sendo herético diante da sagrada instituição enófila?
Ou simplesmente estúpido?
Sintam-se à vontade para concordar, discordar ou me mandar um vinho de presente.
Sim, essa jarra estranha de vidro ou cristal que soa como frescura desse povo que se diz entendido em vinho, mas na verdade é mais um trambolho que só serve pra ocupar espaço na prateleira.
Seguindo a linha de pensamento que tenta simplificar o ato de tomar vinho, algo que tem o nobre propósito de atrair novos adeptos e facilitar a compreensão de quem está começando a se interessar pelo assunto, quero abrir aqui um parênteses e propôr duas indagações que surgiram, inicialmente, quando comprei um garrafa de Sauvignon Blanc jovem, daqueles bem límpidos e que devem ser tomados geladinhos.
Enfim...
Para minha surpresa, ao fotografar o rótulo e o contrarrótulo antes de mandar a garrafa do Sauvignon Blanc mencionado acima para a adega, tomei um susto com a quantidade de partículas suspensas dentro do vinho. Não era algo irrisório, mas sim uma volume razoavelmente preocupante de partículas que poderiam ser de qualquer coisa, como restos de mosto vínico, rolha em decomposição ou pura e simples sujeira.
Tirando o fato de que isso soa extremamente preocupante para um vinho tão jovem, produzido sem frescuras (é devidamente filtrado) e que não deveria apresentar sedimento algum em seu curto ciclo de vida, desde então fiquei matutando sobre o que faria ao abrir a garrafa (ainda não o fiz).
Seguindo a cartilha clássica encontrada em qualquer papiro enófilo, de início pensei em deixar o vinho na vertical por um tempo e só então abri-lo com cuidado, fazendo a transferência do líquido para um decanter.
Então ocorreu-me que usar o decanter num vinho tão jovem, que não necessita de aeração, seria um claro desperdício de tempo e esforço. E aí tive um estalo.
Por que usar um decanter para separar sedimentos quando eu posso simplesmente filtrar o vinho com um funil adequado?
Ora bolas, se eu preciso me livrar de borras, sedimentos ou sujeira por que eu me daria a todo o trabalho que envolve um decanter? Desde de esteja limpinho, um filtro ou coador com área de filtragem adequada faz a mesma coisa de maneira mais eficiente, seja para vinhos jovens ou para vinhos velhos. Aí é só depositar o líquido numa jarra e retorná-lo pra garrafa em seguida, pronto.
Por que usar um decanter para aerar um vinho se eu posso simplesmente chacoalhá-lo bem ainda na garrafa ou usar um daqueles aeradores acopláveis?
A área de contato maior do vinho com o ar dentro de um decanter serve para aumentar seu contato com o oxigênio, evaporando o álcool mais rapidamente e liberando os aromas subjacentes. No caso de aeradores, seu propósito seria o de acelerar esse processo por meio do "turbilhonamento" do líquido.
Pensando de maneira extremamente prática, oxigenar um vinho e liberar aromas é algo que pode ser feito simplesmente chacoalhando a garrafa após abri-la e deixando o vinho respirar na taça depois de servido. O resultado seria o mesmo, além de ser mais rápido e evitar todos os contratempos de controle de temperatura relacionados ao uso do decanter.
Obviamente não vou me desfazer dos meus dois decanters. Porém, cada vez mais me convenço de que com exceção do garbo que acompanha o correto uso de um decanter à mesa, que para a plateia leiga soa mais como afetação do que algo realmente útil, este item pode ser sumariamente substituído por objetos ou procedimentos mais simples.
Estarei sendo herético diante da sagrada instituição enófila?
Ou simplesmente estúpido?
Sintam-se à vontade para concordar, discordar ou me mandar um vinho de presente.
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
Eu lá quero saber de uva, eu quero é beber!
Esses dias atrás a conversa na empresa saiu do tradicional papo sobre a cervejinha do fim de semana, e um colega mencionou que na noite anterior tinha visitado um amigo que era "entendido" em vinhos.
Quando ele começou a contar como tinha sido a noite fiquei animado, e até arrisquei em perguntar que tipo de vinho eles tinham tomado ou que tipo de uva ele mais tinha gostado, principalmente quando foi descrita a pompa com que o anfitrião serviu os vinhos.
A resposta foi mais ou menos assim:
– Eu lá quero saber que uva era, rapaz, eu quero é beber, eu quero é me alcoolizar!
É por essas e outras que não faço mais questão de tentar convencer as pessoas conhecidas a apreciar bons vinhos, da maneira como os bons vinhos merecem ser apreciados. E sinto uma pontada de vergonha por ter provavelmente estado na mesma situação desse pobre anfitrião em algum momento no passado.
Francamente, tem gente que merece mesmo é tomar vinho de garrafão até morrer. Do mesmo jeito que se entope de Skol e Itaipava todo fim de semana.
Quando ele começou a contar como tinha sido a noite fiquei animado, e até arrisquei em perguntar que tipo de vinho eles tinham tomado ou que tipo de uva ele mais tinha gostado, principalmente quando foi descrita a pompa com que o anfitrião serviu os vinhos.
A resposta foi mais ou menos assim:
– Eu lá quero saber que uva era, rapaz, eu quero é beber, eu quero é me alcoolizar!
É por essas e outras que não faço mais questão de tentar convencer as pessoas conhecidas a apreciar bons vinhos, da maneira como os bons vinhos merecem ser apreciados. E sinto uma pontada de vergonha por ter provavelmente estado na mesma situação desse pobre anfitrião em algum momento no passado.
Francamente, tem gente que merece mesmo é tomar vinho de garrafão até morrer. Do mesmo jeito que se entope de Skol e Itaipava todo fim de semana.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Quando o vinho está morto
Esta postagem não é sobre vinhos ruins, mas sobre vinhos que estão ruins. Há uma grande diferença aí.
Considerando que em minha curta carreira enófila já acumulei uma pequena cota de vinhos mortos ou semi-mortos, e que nos últimos meses me deparei com algumas garrafas que se enquadraram nessa infeliz categoria, acho que já posso registrar aqui no blogue algumas observações pelas quais vale a pena se guiar no futuro.
Primeiramente, por que um vinho morre?
Partindo da fonte, pode-se considerar como morto o vinho que está muito ruim antes mesmo de ir ao mercado. Estes casos, porém, geralmente estão aliados às circunstâncias de contaminação das rolhas pelo fungo TCA, e aí não há muito o que se fazer do lado de cá da cadeia de consumo a não ser alertar o produtor.
Saindo da fonte, assim que o vinho chega ao mercado começa seu ciclo de vida, e é a partir daí que um conjunto de fatores extremamente importantes passa a influenciá-lo. Todos os vinhos vão morrer um dia, mas eles definitivamente morrerão mais rápido se forem expostos a:
Hoje eu sei, por experiência de inúmeras garrafas degustadas, que certos vinhos que tomei não estavam dentro de suas características ideais provavelmente por situações de cozimento ou pseudo-cozimento, porém a polidez não me permitiu exteriorizar as impressões da melhor maneira na época. Felizmente a experiência nos traz um maior nível de discernimento, ou seja, eventualmente ela nos torna mais conscientes. Ou cínicos, depende do ponto de vista.
A única certeza que temos, como enófilos cuidadosos que somos, é que assim que as garrafas entram no conforto de nossa casa/adega elas são tratadas com todo o carinho. O difícil é saber onde elas andaram e com quem ficaram desde o momento em que suas caixas saíram do depósito do produtor...
Como sabemos que o ser humano ainda é o elo mais fraco de qualquer processo industrial do qual faça parte, a qualidade do vinho que chega às nossas mãos é sempre, sempre responsabilidade de alguém: uma equipe de estoquistas que não fazem a mínima ideia de como e onde armazenar os vinhos, uma transportadora com motoristas que deixam a carga descansar ao sol ou desligam a refrigeração durante o transporte porque acham que vinho não é perecível, gerentes que desconhecem técnicas de venda e não compreendem o conceito de safra, pessoas desatentas sempre que há mudanças substanciais em locais de armazenamento, etc.
Cautela ainda é a melhor maneira de nos precavermos contra eventuais desilusões em nossas degustações. Anoto, portanto, algumas dicas básicas para reduzir riscos e evitar surpresas:
Eu sei que as dicas acima parecem fáceis e bobas para muitas pessoas, mas atesto que demorei algum tempo para absorver a número 1, por exemplo. No começo eu não prestava muita atenção às safras dos vinhos comprados e corria riscos desnecessários, pois na excitação da escolha e da compra acabava nem me lembrando desse detalhe.
Tenho ainda duas observações com relação à pequena amostra de vinhos cujas fotos coloquei nesta página. A primeira delas é que as três garrafas foram compradas em supermercados. Supermercados de bom nível, que frequento com certa regularidade e sempre estão abastecendo minha adega. Apesar do ocorrido acho que não devemos demonizar supermercados como lugares inadequados para se comprar vinho, até porque todos sabem do comichão que nos acomete quando passamos pela seção de vinhos ("hoje vou levar só uma garrafinha... ou duas..."). Só para se ter uma ideia, junto com as garrafas acima vieram outras que agradaram sobremaneira.
A segunda observação é que a probabilidade de encontrar vinhos passados é bem maior nos exemplares do velho mundo. Isso fica evidente quando se analisa toda a cadeia logística que italianos e espanhois passam para chegar até nós, ao contrário do que ocorre com os vizinhos argentinos e chilenos.
E por hoje é só, até a próxima!
Considerando que em minha curta carreira enófila já acumulei uma pequena cota de vinhos mortos ou semi-mortos, e que nos últimos meses me deparei com algumas garrafas que se enquadraram nessa infeliz categoria, acho que já posso registrar aqui no blogue algumas observações pelas quais vale a pena se guiar no futuro.
Primeiramente, por que um vinho morre?
Partindo da fonte, pode-se considerar como morto o vinho que está muito ruim antes mesmo de ir ao mercado. Estes casos, porém, geralmente estão aliados às circunstâncias de contaminação das rolhas pelo fungo TCA, e aí não há muito o que se fazer do lado de cá da cadeia de consumo a não ser alertar o produtor.
Saindo da fonte, assim que o vinho chega ao mercado começa seu ciclo de vida, e é a partir daí que um conjunto de fatores extremamente importantes passa a influenciá-lo. Todos os vinhos vão morrer um dia, mas eles definitivamente morrerão mais rápido se forem expostos a:
- Variações bruscas de temperatura, em especial a exposição a altas temperaturas (cozimento);
- Umidade inadequada (baixa demais leva ao ressecamento da rolha, alta demais pode possibilitar a proliferação de fungos);
- Exposição demasiada à luz;
- Movimentação excessiva da garrafa;
- Envelhecimento natural do vinho, que depende da combinação de elementos como teor alcoolico e nível de taninos.
Fontanafredda, Barbaresco DOCG 2007 (ITA)
O vinho estava absolutamente morto já no olfato, que era capaz de induzir náusea
Hoje eu sei, por experiência de inúmeras garrafas degustadas, que certos vinhos que tomei não estavam dentro de suas características ideais provavelmente por situações de cozimento ou pseudo-cozimento, porém a polidez não me permitiu exteriorizar as impressões da melhor maneira na época. Felizmente a experiência nos traz um maior nível de discernimento, ou seja, eventualmente ela nos torna mais conscientes. Ou cínicos, depende do ponto de vista.
A única certeza que temos, como enófilos cuidadosos que somos, é que assim que as garrafas entram no conforto de nossa casa/adega elas são tratadas com todo o carinho. O difícil é saber onde elas andaram e com quem ficaram desde o momento em que suas caixas saíram do depósito do produtor...
Como sabemos que o ser humano ainda é o elo mais fraco de qualquer processo industrial do qual faça parte, a qualidade do vinho que chega às nossas mãos é sempre, sempre responsabilidade de alguém: uma equipe de estoquistas que não fazem a mínima ideia de como e onde armazenar os vinhos, uma transportadora com motoristas que deixam a carga descansar ao sol ou desligam a refrigeração durante o transporte porque acham que vinho não é perecível, gerentes que desconhecem técnicas de venda e não compreendem o conceito de safra, pessoas desatentas sempre que há mudanças substanciais em locais de armazenamento, etc.
Bodegas Muga, Muga Blanco DOCa Rioja 2012 (ESP)
Na minha opinião o vinho estava bastante evoluído e em franco declínio, mas segundo minha esposa ele estava passado; para mim não estava imbebível, então serviu ao menos como experiência
Cautela ainda é a melhor maneira de nos precavermos contra eventuais desilusões em nossas degustações. Anoto, portanto, algumas dicas básicas para reduzir riscos e evitar surpresas:
- Adquirir sempre as safras mais recentes possíveis. Para tintos até seis anos de idade é razoável, para brancos três anos, contados sempre a partir do ano anterior. Vinhos de reconhecida longevidade extrapolam esses limites (ícones bordaleses e Rieslings alemães, por exemplo). No caso de vinhos jovens e de entrada, o sinal amarelo deve ser ligado ao se deparar com rótulos e cápsulas deteriorados ou vinhos com coloração visivelmente evoluída.
- Em situações onde os vinhos são expostos na vertical, jamais pegue a garrafa que está mais à mostra na prateleira. Estique o braço e pegue uma que está lá no fundo, mais protegida da luz. Em muitos casos as safras mais recentes também ficam por lá, escondidas enquanto as mais antigas são expostas e vendidas primeiro.
- Se é para arriscar numa safra mais antiga, que o faça com um revendedor qualificado, como lojas especializadas ou vendedores que se dispõem de antemão a reembolsá-lo em caso de garrafa perdida.
- Se a garrafa que chega até a mesa num restaurante é muito antiga, pergunte se há uma safra mais recente. Ou esteja preparado para se deparar com uma surpresa.
- Adegas climatizadas são bacanas, mas na falta de uma basta um cantinho da casa com um armário tranquilo, de reduzido acesso, onde seja possível guardar as garrafas com rolha na posição horizontal. Ou um móvel simples com alguns nichos onde não ocorra em nenhum momento a incidência direta/indireta de luz solar (esse da foto mandei fazer para ocupar o espaço sob a escada).
- Vinho só se guarda em geladeira por um dia ou por algumas horas antes de ser servido, caso seja desejada uma temperatura mais condizente com a ocasião.
- Vinhos sem safra declarada devem ser consumidos o mais rápido possível.
Botter, Caleo Montepulciano D'Abruzzo DOC 2014 (ITA)
Apagado e ligeiramente passado no olfato, inerte em boca; beberiquei e deixei a garrafa descansar na geladeira de um dia para o outro mas não teve jeito, tive que descartar
Eu sei que as dicas acima parecem fáceis e bobas para muitas pessoas, mas atesto que demorei algum tempo para absorver a número 1, por exemplo. No começo eu não prestava muita atenção às safras dos vinhos comprados e corria riscos desnecessários, pois na excitação da escolha e da compra acabava nem me lembrando desse detalhe.
Tenho ainda duas observações com relação à pequena amostra de vinhos cujas fotos coloquei nesta página. A primeira delas é que as três garrafas foram compradas em supermercados. Supermercados de bom nível, que frequento com certa regularidade e sempre estão abastecendo minha adega. Apesar do ocorrido acho que não devemos demonizar supermercados como lugares inadequados para se comprar vinho, até porque todos sabem do comichão que nos acomete quando passamos pela seção de vinhos ("hoje vou levar só uma garrafinha... ou duas..."). Só para se ter uma ideia, junto com as garrafas acima vieram outras que agradaram sobremaneira.
A segunda observação é que a probabilidade de encontrar vinhos passados é bem maior nos exemplares do velho mundo. Isso fica evidente quando se analisa toda a cadeia logística que italianos e espanhois passam para chegar até nós, ao contrário do que ocorre com os vizinhos argentinos e chilenos.
E por hoje é só, até a próxima!
quinta-feira, 27 de abril de 2017
A importância do Instagram
Quando somos iniciantes no mundo dos vinhos geralmente ficamos meio perdidos com a infinidade de informações sobre o tema.
Comigo não foi diferente.
Lembro-me que imediatamente comprei vários livros, lendo-os avidamente num curto espaço de tempo. Dois deles foram "devorados" durante os turnos da madrugada que peguei nos dias de reforma da loja da minha esposa. Além dos livros, assinei duas revistas sobre vinho, associei-me a um clube que entregava duas garrafas por mês na minha casa e passei a ler tudo o que encontrava sobre o tema na Internet.
E continuei perdido por algum tempo ainda. Ora bolas, ainda estou, mas num grau bem menor de perdimento.
Em meio ao turbilhão de informações desta fase inicial, uma das coisas que mais me ajudou e continua a ampliar meus horizontes é o tal do Instagram. Detalhe: foi por insistência da minha esposa que resolvi criar uma conta.
A primeira foto que publiquei no Instagram data de 19 de Maio de 2015. É esta abaixo, clicada no Varadero Bar e Restô em noite de rolha livre, munido de um Windows Phone de limitadas capacidades fotográficas. Lembro-me que a rolha, ressecada, quebrou na mão do garçom, e que ele teve a bondade de trazer um decanter para tentar se livrar dos resíduos de cortiça que ficaram após sua completa remoção. Ainda surpresos com a situação, foi a primeira vez que estávamos vendo um decanter ser usado.
De lá para cá já acumulei mais de 320 fotografias de momentos enófilos. Também acabei de passar de 500 seguidores, que é mais ou menos também a quantidade de contas que sigo.
Se você é iniciante como eu já fui e deseja ampliar os horizontes vendo fotos e lendo opiniões diversas, distintas daquelas a que estamos acostumados a ver, uma conta no Instagram é uma opção muito interessante. O aplicativo está disponível para todas as plataformas de aparelho celular e permite interação com uma infinidade de redes sociais. Serve muito bem como registro fotográfico de todo tipo, mas nem é preciso publicar nada se você não quiser. Basta encontrar as contas mais bacanas sobre vinho e segui-las para ver o que anda sendo degustado perto de você ou ao redor do mundo.
Tudo bem que tem gente que não escreve muita coisa, mas é cada foto linda que aparece!
Em tempo: o prato da foto acima chama-se "quarteto paulista", vem com quatro tipos de petisco e é super indicado para abrir os trabalhos neste ótimo restaurante.
Comigo não foi diferente.
Lembro-me que imediatamente comprei vários livros, lendo-os avidamente num curto espaço de tempo. Dois deles foram "devorados" durante os turnos da madrugada que peguei nos dias de reforma da loja da minha esposa. Além dos livros, assinei duas revistas sobre vinho, associei-me a um clube que entregava duas garrafas por mês na minha casa e passei a ler tudo o que encontrava sobre o tema na Internet.
E continuei perdido por algum tempo ainda. Ora bolas, ainda estou, mas num grau bem menor de perdimento.
Em meio ao turbilhão de informações desta fase inicial, uma das coisas que mais me ajudou e continua a ampliar meus horizontes é o tal do Instagram. Detalhe: foi por insistência da minha esposa que resolvi criar uma conta.
A primeira foto que publiquei no Instagram data de 19 de Maio de 2015. É esta abaixo, clicada no Varadero Bar e Restô em noite de rolha livre, munido de um Windows Phone de limitadas capacidades fotográficas. Lembro-me que a rolha, ressecada, quebrou na mão do garçom, e que ele teve a bondade de trazer um decanter para tentar se livrar dos resíduos de cortiça que ficaram após sua completa remoção. Ainda surpresos com a situação, foi a primeira vez que estávamos vendo um decanter ser usado.
De lá para cá já acumulei mais de 320 fotografias de momentos enófilos. Também acabei de passar de 500 seguidores, que é mais ou menos também a quantidade de contas que sigo.
Se você é iniciante como eu já fui e deseja ampliar os horizontes vendo fotos e lendo opiniões diversas, distintas daquelas a que estamos acostumados a ver, uma conta no Instagram é uma opção muito interessante. O aplicativo está disponível para todas as plataformas de aparelho celular e permite interação com uma infinidade de redes sociais. Serve muito bem como registro fotográfico de todo tipo, mas nem é preciso publicar nada se você não quiser. Basta encontrar as contas mais bacanas sobre vinho e segui-las para ver o que anda sendo degustado perto de você ou ao redor do mundo.
Tudo bem que tem gente que não escreve muita coisa, mas é cada foto linda que aparece!
Em tempo: o prato da foto acima chama-se "quarteto paulista", vem com quatro tipos de petisco e é super indicado para abrir os trabalhos neste ótimo restaurante.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Vinhos para o dia a dia, honestos, fáceis de beber
Existem algumas expressões largamente utilizadas no universo do vinho que me causam estranheza, para não dizer desgosto. Uma delas é a que dá início ao título desta postagem.
O vinho para o dia a dia, como muitos gostam de dizer e escrever.
O que é um vinho para o dia a dia, afinal?
É um vinho que pode ser consumido com as refeições? Nos dias de semana, a qualquer momento? Nas ocasiões carentes de pompa? Em copos de plástico ou americanos? Acompanhando um canapé, um bolinho de macaxeira, um bauru com o dobro de queijo, um pote de uvas passas, um pequi bem cozido, um pão seco, uma geleia de araticum?
O que vem à minha mente sempre que vejo pessoas trazendo à tona essa famigerada expressão é que o vinho para o dia a dia nada mais é que um vinho baratinho, desses que pode ser buscado em cinco minutos ali no mercado da esquina. Será isso mesmo? É preciso colocar as coisas em perspectiva, uma vez que o que é barato para mim pode não ter a mesma classificação para os outros e vice-versa. Vide Neymar e seu já famoso Vega Sicília Único safra 1976, por exemplo.
Se eu cagasse dinheiro e usasse notas de 100 dólares para limpar o nariz e a bunda, como Carrey e Daniels fazem numa cena daquele filme dos irmãos Farrelly, meus vinhos para o dia a dia poderiam incluir diversas safras de Vegas Sicílias, Pêras Mancas, Opus Ones, Sassicaias, Pétrus e os mais diversos Grand Crus franceses.
Mas não é esse o caso. E não será o caso nem se eu puder heptuplicar meus rendimentos ou ganhar na megassena, porque não sou louco e nem estou disposto a alimentar um mercado tão restrito (existe ainda a casta dos colecionadores, que coisa!). Em contrapartida, também me recuso a me encaixar naquela vasta categoria de consumidores que são muito felizes no seu dia a dia com Chapinha, Sangue de Boi e os mais diversos coquetéis compostos.
Enfim, o que quero dizer é que todos os vinhos que tomo são para o (meu) dia a dia. Mas não é por isso que vou sair por aí falando isso deles. O dia a dia já ocorre por default. Está implícito.
Aproveitando o ensejo, vejamos também a percepção que me causam alguns adjetivos que costumam acompanhar a expressão acima. Como “honesto” ou “fácil”.
Honesto? Ah, finalmente, agora sim! Estamos falando do vinho barato (não o barato no sentido ligeiramente pejorativo da palavra / cheap, não inexpensive), o vinho "correto" que por atender às limitações de nosso poder aquisitivo qualifica-se também como vinho para o dia a dia.
E se for honesto e fácil, então? Um vinho que vale o que custa e, como uma Skol, deve descer redondo?
O problema é quando o danado do vinho é desonesto e difícil... Seria este um vinho desequilibrado? Pode haver sim muita variação de uma garrafa para outra, mas na minha opinião um vinho é difícil de beber somente quando ele não satisfaz meu gosto, pronto. Sucos de madeira são terríveis, mas tem gente que não se sente à vontade bebendo outra coisa. Independente de preferências, o que não gosto mesmo é quando o caboclo fala que o vinho é fácil de beber porque é branco (a.k.a. vinhos de moça). Até concordo em atribuir o termo a vinhos de baixo teor alcoolico e corpo leve, independente da cor ou do tipo de uva. Estes descem mais fácil mesmo, né?
E os vinhos desonestos? Desonesto é o vinho que não vale o que custa, é isso? Todos sabemos o quanto é decepcionante gastar mais do que achamos factível num vinho que daqui a alguns meses pode não ser tudo o que esperamos dele. Mas raramente você vê gente por aí falando que certo vinho é desonesto, o que se vê é que tal vinho não vale o que custa.
O que fazer para fomentar a honestidade então? É simples. Se você tem medo, não gaste seu rico dinheirinho com essas coisas superfaturadas, infladas por longevas e bem-sucedidas campanhas de marketing, que não entregam nada a mais que os exemplares de menor custo.
Olhe lá, se você tem condições não há absolutamente nada de errado em encher a adega com garrafas acima de R$ 300. O dinheiro é seu, ora bolas. Em qualquer caso a realidade é cruel para todos, ou seja, quanto mais cara a garrafa maior é o risco de nos depararmos com um vinho desonesto.
Se eu cagasse dinheiro pouco estaria me lixando se aquele vinho de mil reais fosse uma merda. Gente podre de rica que bebe seus vinhos não dá a mínima se um vinho é ou não honesto. O risco para eles não existe.
Em contrapartida, na nossa realidade tudo acaba mesmo sendo baseado em risco: o terror dos enófilos de carteirinha e o medo dos que bebem casualmente. Só não se preocupa com isso o tiozinho que vai ao mercado da esquina no Sábado à tarde buscar o vinho de Domingo.
Quanto à minha relação com o risco, tudo o que posso dizer é que às vezes entro numa loja de vinhos me sentindo "aventureiro". Bem às vezes. E somente para uma garrafa.
Termino essa postagem dizendo que vocês jamais me verão escrevendo ou dizendo que tal vinho é honesto, fácil de beber, feito para o dia a dia. Se eu tiver cometido tal deslize peço que primeiramente me desculpem, e em seguida me apontem o local e a data porque vou lhes enviar um brinde.
O vinho para o dia a dia, como muitos gostam de dizer e escrever.
O que é um vinho para o dia a dia, afinal?
É um vinho que pode ser consumido com as refeições? Nos dias de semana, a qualquer momento? Nas ocasiões carentes de pompa? Em copos de plástico ou americanos? Acompanhando um canapé, um bolinho de macaxeira, um bauru com o dobro de queijo, um pote de uvas passas, um pequi bem cozido, um pão seco, uma geleia de araticum?
O que vem à minha mente sempre que vejo pessoas trazendo à tona essa famigerada expressão é que o vinho para o dia a dia nada mais é que um vinho baratinho, desses que pode ser buscado em cinco minutos ali no mercado da esquina. Será isso mesmo? É preciso colocar as coisas em perspectiva, uma vez que o que é barato para mim pode não ter a mesma classificação para os outros e vice-versa. Vide Neymar e seu já famoso Vega Sicília Único safra 1976, por exemplo.
Se eu cagasse dinheiro e usasse notas de 100 dólares para limpar o nariz e a bunda, como Carrey e Daniels fazem numa cena daquele filme dos irmãos Farrelly, meus vinhos para o dia a dia poderiam incluir diversas safras de Vegas Sicílias, Pêras Mancas, Opus Ones, Sassicaias, Pétrus e os mais diversos Grand Crus franceses.
Mas não é esse o caso. E não será o caso nem se eu puder heptuplicar meus rendimentos ou ganhar na megassena, porque não sou louco e nem estou disposto a alimentar um mercado tão restrito (existe ainda a casta dos colecionadores, que coisa!). Em contrapartida, também me recuso a me encaixar naquela vasta categoria de consumidores que são muito felizes no seu dia a dia com Chapinha, Sangue de Boi e os mais diversos coquetéis compostos.
Enfim, o que quero dizer é que todos os vinhos que tomo são para o (meu) dia a dia. Mas não é por isso que vou sair por aí falando isso deles. O dia a dia já ocorre por default. Está implícito.
Aproveitando o ensejo, vejamos também a percepção que me causam alguns adjetivos que costumam acompanhar a expressão acima. Como “honesto” ou “fácil”.
Este é um vinho para o dia a dia, honesto, fácil de beber.
Honesto? Ah, finalmente, agora sim! Estamos falando do vinho barato (não o barato no sentido ligeiramente pejorativo da palavra / cheap, não inexpensive), o vinho "correto" que por atender às limitações de nosso poder aquisitivo qualifica-se também como vinho para o dia a dia.
E se for honesto e fácil, então? Um vinho que vale o que custa e, como uma Skol, deve descer redondo?
O problema é quando o danado do vinho é desonesto e difícil... Seria este um vinho desequilibrado? Pode haver sim muita variação de uma garrafa para outra, mas na minha opinião um vinho é difícil de beber somente quando ele não satisfaz meu gosto, pronto. Sucos de madeira são terríveis, mas tem gente que não se sente à vontade bebendo outra coisa. Independente de preferências, o que não gosto mesmo é quando o caboclo fala que o vinho é fácil de beber porque é branco (a.k.a. vinhos de moça). Até concordo em atribuir o termo a vinhos de baixo teor alcoolico e corpo leve, independente da cor ou do tipo de uva. Estes descem mais fácil mesmo, né?
E os vinhos desonestos? Desonesto é o vinho que não vale o que custa, é isso? Todos sabemos o quanto é decepcionante gastar mais do que achamos factível num vinho que daqui a alguns meses pode não ser tudo o que esperamos dele. Mas raramente você vê gente por aí falando que certo vinho é desonesto, o que se vê é que tal vinho não vale o que custa.
O que fazer para fomentar a honestidade então? É simples. Se você tem medo, não gaste seu rico dinheirinho com essas coisas superfaturadas, infladas por longevas e bem-sucedidas campanhas de marketing, que não entregam nada a mais que os exemplares de menor custo.
Olhe lá, se você tem condições não há absolutamente nada de errado em encher a adega com garrafas acima de R$ 300. O dinheiro é seu, ora bolas. Em qualquer caso a realidade é cruel para todos, ou seja, quanto mais cara a garrafa maior é o risco de nos depararmos com um vinho desonesto.
Se eu cagasse dinheiro pouco estaria me lixando se aquele vinho de mil reais fosse uma merda. Gente podre de rica que bebe seus vinhos não dá a mínima se um vinho é ou não honesto. O risco para eles não existe.
Em contrapartida, na nossa realidade tudo acaba mesmo sendo baseado em risco: o terror dos enófilos de carteirinha e o medo dos que bebem casualmente. Só não se preocupa com isso o tiozinho que vai ao mercado da esquina no Sábado à tarde buscar o vinho de Domingo.
Quanto à minha relação com o risco, tudo o que posso dizer é que às vezes entro numa loja de vinhos me sentindo "aventureiro". Bem às vezes. E somente para uma garrafa.
Termino essa postagem dizendo que vocês jamais me verão escrevendo ou dizendo que tal vinho é honesto, fácil de beber, feito para o dia a dia. Se eu tiver cometido tal deslize peço que primeiramente me desculpem, e em seguida me apontem o local e a data porque vou lhes enviar um brinde.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Minhas estatísticas enófilas para 2016
Findo o ano de 2016, achei que seria interessante jogar uma lupa sobre ele e ver como se comportou minha rotina enófila. Já estava na hora de dar um uso mais interessante àquela planilha de anotações gerais.
Sem mais delongas, vamos aos gráficos que separei com base nos vinhos degustados.
Pois bem, o país de onde mais degustei vinhos em 2016 foi a Argentina com 29 exemplares, seguida de perto pelo Chile (28) e pela Itália (27). Considerando que eu tenho tentado provar mais vinhos do velho mundo, esse resultado se deve praticamente às garrafas abertas a partir de cartas de restaurantes, a mesma coisa ocorrendo com o Chile. A Itália vem em terceiro porque é de lá que vêm os meus vinhos preferidos.
Não fosse a interrupção de nossas visitas a restaurantes em Outubro devido ao nascimento da minha filha, aposto que os hermanos estariam ainda mais isolados na liderança. Quanto aos demais países, sua representatividade foi mais ou menos como eu esperava. Em 2017 espero dar uma ênfase ainda maior aos vinhos do velho mundo, em especial os alemães e os da Europa oriental.
Sem muitas surpresas quanto ao gráfico acima, com exceção talvez dos espumantes tendo mais participação que os rosés. Foram 64% de tintos e 28% de brancos, será que estou na média de divisão de consumo?
Em se tratando de vinhos varietais, confesso que a Cabernet Sauvignon (12,1%) foi uma surpresa pra mim. Mas daí é possível ter uma ideia de quanto essa uva é predominante em nosso mercado, visto que por mais que ela não seja a minha favorita eu acabo gravitando em torno dela nas mais variadas situações de degustação. Minha favorita Sangiovese ficou em terceiro (8,1%), atrás da esperada Chardonnay (10,5%).
Uma surpresa menor foi ver a Tannat em quinto lugar, o que se deve obviamente ao tema do segundo encontro da Confraria Tênis e Vinho MT.
Não cheguei a fazer um gráfico levando em conta somente os blends, mas o país que ganhou disparado nessa categoria foi Portugal, que teve o mesmo tanto de garrafas de Espanha e França somadas. O que faz total sentido, uma vez que a esmagadora maioria dos vinhos lusitanos é produzida utilizando várias parcelas das uvas autóctones do país.
E os leitores, conseguiram ser fieis ou não às suas preferências?
Um abraço a todos e saúde!
Sem mais delongas, vamos aos gráficos que separei com base nos vinhos degustados.
2016 | Distribuição por países
Pois bem, o país de onde mais degustei vinhos em 2016 foi a Argentina com 29 exemplares, seguida de perto pelo Chile (28) e pela Itália (27). Considerando que eu tenho tentado provar mais vinhos do velho mundo, esse resultado se deve praticamente às garrafas abertas a partir de cartas de restaurantes, a mesma coisa ocorrendo com o Chile. A Itália vem em terceiro porque é de lá que vêm os meus vinhos preferidos.
Não fosse a interrupção de nossas visitas a restaurantes em Outubro devido ao nascimento da minha filha, aposto que os hermanos estariam ainda mais isolados na liderança. Quanto aos demais países, sua representatividade foi mais ou menos como eu esperava. Em 2017 espero dar uma ênfase ainda maior aos vinhos do velho mundo, em especial os alemães e os da Europa oriental.
2016 | Distribuição por tipo de vinho
Sem muitas surpresas quanto ao gráfico acima, com exceção talvez dos espumantes tendo mais participação que os rosés. Foram 64% de tintos e 28% de brancos, será que estou na média de divisão de consumo?
2016 | Somente varietais (mínimo 85%)
Em se tratando de vinhos varietais, confesso que a Cabernet Sauvignon (12,1%) foi uma surpresa pra mim. Mas daí é possível ter uma ideia de quanto essa uva é predominante em nosso mercado, visto que por mais que ela não seja a minha favorita eu acabo gravitando em torno dela nas mais variadas situações de degustação. Minha favorita Sangiovese ficou em terceiro (8,1%), atrás da esperada Chardonnay (10,5%).
Uma surpresa menor foi ver a Tannat em quinto lugar, o que se deve obviamente ao tema do segundo encontro da Confraria Tênis e Vinho MT.
Não cheguei a fazer um gráfico levando em conta somente os blends, mas o país que ganhou disparado nessa categoria foi Portugal, que teve o mesmo tanto de garrafas de Espanha e França somadas. O que faz total sentido, uma vez que a esmagadora maioria dos vinhos lusitanos é produzida utilizando várias parcelas das uvas autóctones do país.
E os leitores, conseguiram ser fieis ou não às suas preferências?
Um abraço a todos e saúde!
sábado, 10 de dezembro de 2016
De Firulas e Floreios
Ah, o inescrutável mundo do vinho, antes impenetrável, hoje não mais um mistério tão grande.
Além de todos os aspectos práticos que já absorvi, posso também dizer que fui capaz de desencanar de várias coisas que antes não me deixavam muito à vontade como, por exemplo, o medo de provar uma garrafa de safra mais antiga (bebe logo, deve estar estragado!), a neura em torno do serviço (nem sempre é preciso taça), a fleuma deselegante (nem todas as situações exigem ritual), o preconceito contra vinhos de mesa (ora bolas, são feitos de uvas também), o preconceito contra as garrafas de supermercado (nada lá presta!) ou a famigerada relação qualidade-preço (é possível ter muita satisfação com vinho abaixo de R$ 50), entre outros.
Mas uma das coisas mais importantes das quais desencanei foi dar excessiva importância às avaliações em massa de vinhos feitas por veículos especializados ou pseudo-especializados. Passei a criar minhas próprias expectativas de uma forma mais independente, nunca compassiva e às vezes por demais inquisitiva.
Não é raro eu me desapontar ou rir com o excesso de firulas que muitos veículos de comunicação utilizam para descrever ou avaliar vinhos. As conotações associativas, as qualificações subjetivas e os floreios sem sentido prático são o que mais me causam espanto. Como se não bastasse a ênfase enfadonha sobre a cor universal do vinho tinto (rubi com reflexos violáceos!), às vezes há um excesso de descritores aromáticos e gustativos que nada mais fazem que desanimar quem está começando a gostar ou tentando entender um pouco desse mundo.
Fato: para a esmagadora maioria das pessoas o vinho tem cheiro e gosto de vinho, pronto. Com alguma persistência e boa vontade do bebedor, depois de algum tempo o paladar evolui e surgem associações organolépticas que devem ser evidentes e esperadas. E pronto, chega.
Se o vinho lembra as frutas do pomar da vovó, a brisa do mar de Noronha, o brioche de um café da Champs-Élysées ou a grama molhada dos jardins suspensos de Alto Coité, isso fica totalmente a cargo de quem está bebendo aquela garrafa, naquele momento e naquelas circunstâncias específicas. Infelizmente, ainda tem gente que ao ler esse tipo de coisa pensa que vai experimentar essas sensações quando abrir aquela /preciosa/ garrafa agraciada com os /imbatíveis/ 98 pontos by Robert Parker. E essas pessoas caem do cavalo feio, para imediatamente em seguida se sentirem nas nuvens com um Concha y Toro Reservado degustado na varanda de casa enquanto se joga conversa fora com o vizinho.
Você já foi levado por alguma onda de entusiasmo e se decepcionou com um vinho? Eu já. E continuo sempre lutando para não passar novamente por tal constrangimento interno. Porque, sabem como é, a vergonha meio que não nos deixa verbalizar a confusão e o desapontamento, e acaba fazendo com que muita gente não consiga desenvolver um paladar próprio.
Enfim...
Para não polarizar minhas expectativas de maneira equivocada, não leio mais as avaliações descritivas que são feitas em lote por revistas e veículos especializados. Por outro lado, sempre que posso procuro lê-las depois que já degustei determinado vinho, afinal é sempre mais interessante conferir outros pontos de vista sobre algo que você já conhece.
Nada contra os profissionais que são pagos para redigirem os textículos em lote ou contra as pessoas que ali acreditam haver real valor, porém depois de algum tempo tornou-se inevitável a sensação de que estou diante de um rodízio de resenhas esotéricas/astrológicas que se alternam a cada cinco luas. Na minha opinião é muito mais proveitoso se informar acerca do produtor e dos métodos que ele utiliza em seus processos, assim como os cuidados que ele demonstra com os vinhos que coloca no mercado. Informações objetivas, reportagens e artigos bem escritos, sem (excessiva) perfumaria. Além disso, as melhores referências sempre serão aquelas que saem do lugar-comum e vêm com algum contexto sincero, incluindo aí opiniões bem ponderadas de amigos e conhecidos.
De contrarrótulos sem-vergonha e descrições safadas de marketing o mundo do vinho está cheio, e sinceramente acredito que isso influi na manutenção da aura de esnobismo que cerca a bebida na mesma medida (ou até mais) que os constantes aumentos de preços/impostos.
Além de todos os aspectos práticos que já absorvi, posso também dizer que fui capaz de desencanar de várias coisas que antes não me deixavam muito à vontade como, por exemplo, o medo de provar uma garrafa de safra mais antiga (bebe logo, deve estar estragado!), a neura em torno do serviço (nem sempre é preciso taça), a fleuma deselegante (nem todas as situações exigem ritual), o preconceito contra vinhos de mesa (ora bolas, são feitos de uvas também), o preconceito contra as garrafas de supermercado (nada lá presta!) ou a famigerada relação qualidade-preço (é possível ter muita satisfação com vinho abaixo de R$ 50), entre outros.
Mas uma das coisas mais importantes das quais desencanei foi dar excessiva importância às avaliações em massa de vinhos feitas por veículos especializados ou pseudo-especializados. Passei a criar minhas próprias expectativas de uma forma mais independente, nunca compassiva e às vezes por demais inquisitiva.
Não é raro eu me desapontar ou rir com o excesso de firulas que muitos veículos de comunicação utilizam para descrever ou avaliar vinhos. As conotações associativas, as qualificações subjetivas e os floreios sem sentido prático são o que mais me causam espanto. Como se não bastasse a ênfase enfadonha sobre a cor universal do vinho tinto (rubi com reflexos violáceos!), às vezes há um excesso de descritores aromáticos e gustativos que nada mais fazem que desanimar quem está começando a gostar ou tentando entender um pouco desse mundo.
Fato: para a esmagadora maioria das pessoas o vinho tem cheiro e gosto de vinho, pronto. Com alguma persistência e boa vontade do bebedor, depois de algum tempo o paladar evolui e surgem associações organolépticas que devem ser evidentes e esperadas. E pronto, chega.
Se o vinho lembra as frutas do pomar da vovó, a brisa do mar de Noronha, o brioche de um café da Champs-Élysées ou a grama molhada dos jardins suspensos de Alto Coité, isso fica totalmente a cargo de quem está bebendo aquela garrafa, naquele momento e naquelas circunstâncias específicas. Infelizmente, ainda tem gente que ao ler esse tipo de coisa pensa que vai experimentar essas sensações quando abrir aquela /preciosa/ garrafa agraciada com os /imbatíveis/ 98 pontos by Robert Parker. E essas pessoas caem do cavalo feio, para imediatamente em seguida se sentirem nas nuvens com um Concha y Toro Reservado degustado na varanda de casa enquanto se joga conversa fora com o vizinho.
Você já foi levado por alguma onda de entusiasmo e se decepcionou com um vinho? Eu já. E continuo sempre lutando para não passar novamente por tal constrangimento interno. Porque, sabem como é, a vergonha meio que não nos deixa verbalizar a confusão e o desapontamento, e acaba fazendo com que muita gente não consiga desenvolver um paladar próprio.
Enfim...
Para não polarizar minhas expectativas de maneira equivocada, não leio mais as avaliações descritivas que são feitas em lote por revistas e veículos especializados. Por outro lado, sempre que posso procuro lê-las depois que já degustei determinado vinho, afinal é sempre mais interessante conferir outros pontos de vista sobre algo que você já conhece.
Nada contra os profissionais que são pagos para redigirem os textículos em lote ou contra as pessoas que ali acreditam haver real valor, porém depois de algum tempo tornou-se inevitável a sensação de que estou diante de um rodízio de resenhas esotéricas/astrológicas que se alternam a cada cinco luas. Na minha opinião é muito mais proveitoso se informar acerca do produtor e dos métodos que ele utiliza em seus processos, assim como os cuidados que ele demonstra com os vinhos que coloca no mercado. Informações objetivas, reportagens e artigos bem escritos, sem (excessiva) perfumaria. Além disso, as melhores referências sempre serão aquelas que saem do lugar-comum e vêm com algum contexto sincero, incluindo aí opiniões bem ponderadas de amigos e conhecidos.
De contrarrótulos sem-vergonha e descrições safadas de marketing o mundo do vinho está cheio, e sinceramente acredito que isso influi na manutenção da aura de esnobismo que cerca a bebida na mesma medida (ou até mais) que os constantes aumentos de preços/impostos.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
O vinho e a (minha) saúde
Há alguns meses atrás levei um susto ao pegar o resultado dos meus exames de rotina.
A taxa glicêmica de jejum, índice que mede a quantidade de açúcar no sangue, bateu nos 128 mg/litro. Para quem entende, este número está acima do limite atualmente estabelecido como um dos três fatores usados no diagnóstico de diabetes. Além da glicemia alta, outro parâmetro que estava alterado era o nível de triglicérides, o que faz sentido pois glicemia e triglicérides meio que andam de mãos dadas.
Por ser uma bebida que possui álcool, o vinho é calórico. Calorias aumentam o nível de glicemia e triglicérides. E uma esposa preocupada tranca a adega com um cadeado depois de um exame com resultado desses...
É fato que eu sempre tive glicemia limítrofe, variando em torno dos 100 mg/litro. Como apreciador inveterado de vinhos, quando a luz vermelha do exame acendeu eu logo me lancei numa pesquisa para compreender como seria possível administrar a quantidade de álcool que estou ingerindo de forma a garantir a segurança de meu hedonismo enófilo, para qualquer eventual necessidade.
Chegamos, portanto, ao motivo de porque estou a divagar sobre minha saúde.
Dourar a própria pílula é algo natural para qualquer ser humano, mas às vezes é preciso ser racional. O vinho, mesmo com todas as presumidas vantagens que possui para a saúde quando consumido com moderação, é uma bebida que tem álcool e açúcar em sua composição. A boa notícia é que o teor de açúcar no vinho pode ser desprezado. E quanto ao álcool? Todos sabem que o álcool, quando consumido em excesso, é prejudicial à saúde no curto, no médio e no longo prazo.
Praticamente todas as informações médicas sobre a relação entre álcool e perturbações glicêmicas (das quais a pior é a diabetes) se desencontram em algum momento. Umas fontes dizem que pode, outras dizem que não. Umas exaltam os benefícios do vinho para o coração e para o controle do colesterol, outras alegam que os malefícios superam os alegados benefícios. O único ponto em comum na maioria dos artigos é que o consumo de álcool deve ser moderado, seja ele no vinho, no uísque ou na cerveja.
De acordo com o Sr. Dráuzio Varella, 25g de álcool por dia é a linha de corte entre o consumo moderado e o consumo não moderado de álcool, uma quantidade que é responsável por aportar cerca de 175 kcal ao organismo humano. 25 gramas de álcool equivale a aproximadamente 3 doses, sendo que 1 (uma) dose de álcool corresponde à quantidade aproximada que o organismo de um adulto médio consegue processar em uma hora, ou seja, após decorrida 1 hora de ingestão desta dose pouco ou nenhum álcool será deixado no sangue de um adulto. Nota: mulheres devem cortar estas quantidades pela metade.
Eu costumo medir meu vinho por garrafa, meia garrafa e taça, sendo que cada garrafa rende quatro taças bem servidas. Sabendo que a densidade do álcool é de 0,8 g/ml, apresento a seguinte tabela que mostra a quantidade de álcool presente numa garrafa e em suas frações, tanto em volume quanto em massa para cada grau de teor alcoolico:
Observa-se claramente pela tabela onde estão as áreas seguras e as áreas onde se considera que o consumo de vinho/álcool está acima do moderado. Tomei a liberdade de marcar uma zona cinza, que vai dos 25 aos 30g e excede um pouco o limite, no que eu considero dentro de uma faixa de tolerância aceitável.
É claro que ninguém deve focar com tanta precisão nestes números, mas tê-los em mente pode ser de grande valia quando é preciso analisar a quantidade de álcool que estamos ingerindo juntamente com o vinho, e a frequência com que isso ocorre. Observa-se, por exemplo, que uma taça generosa de vinho por dia (1/4 de garrafa) é totalmente aceitável de acordo com o critério do digníssimo Sr. Drauzio Varella. Para algumas pessoas, porém, beber vinho todos os dias da semana é algo que não soa bem mesmo que nos mantenhamos dentro da zona verde. Por outro lado, não vejo problema algum em passar um pouco o sinal em ocasiões esporádicas, como num encontro com os amigos ou numa refeição de especial significado, desde que a isso se siga um breve período de abstinência.
Em suma, tudo se resume a bom senso e equilíbrio. Os desdobramentos do dilema sobre benefícios e malefícios do álcool são muitos, e cada pessoa tem os seus limites e recomendações médicas. Eu tendo a olhar a questão do ponto de vista positivo (resveratrol, substâncias antioxidantes, benefícios cardiovasculares, etc.), e de forma nem tão inocente assim penso que quanto mais bonzinho eu for na dieta alimentar e nos exercícios físicos mais espaço e segurança terei para degustar meus vinhos, espero que por um longo tempo ainda.
“Vai uma meia garrafa aí pra comemorar?”
E quanto ao meu exame tira-teima, feito pouco mais de um mês depois do susto?
Depois do resultado que me colocou em alerta (culpa das tigelas de sorvete no almoço e das massas com molho de gorgonzola), dediquei-me a fazer tudo como manda o figurino durante pouco mais de um mês. Atividade física continuei fazendo normalmente, nada se alterou nesse quesito. Já na alimentação eu aboli o açúcar, finquei o pé na jaca das saladas, reduzi o tamanho do prato (acertei exatos 300 gramas por quatro dias seguidos no restaurante, sem brincadeira!) e, sim, reduzi o consumo de vinho, tanto na frequência quanto na quantidade.
Como era de se esperar, voltei ao meu normal com uma glicemia em jejum de 103 mg/l, com todos os outros parâmetros associados também apresentando uma boa reduzida. Escapei do diagnóstico de degola e de eventuais medicações, saí do resguardo, a esposa destrancou a adega e voltei à rotina normal de degustações. Mas a atenção quanto à alimentação vai continuar, sendo que manterei o veto de 98% aos doces.
Se você se identificou com minha situação ou quer ler um pouco mais sobre o tema, vão aí alguns links interessantes:
http://www.uvibra.com.br/noticias_5-2006_5.htm
http://www.cisa.org.br/artigo/4405/padroes-consumo-alcool.php
http://www.sofazquemsabe.com/2014/07/definindo-dose-de-alcool-calculando-quantidade-alcool-das-bebidas-alcoolicas.html
http://www.nhs.uk/news/2015/06June/Pages/Drinking-plenty-of-red-wine-wont-help-you-lose-weight.aspx
A taxa glicêmica de jejum, índice que mede a quantidade de açúcar no sangue, bateu nos 128 mg/litro. Para quem entende, este número está acima do limite atualmente estabelecido como um dos três fatores usados no diagnóstico de diabetes. Além da glicemia alta, outro parâmetro que estava alterado era o nível de triglicérides, o que faz sentido pois glicemia e triglicérides meio que andam de mãos dadas.
Por ser uma bebida que possui álcool, o vinho é calórico. Calorias aumentam o nível de glicemia e triglicérides. E uma esposa preocupada tranca a adega com um cadeado depois de um exame com resultado desses...
É fato que eu sempre tive glicemia limítrofe, variando em torno dos 100 mg/litro. Como apreciador inveterado de vinhos, quando a luz vermelha do exame acendeu eu logo me lancei numa pesquisa para compreender como seria possível administrar a quantidade de álcool que estou ingerindo de forma a garantir a segurança de meu hedonismo enófilo, para qualquer eventual necessidade.
Chegamos, portanto, ao motivo de porque estou a divagar sobre minha saúde.
Dourar a própria pílula é algo natural para qualquer ser humano, mas às vezes é preciso ser racional. O vinho, mesmo com todas as presumidas vantagens que possui para a saúde quando consumido com moderação, é uma bebida que tem álcool e açúcar em sua composição. A boa notícia é que o teor de açúcar no vinho pode ser desprezado. E quanto ao álcool? Todos sabem que o álcool, quando consumido em excesso, é prejudicial à saúde no curto, no médio e no longo prazo.
Praticamente todas as informações médicas sobre a relação entre álcool e perturbações glicêmicas (das quais a pior é a diabetes) se desencontram em algum momento. Umas fontes dizem que pode, outras dizem que não. Umas exaltam os benefícios do vinho para o coração e para o controle do colesterol, outras alegam que os malefícios superam os alegados benefícios. O único ponto em comum na maioria dos artigos é que o consumo de álcool deve ser moderado, seja ele no vinho, no uísque ou na cerveja.
De acordo com o Sr. Dráuzio Varella, 25g de álcool por dia é a linha de corte entre o consumo moderado e o consumo não moderado de álcool, uma quantidade que é responsável por aportar cerca de 175 kcal ao organismo humano. 25 gramas de álcool equivale a aproximadamente 3 doses, sendo que 1 (uma) dose de álcool corresponde à quantidade aproximada que o organismo de um adulto médio consegue processar em uma hora, ou seja, após decorrida 1 hora de ingestão desta dose pouco ou nenhum álcool será deixado no sangue de um adulto. Nota: mulheres devem cortar estas quantidades pela metade.
Eu costumo medir meu vinho por garrafa, meia garrafa e taça, sendo que cada garrafa rende quatro taças bem servidas. Sabendo que a densidade do álcool é de 0,8 g/ml, apresento a seguinte tabela que mostra a quantidade de álcool presente numa garrafa e em suas frações, tanto em volume quanto em massa para cada grau de teor alcoolico:
| 187ml 1/4 de garrafa (1 taça bem servida) | 250 ml 1/3 garrafa (2 taças rasas) | 375 ml 1/2 garrafa | 750 ml garrafa inteira | |
| 9% | 16,9 ml / 13,5 g | 22,5 ml / 18 g | 33,8 ml / 27 g | 67,5 ml / 54 g |
| 10% | 18,8 ml / 15,0 g | 25,0 ml / 20 g | 37,5 ml / 30 g | 75,0 ml / 60 g |
| 11% | 20,6 ml / 16,5 g | 27,5 ml / 22 g | 41,3 ml / 33 g | 82,5 ml / 66 g |
| 12% | 22,5 ml / 18,0 g | 30,0 ml / 24 g | 45,0 ml / 36 g | 90,0 ml / 72 g |
| 13% | 24,4 ml / 19,5 g | 32,5 ml / 26 g | 48,8 ml / 39 g | 97,5 ml / 78 g |
| 14% | 26,3 ml / 21,0 g | 35,0 ml / 28 g | 52,5 ml / 42 g | 105,0 ml / 84 g |
| 15% | 28,1 ml / 22,5 g | 37,5 ml / 30 g | 56,3 ml / 45 g | 112,5 ml / 90 g |
Observa-se claramente pela tabela onde estão as áreas seguras e as áreas onde se considera que o consumo de vinho/álcool está acima do moderado. Tomei a liberdade de marcar uma zona cinza, que vai dos 25 aos 30g e excede um pouco o limite, no que eu considero dentro de uma faixa de tolerância aceitável.
É claro que ninguém deve focar com tanta precisão nestes números, mas tê-los em mente pode ser de grande valia quando é preciso analisar a quantidade de álcool que estamos ingerindo juntamente com o vinho, e a frequência com que isso ocorre. Observa-se, por exemplo, que uma taça generosa de vinho por dia (1/4 de garrafa) é totalmente aceitável de acordo com o critério do digníssimo Sr. Drauzio Varella. Para algumas pessoas, porém, beber vinho todos os dias da semana é algo que não soa bem mesmo que nos mantenhamos dentro da zona verde. Por outro lado, não vejo problema algum em passar um pouco o sinal em ocasiões esporádicas, como num encontro com os amigos ou numa refeição de especial significado, desde que a isso se siga um breve período de abstinência.
Em suma, tudo se resume a bom senso e equilíbrio. Os desdobramentos do dilema sobre benefícios e malefícios do álcool são muitos, e cada pessoa tem os seus limites e recomendações médicas. Eu tendo a olhar a questão do ponto de vista positivo (resveratrol, substâncias antioxidantes, benefícios cardiovasculares, etc.), e de forma nem tão inocente assim penso que quanto mais bonzinho eu for na dieta alimentar e nos exercícios físicos mais espaço e segurança terei para degustar meus vinhos, espero que por um longo tempo ainda.
“Vai uma meia garrafa aí pra comemorar?”
E quanto ao meu exame tira-teima, feito pouco mais de um mês depois do susto?
Depois do resultado que me colocou em alerta (culpa das tigelas de sorvete no almoço e das massas com molho de gorgonzola), dediquei-me a fazer tudo como manda o figurino durante pouco mais de um mês. Atividade física continuei fazendo normalmente, nada se alterou nesse quesito. Já na alimentação eu aboli o açúcar, finquei o pé na jaca das saladas, reduzi o tamanho do prato (acertei exatos 300 gramas por quatro dias seguidos no restaurante, sem brincadeira!) e, sim, reduzi o consumo de vinho, tanto na frequência quanto na quantidade.
Como era de se esperar, voltei ao meu normal com uma glicemia em jejum de 103 mg/l, com todos os outros parâmetros associados também apresentando uma boa reduzida. Escapei do diagnóstico de degola e de eventuais medicações, saí do resguardo, a esposa destrancou a adega e voltei à rotina normal de degustações. Mas a atenção quanto à alimentação vai continuar, sendo que manterei o veto de 98% aos doces.
Se você se identificou com minha situação ou quer ler um pouco mais sobre o tema, vão aí alguns links interessantes:
http://www.uvibra.com.br/noticias_5-2006_5.htm
http://www.cisa.org.br/artigo/4405/padroes-consumo-alcool.php
http://www.sofazquemsabe.com/2014/07/definindo-dose-de-alcool-calculando-quantidade-alcool-das-bebidas-alcoolicas.html
http://www.nhs.uk/news/2015/06June/Pages/Drinking-plenty-of-red-wine-wont-help-you-lose-weight.aspx
sábado, 17 de setembro de 2016
Se a reputação precede o vinho...
Desde que comecei a me envolver mais com o mundo dos vinhos, há pouco mais de um ano e meio, sempre tive por meta variar as garrafas degustadas. Não ficar sempre no mesmo produtor ou região, e se possível ir atrás dos exemplares mais diferenciados que pudesse encontrar. Repetir uma garrafa jamais, pelo menos por um bom tempo.
Sim, sou meio extremista. Eu proibi a esposa de estocar a adega com Casal Garcia, por exemplo.
Por mais incrível que possa parecer, conheci pessoas que pensam o contrário e se mantêm fieis a um único vinho ou a um único estilo de vinho. Compram sempre as mesmas garrafas, às vezes caixas do mesmo vinho, mas não com o intuito nobre de abri-las de maneira compassada para apreciar sua evolução. A ideia é prová-los no dia a dia, e essas pessoas são perfeitamente felizes com algo que lhes é agradável e lhes traz prazer. Sair da rotina é algo que chega quase a doer fisicamente, tamanho é o risco e o medo de tomar algo que não lhes agrade da mesma forma ou na mesma intensidade.
Apesar de valorizar a variedade sempre e continuar buscando degustar vinhos diferenciados, recentemente passei por uma experiência que me fez reavaliar um pouco este conceito, mudando uma mentalidade que com certeza me levou a provar vinhos que talvez não fossem as escolhas mais adequadas para quem está começando.
Alguém duvida que os melhores jogadores de basquete atuem nos Estados Unidos, que os melhores chocolates são produzidos na Suíça, que o melhor pequi é o que vem de Goiás, que o melhor serviço de streaming atual é a Netflix ou que os melhores frutos do mar são aqueles preparados frescos? Ainda que algumas pessoas discordem dessas afirmações, a probabilidade é que para a maioria elas sejam verdades consolidadas, seguras, contra as quais fica difícil oferecer argumentos contrários.
Pois assim são também muitos aspectos no mundo do vinho. Ir contra eles significa colocar-se em risco, trilhar um caminho não tão seguro e incorrer numa maior probabilidade de erro. Onde devemos ir para provar os melhores Pinot Noir? Na Borgonha, claro. É na Espanha que podemos encontrar as melhores garrafas de Tempranillo, mas onde estarão os melhores Rieslings? Se alguém disser algo diferente de Alsácia e Alemanha está com certeza muito equivocado. As melhores garrafas de Carménère não estariam exclusivamente no Chile? Alguém consegue imaginar algum outro país produzindo Nebbiolo e Barbera com a mesma consistência com que essas variedades são trabalhadas no Piemonte?
O caminho mais racional para entender um estilo de vinho ou uma variedade de uva é buscar por produtos cuja reputação os precede.
A probabilidade de provar um excelente Touriga Nacional, por exemplo, é muito maior com um exemplar português do que com uma garrafa norteamericana. Isso absolutamente não significa que os EUA sejam incapazes de produzir bons Tourigas, mas no universo vitivinícola como um todo essa é uma aposta arriscada para qualquer enófilo que busca escolher as melhores garrafas para sua adega.
Caso em questão: Tannat. Casta originária da França e conhecida por ser casca grossa (literalmente) e pelos taninos agressivos, a Tannat foi difundida em diversos outros países mas todas as fontes apontarão que foi no Uruguai que ela melhor se adaptou. O sucesso foi tamanho que nosso pequeno vizinho fez campanha para que a Tannat fosse reconhecida como sua casta emblemática. E conseguiu.
Deve-se esperar, portanto, que os melhores Tannats sejam provenientes do Uruguai. Principalmente no quesito custo-benefício, uma vez que os exemplares provenientes da AOC Madiran, na França, são vendidos por aqui a preços proibitivos (e assim a uva vai seguindo o mesmo caminho já trilhado pela Malbec e pela Carmenere).
Para ratificar o exposto, exponho abaixo fotos da pequena overdose que tive de Tannat há algumas semanas atrás, em ordem cronológica. A amostragem não foi tão abrangente e nem o calibre dos vinhos tão elevado, mas ficou evidente para mim que os mais equilibrados foram realmente os uruguaios.
Vinho jovem de corpo leve, mas o que lhe falta de densidade sobra na textura equilibrada, um caldo aveludado com olfato de amoras e sem qualquer indício de taninos. A influência do carvalho ao final da fermentação foi mínima e na minha opinião ideal. Fantástico vinho, pelo que entrega e também por quanto custa (um dos mais baratos da carta do Madero Steakhouse de Cuiabá).
Vinho de boa tipicidade, com ótima estrutura de taninos e o esperado leque aromático de frutas negras sinalizado pela coloração rubi escura. O restante da garrafa ficou ainda melhor depois de um tempo de descanso intermediário.
Mais um Tannat de corpo leve, que desceu macio. Desconsiderando o exemplar Reservado comercializado em terras tupiniquins, esse é o rótulo de entrada da Família Deicas / Juanicó, e chama a atenção pela maciez em boca.
Esse eu procurei de birra, para fugir do eixo Brasil-Uruguai que domina o mercado nacional. O olfato é de frutas negras maduras, com um pouco de chocolate e tabaco e presença sutil de madeira no paladar, além de acidez bem presente. Não tão equilibrado quanto os anteriores, mas ainda assim agradável.
Este aqui foi marcado por uma presença mais acentuada de carvalho já no olfato, além de taninos dispersos que encobrem a característica frutada e deixam o vinho mais rústico.
Até hoje o melhor Tannat brasileiro que provei. Olfato intenso de fruta madura como ameixa e amoras, paladar de textura suave e taninos finos, num vinho saboroso com ótimo equilíbrio em boca. Dentro da linha Aurora Reserva, este Tannat foi a variedade que mais me agradou. E também foi a única garrafa deste grupo que foi capaz de fazer frente aos exemplares uruguaios.
Obviamente ainda estou por provar garrafas de Tannat mais potentes, e a oportunidade com certeza chegará. Os que vieram antes destes foram quase todos brasileiros, e admito que nenhum deles tocou meu paladar como eu esperei que tivessem tocado. Ui!
Vão por mim, as aventuras podem ser agradáveis também, mas se quiserem conhecer a Tannat de maneira mais racional ou simplesmente não errar na escolha de garrafa, optem por um vinho uruguaio.
Saúde e um grande abraço a todos!
Sim, sou meio extremista. Eu proibi a esposa de estocar a adega com Casal Garcia, por exemplo.
Por mais incrível que possa parecer, conheci pessoas que pensam o contrário e se mantêm fieis a um único vinho ou a um único estilo de vinho. Compram sempre as mesmas garrafas, às vezes caixas do mesmo vinho, mas não com o intuito nobre de abri-las de maneira compassada para apreciar sua evolução. A ideia é prová-los no dia a dia, e essas pessoas são perfeitamente felizes com algo que lhes é agradável e lhes traz prazer. Sair da rotina é algo que chega quase a doer fisicamente, tamanho é o risco e o medo de tomar algo que não lhes agrade da mesma forma ou na mesma intensidade.
Apesar de valorizar a variedade sempre e continuar buscando degustar vinhos diferenciados, recentemente passei por uma experiência que me fez reavaliar um pouco este conceito, mudando uma mentalidade que com certeza me levou a provar vinhos que talvez não fossem as escolhas mais adequadas para quem está começando.
A ideia é ficar mais ou menos na intersecção, se é que vocês me entendem
Alguém duvida que os melhores jogadores de basquete atuem nos Estados Unidos, que os melhores chocolates são produzidos na Suíça, que o melhor pequi é o que vem de Goiás, que o melhor serviço de streaming atual é a Netflix ou que os melhores frutos do mar são aqueles preparados frescos? Ainda que algumas pessoas discordem dessas afirmações, a probabilidade é que para a maioria elas sejam verdades consolidadas, seguras, contra as quais fica difícil oferecer argumentos contrários.
Pois assim são também muitos aspectos no mundo do vinho. Ir contra eles significa colocar-se em risco, trilhar um caminho não tão seguro e incorrer numa maior probabilidade de erro. Onde devemos ir para provar os melhores Pinot Noir? Na Borgonha, claro. É na Espanha que podemos encontrar as melhores garrafas de Tempranillo, mas onde estarão os melhores Rieslings? Se alguém disser algo diferente de Alsácia e Alemanha está com certeza muito equivocado. As melhores garrafas de Carménère não estariam exclusivamente no Chile? Alguém consegue imaginar algum outro país produzindo Nebbiolo e Barbera com a mesma consistência com que essas variedades são trabalhadas no Piemonte?
O caminho mais racional para entender um estilo de vinho ou uma variedade de uva é buscar por produtos cuja reputação os precede.
A probabilidade de provar um excelente Touriga Nacional, por exemplo, é muito maior com um exemplar português do que com uma garrafa norteamericana. Isso absolutamente não significa que os EUA sejam incapazes de produzir bons Tourigas, mas no universo vitivinícola como um todo essa é uma aposta arriscada para qualquer enófilo que busca escolher as melhores garrafas para sua adega.
Caso em questão: Tannat. Casta originária da França e conhecida por ser casca grossa (literalmente) e pelos taninos agressivos, a Tannat foi difundida em diversos outros países mas todas as fontes apontarão que foi no Uruguai que ela melhor se adaptou. O sucesso foi tamanho que nosso pequeno vizinho fez campanha para que a Tannat fosse reconhecida como sua casta emblemática. E conseguiu.
Deve-se esperar, portanto, que os melhores Tannats sejam provenientes do Uruguai. Principalmente no quesito custo-benefício, uma vez que os exemplares provenientes da AOC Madiran, na França, são vendidos por aqui a preços proibitivos (e assim a uva vai seguindo o mesmo caminho já trilhado pela Malbec e pela Carmenere).
Para ratificar o exposto, exponho abaixo fotos da pequena overdose que tive de Tannat há algumas semanas atrás, em ordem cronológica. A amostragem não foi tão abrangente e nem o calibre dos vinhos tão elevado, mas ficou evidente para mim que os mais equilibrados foram realmente os uruguaios.
Montes Toscanini, Reserva Familiar Tannat, Canelones 2015 (Uruguai)
Vinho jovem de corpo leve, mas o que lhe falta de densidade sobra na textura equilibrada, um caldo aveludado com olfato de amoras e sem qualquer indício de taninos. A influência do carvalho ao final da fermentação foi mínima e na minha opinião ideal. Fantástico vinho, pelo que entrega e também por quanto custa (um dos mais baratos da carta do Madero Steakhouse de Cuiabá).
Bodega Garzón, Garzón Tannat, Maldonado 2013 (Uruguai)
Vinho de boa tipicidade, com ótima estrutura de taninos e o esperado leque aromático de frutas negras sinalizado pela coloração rubi escura. O restante da garrafa ficou ainda melhor depois de um tempo de descanso intermediário.
Establecimiento Juanicó, Don Pascual Varietal Tannat, Canelones 2015 (Uruguai)
Mais um Tannat de corpo leve, que desceu macio. Desconsiderando o exemplar Reservado comercializado em terras tupiniquins, esse é o rótulo de entrada da Família Deicas / Juanicó, e chama a atenção pela maciez em boca.
Bodegas El Esteco, Michel Torino Colección Tannat, Salta 2012 (Argentina)
Esse eu procurei de birra, para fugir do eixo Brasil-Uruguai que domina o mercado nacional. O olfato é de frutas negras maduras, com um pouco de chocolate e tabaco e presença sutil de madeira no paladar, além de acidez bem presente. Não tão equilibrado quanto os anteriores, mas ainda assim agradável.
Pizzato Vinhas e Vinhos, Fausto Tannat, Serra Gaúcha 2014 (Brasil)
Este aqui foi marcado por uma presença mais acentuada de carvalho já no olfato, além de taninos dispersos que encobrem a característica frutada e deixam o vinho mais rústico.
Coop. Viníciola Aurora, Aurora Reserva Tannat, Serra Gaúcha 2014 (Brasil)
Até hoje o melhor Tannat brasileiro que provei. Olfato intenso de fruta madura como ameixa e amoras, paladar de textura suave e taninos finos, num vinho saboroso com ótimo equilíbrio em boca. Dentro da linha Aurora Reserva, este Tannat foi a variedade que mais me agradou. E também foi a única garrafa deste grupo que foi capaz de fazer frente aos exemplares uruguaios.
Obviamente ainda estou por provar garrafas de Tannat mais potentes, e a oportunidade com certeza chegará. Os que vieram antes destes foram quase todos brasileiros, e admito que nenhum deles tocou meu paladar como eu esperei que tivessem tocado. Ui!
Vão por mim, as aventuras podem ser agradáveis também, mas se quiserem conhecer a Tannat de maneira mais racional ou simplesmente não errar na escolha de garrafa, optem por um vinho uruguaio.
Saúde e um grande abraço a todos!
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Vinho × Metanol
A ciência por trás da produção de vinhos é hoje uma atividade muito bem consolidada, regulada por lei e propagada academicamente por meio de cursos de ensino superior voltados à enologia. Ainda assim, num universo onde a apreciação do produto jamais deixará de lado a interpretação pessoal e uma bem-vinda subjetividade, muitos mitos e histórias mirabolantes foram e continuam a ser criados.
Alguns desses mitos são mais obscuros. Como o de que os vinhos feitos a partir de uvas americanas da espécie Vitis labrusca, em particular da variedade Isabel (ou Isabelle, como é conhecida mundo afora), devem ser condenados porque possuem em sua composição uma substância extremamente tóxica chamada metanol.
Quando ouvi isso pela primeira vez fiquei bem desconfiado, de tal forma que foi impossível não pesquisar o tema um pouco mais a fundo.
Hora de descascar mais uma cebola!
Descoberta e batizada na Carolina do Sul, EUA, em 1816, a Isabella/Isabel rapidamente ganhou notoriedade na região de Nova York, sendo utilizada tanto como uva de mesa quanto como base para vinhos tranquilos e espumantes. De lá a variedade se espalhou para diversos cantos do mundo graças à sua boa resistência ao calor e à sua capacidade de crescer bem em condições adversas.
Os vinhos feitos de Isabel têm corpo leve para médio e um perfil aromático que remete a morangos, além de trazer o olfato característico dos néctares produzidos com Vitis labrusca. O cultivo dessa uva é muito difundido nas Américas, e um grande exemplo disso é o fato dela ainda ocupar a maior área de vinhedos do Rio Grande do Sul. Já na Europa é proibido produzir vinhos de Isabel, muito embora existam pessoas que gostam de fazê-lo em casa para consumo próprio.
Apesar da atual restrição europeia ao cultivo de vinhas de Isabel, nem sempre isso foi assim. A linha do tempo das proibições sobre uvas americanas na Europa é um pouco confusa. Foi na década de 30 que alguns países europeus começaram a proibir o cultivo de uvas americanas, como a Itália, que introduziu o veto à venda e distribuição de vinhos feitos com estas variedades. Já a França proibiu as plantações de Isabel em 1935, no que alguns consideram puro medo do retorno da praga da filoxera (um inseto safado que suga as raízes e mata as videiras de Vitis vinifera) enquanto outros vêm uma tática de protecionismo no sentido de garantir a hegemonia local das castas europeias. Mais tarde, em 1979, a Comissão Europeia consolidou a proibição continental de vinhos europeus produzidos com uvas americanas.
O bullying enológico continuou de forma bagunçada em muitas regiões, contra os mais diversos vinhos penetras. Um deles, no entanto, é emblemático por causa da justificativa dada pelo governo italiano quanto ao seu banimento: a alegação de que era muito difícil controlar os níveis de metanol num produto feito com a variedade Isabel. Fragolino é o seu nome, um termo que vem do italiano fragola e significa morango, referência ao aroma característico aportado pela Isabel durante o processo de fermentação.
Originalmente fabricado em variações tinta, branca e espumante nas regiões de Vêneto e Friuli, o Fragolino é hoje produto de contrabando dentro do próprio país onde nasceu. Sua proibição mais recente encontra ecos em diversas fontes, que apontam como gatilho o escândalo ocorrido no país em 1986, que resultou na morte de 20 pessoas e causou dezenas de casos de cegueira devido à ingestão de vinhos com elevado teor de metanol. Garrafas com proporções de até 5,7% de metanol foram identificadas, cargas inteiras destinadas à França e à Alemanha foram apreendidas e a Dinamarca chegou a proibir a entrada de todas as bebidas italianas após descobrir que o vermute também estava contaminado por metanol.
Existe, porém, um pequeno detalhe que as duvidosas fontes online não revelam. Nenhum parágrafo das páginas que pesquisei aponta para a pobre Isabel como participante ou sequer coadjuvante dessa terrível tragédia. Os vinhos com níveis de metanol estourados ostentavam nomes nobres como Barbera e Dolcetto.
E agora, José? Tudo o que sei é que os Barberas e Dolcettos ainda estão por aí, mas não o pobre Fragolino, tão inocente e antes tão degustado por locais e turistas... O vinho caiu em desgraça e hoje só pode ser encontrado em lugares isolados na Suíça ou no mercado negro italiano, despejado nas taças a partir de vergonhosas garrafas sem rótulo. Se você já viu o Fragolino nos supermercados italianos, saiba que ele é falso pois não passa de um vinho normal aromatizado artificialmente.
A única verdade de todo esse imbróglio é que o envenenamento dos vinhos italianos com metanol foi um ato criminoso. A probabilidade é grande de que a má fama da Isabel com relação ao teor de metanol surgiu da associação entre este evento e a proibição do Fragolino. Mesmo assim, tenho certeza que algumas pessoas podem e vão perguntar:
O metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico, é um dos muitos tipos diferentes de álcool de característica líquida e inflamável. Ao contrário do que acontece com o álcool convencional, conhecido como álcool etílico, o metanol é extremamente prejudicial ao sistema nervoso quando consumido em doses excessivas, podendo causar cegueira, coma e morte. Por outro lado, o metanol é um composto natural encontrado normalmente nos seres humanos, que o produzem a partir da metabolização de certas substâncias nos rins e o exalam na própria respiração.
Acredito que a principal dúvida de todos nós, ao nos depararmos com o boato do metanol no vinho, é saber quanto dessa substância existe na nossa garrafa diária, seja ela de Isabel ou de qualquer outra variedade vínica. Afinal, a ingestão de 10 ml de metanol é suficiente para destruir o nervo ótico e causar cegueira permanente. Já 30 ml pode ser potencialmente fatal. Os efeitos tóxicos começam imediatamente após a ingestão, com sintomas que se parecem com os do álcool mas logo evoluem para um quadro muito grave.
De modo geral, todos os vinhos contêm metanol, em doses que variam em média de 50 a 300 mg/l. No entanto, vários estudos apontam que vinhos feitos de Vitis labrusca realmente possuem mais metanol em sua composição que os vinhos feitos com Vitis vinifera. Este aqui, por exemplo, identificou uma média de 133 mg/l em Isabel/Bordô/Concord contra 57 mg/l em Cabernet Sauvignon. Este outro já mostra 394 mg/l nos Vitis labrusca e 147 mg/l em Malbec/Muscat, sendo que o limite da legislação brasileira é de 350 mg/l.
O principal motivo para essa diferença é uma substância chamada pectina, um polissacarídeo existente nas paredes de plantas terrestres e em seus frutos, que existe em maior quantidade nas videiras da espécie Vitis labrusca. Como o metanol presente no vinho é gerado pela hidrólise dos grupos metoxílicos da pectina da uva ao longo da fermentação, devemos sim esperar um teor de metanol um pouco mais alto nos vinhos feitos com uvas americanas.
Além da espécie de uva, há ainda dois outros fatores que contribuem para aumentar o teor de metanol nos vinhos. Um deles é o uso industrial da enzima péctica ou pectinase, produto regularmente empregado pelas vinícolas para melhorar a cor do suco, promover uma melhor extração de taninos e facilitar o processo de filtração final. Outro fator que pode provocar índices mais altos de metanol é o tempo de maceração do processo, uma vez que a pectina permanece por mais tempo no mosto quanto maior for o contato do suco com as cascas. Esta última observação explica, por exemplo, porque o teor de metanol é sempre mais alto nos vinhos tintos do que nos brancos.
Mas enfim, o metanol que está dentro da minha garrafa de vinho feito com uva Isabel é perigoso ou não?
Vamos exercitar um pouco de matemática para entender o que significam as concentrações de metanol expostas mais acima.
Sabe-se que a densidade do metanol é de 792 kg/m3, ou 792 g/l (muito próxima à do álcool comum). O limiar máximo considerado seguro para a ingestão de metanol é 2,5 ml (2 g), a intoxicação aguda ocorre com 10 ml (8 g) e uma potencial fatalidade pode acometer a pessoa que consumir 30 ml (24 g).
Sabendo que o teor limite da legislação brasileira para o metanol é de 350 mg/l, a parcela desta substância presente numa garrafa de vinho contendo 350 mg/l é de 0,045%. Considerando esse percentual, conclui-se que o volume admissível de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,3375 ml.
Portanto, ao consumir um vinho com 350 mg/l de metanol (0,045%):
• é perfeitamente seguro beber até 5,9 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 29,6 garrafas.
Eis uma memoriazinha de cálculo básica para os números acima:
Utilizando os mesmos tipos de cálculo, podemos continuar a avaliar os limites de metanol em diversos outros mercados.
Considerando o limite da União Europeia, por exemplo, que é de 250 mg/l para brancos e rosés e 400 mg/l (0,051%) para tintos, temos o seguinte cenário no caso dos tintos:
• é perfeitamente seguro beber até 5,2 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 26,1 garrafas.
Já nos Estados Unidos a FDA (Food and Drug Administration) diz que um teor de 0,1% de metanol no vinho é seguro, e que acima disso ele é considerado adulterado. Para 0,1%, o volume de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,75 ml.
Portanto, ao consumir um vinho com 0,1% de teor de metanol (ou 792 mg/l):
• é perfeitamente seguro beber até 2,6 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 13,3 garrafas.
Observa-se, portanto, que mesmo com valores de metanol um pouco acima dos limites estabelecidos seria impossível se intoxicar bebendo vinho, independente da variedade de uva utilizada para fabricá-lo. Quem em sã consciência bebe 2 garrafas e meia numa refeição ou numa sessão de degustação?
Extrapolando a conta para o máximo admissível de metanol que pode haver numa única garrafa, ou seja, uma quantidade de 2,5 g ou 2 ml, chegamos aos valores de corte de 2.110 mg/l ou 0,26% em volume. Somente para se ter uma ideia, no escândalo dos vinhos italianos envenenados a tal garrafa com 5,7% de metanol continha cerca de 42 ml da substância, quantidade 21 vezes maior que o limite admissível de ingestão segura! Uma única taça desse vinho batizado é capaz de destruir o sistema nervoso de um ser humano e deixá-lo cego, que dirá a garrafa inteira.
O que é possível concluir de tudo isso?
Ainda que alguns "iluminados" insistam em preservar esse mito infundado, agora posso dizer com toda a certeza que ninguém vai passar mal por beber vinhos feitos com uvas Isabel. Para pôr um ponto final ao assunto, confiram aqui um estudo exclusivo feito somente sobre os vinhos de Isabel.
O processo de fermentação de uvas para a produção de vinho é feito ao redor de todo o mundo, inclusive por pessoas e famílias comuns em seus próprios quintais. Independente da qualidade dos vinhos resultantes de processos caseiros, podemos ficar seguros pois nenhum deles será capaz de matar devido ao teor de metanol resultante. A única coisa com a qual devemos nos preocupar, no caso de produção caseira, é com o processo de destilação, algo que exige muito mais cuidado e pode sim resultar em bebidas com um perigoso percentual de metanol.
E se algum dos nobres leitores encontrar uma garrafa do autêntico Fragolino e ainda estiver com medo do metanol assassino diluído dentro dela, pode mandar pra mim que terei o maior prazer em livrá-lo do fardo.
Além dos links colocados acima, os artigos abaixo também contribuíram como fontes de pesquisa para este texto:
http://m.wine-searcher.com/grape-834-isabella
http://en.wikipedia.org/wiki/Pectin
http://winemakersacademy.com/pectic-enzymes-wine
http://revistaadega.uol.com.br/artigo/as-enzimas_6553.html
http://www.oenoblog.info/pt/2009/01/la-filtrabilidad-de-los-vinos
http://en.wikipedia.org/wiki/Methanol#Human_metabolite
http://homedistiller.org/intro/methanol/methanol
http://www.expo2015.org/magazine/en/economy/methanol-wine---we-learned-our-lesson-.html
http://www.thedrinksbusiness.com/2011/08/top-10-wine-scandals/7
http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,961046,00.html
http://www.italybeyondtheobvious.com/the-fragolino-controversy
http://www.science20.com/small_world/exploration_into_the_mystery_behind_fragolino
http://forums.egullet.org/topic/142525-fragolino-the-illegal-wine-venezia-venice-experiences-not-the-spark
http://modernfarmer.com/2013/10/best-wine-cant-buy-fragolino
http://viewitaly.blogspot.com.br/2006/08/tgi-fragolino-free-wine.html
http://www.shroomery.org/forums/showflat.php/Number/13869845
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=364196
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=57733
Alguns desses mitos são mais obscuros. Como o de que os vinhos feitos a partir de uvas americanas da espécie Vitis labrusca, em particular da variedade Isabel (ou Isabelle, como é conhecida mundo afora), devem ser condenados porque possuem em sua composição uma substância extremamente tóxica chamada metanol.
Quando ouvi isso pela primeira vez fiquei bem desconfiado, de tal forma que foi impossível não pesquisar o tema um pouco mais a fundo.
Hora de descascar mais uma cebola!
Descoberta e batizada na Carolina do Sul, EUA, em 1816, a Isabella/Isabel rapidamente ganhou notoriedade na região de Nova York, sendo utilizada tanto como uva de mesa quanto como base para vinhos tranquilos e espumantes. De lá a variedade se espalhou para diversos cantos do mundo graças à sua boa resistência ao calor e à sua capacidade de crescer bem em condições adversas.
Os vinhos feitos de Isabel têm corpo leve para médio e um perfil aromático que remete a morangos, além de trazer o olfato característico dos néctares produzidos com Vitis labrusca. O cultivo dessa uva é muito difundido nas Américas, e um grande exemplo disso é o fato dela ainda ocupar a maior área de vinhedos do Rio Grande do Sul. Já na Europa é proibido produzir vinhos de Isabel, muito embora existam pessoas que gostam de fazê-lo em casa para consumo próprio.
Apesar da atual restrição europeia ao cultivo de vinhas de Isabel, nem sempre isso foi assim. A linha do tempo das proibições sobre uvas americanas na Europa é um pouco confusa. Foi na década de 30 que alguns países europeus começaram a proibir o cultivo de uvas americanas, como a Itália, que introduziu o veto à venda e distribuição de vinhos feitos com estas variedades. Já a França proibiu as plantações de Isabel em 1935, no que alguns consideram puro medo do retorno da praga da filoxera (um inseto safado que suga as raízes e mata as videiras de Vitis vinifera) enquanto outros vêm uma tática de protecionismo no sentido de garantir a hegemonia local das castas europeias. Mais tarde, em 1979, a Comissão Europeia consolidou a proibição continental de vinhos europeus produzidos com uvas americanas.
O bullying enológico continuou de forma bagunçada em muitas regiões, contra os mais diversos vinhos penetras. Um deles, no entanto, é emblemático por causa da justificativa dada pelo governo italiano quanto ao seu banimento: a alegação de que era muito difícil controlar os níveis de metanol num produto feito com a variedade Isabel. Fragolino é o seu nome, um termo que vem do italiano fragola e significa morango, referência ao aroma característico aportado pela Isabel durante o processo de fermentação.
Originalmente fabricado em variações tinta, branca e espumante nas regiões de Vêneto e Friuli, o Fragolino é hoje produto de contrabando dentro do próprio país onde nasceu. Sua proibição mais recente encontra ecos em diversas fontes, que apontam como gatilho o escândalo ocorrido no país em 1986, que resultou na morte de 20 pessoas e causou dezenas de casos de cegueira devido à ingestão de vinhos com elevado teor de metanol. Garrafas com proporções de até 5,7% de metanol foram identificadas, cargas inteiras destinadas à França e à Alemanha foram apreendidas e a Dinamarca chegou a proibir a entrada de todas as bebidas italianas após descobrir que o vermute também estava contaminado por metanol.
Existe, porém, um pequeno detalhe que as duvidosas fontes online não revelam. Nenhum parágrafo das páginas que pesquisei aponta para a pobre Isabel como participante ou sequer coadjuvante dessa terrível tragédia. Os vinhos com níveis de metanol estourados ostentavam nomes nobres como Barbera e Dolcetto.
E agora, José? Tudo o que sei é que os Barberas e Dolcettos ainda estão por aí, mas não o pobre Fragolino, tão inocente e antes tão degustado por locais e turistas... O vinho caiu em desgraça e hoje só pode ser encontrado em lugares isolados na Suíça ou no mercado negro italiano, despejado nas taças a partir de vergonhosas garrafas sem rótulo. Se você já viu o Fragolino nos supermercados italianos, saiba que ele é falso pois não passa de um vinho normal aromatizado artificialmente.
A única verdade de todo esse imbróglio é que o envenenamento dos vinhos italianos com metanol foi um ato criminoso. A probabilidade é grande de que a má fama da Isabel com relação ao teor de metanol surgiu da associação entre este evento e a proibição do Fragolino. Mesmo assim, tenho certeza que algumas pessoas podem e vão perguntar:
Mas e se a Isabel for mesmo venenosa?
Já ouviram falar no ditado de que onde há fumaça há fogo?
Já ouviram falar no ditado de que onde há fumaça há fogo?
O metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico, é um dos muitos tipos diferentes de álcool de característica líquida e inflamável. Ao contrário do que acontece com o álcool convencional, conhecido como álcool etílico, o metanol é extremamente prejudicial ao sistema nervoso quando consumido em doses excessivas, podendo causar cegueira, coma e morte. Por outro lado, o metanol é um composto natural encontrado normalmente nos seres humanos, que o produzem a partir da metabolização de certas substâncias nos rins e o exalam na própria respiração.
Acredito que a principal dúvida de todos nós, ao nos depararmos com o boato do metanol no vinho, é saber quanto dessa substância existe na nossa garrafa diária, seja ela de Isabel ou de qualquer outra variedade vínica. Afinal, a ingestão de 10 ml de metanol é suficiente para destruir o nervo ótico e causar cegueira permanente. Já 30 ml pode ser potencialmente fatal. Os efeitos tóxicos começam imediatamente após a ingestão, com sintomas que se parecem com os do álcool mas logo evoluem para um quadro muito grave.
De modo geral, todos os vinhos contêm metanol, em doses que variam em média de 50 a 300 mg/l. No entanto, vários estudos apontam que vinhos feitos de Vitis labrusca realmente possuem mais metanol em sua composição que os vinhos feitos com Vitis vinifera. Este aqui, por exemplo, identificou uma média de 133 mg/l em Isabel/Bordô/Concord contra 57 mg/l em Cabernet Sauvignon. Este outro já mostra 394 mg/l nos Vitis labrusca e 147 mg/l em Malbec/Muscat, sendo que o limite da legislação brasileira é de 350 mg/l.
O principal motivo para essa diferença é uma substância chamada pectina, um polissacarídeo existente nas paredes de plantas terrestres e em seus frutos, que existe em maior quantidade nas videiras da espécie Vitis labrusca. Como o metanol presente no vinho é gerado pela hidrólise dos grupos metoxílicos da pectina da uva ao longo da fermentação, devemos sim esperar um teor de metanol um pouco mais alto nos vinhos feitos com uvas americanas.
Além da espécie de uva, há ainda dois outros fatores que contribuem para aumentar o teor de metanol nos vinhos. Um deles é o uso industrial da enzima péctica ou pectinase, produto regularmente empregado pelas vinícolas para melhorar a cor do suco, promover uma melhor extração de taninos e facilitar o processo de filtração final. Outro fator que pode provocar índices mais altos de metanol é o tempo de maceração do processo, uma vez que a pectina permanece por mais tempo no mosto quanto maior for o contato do suco com as cascas. Esta última observação explica, por exemplo, porque o teor de metanol é sempre mais alto nos vinhos tintos do que nos brancos.
Mas enfim, o metanol que está dentro da minha garrafa de vinho feito com uva Isabel é perigoso ou não?
Vamos exercitar um pouco de matemática para entender o que significam as concentrações de metanol expostas mais acima.
Sabe-se que a densidade do metanol é de 792 kg/m3, ou 792 g/l (muito próxima à do álcool comum). O limiar máximo considerado seguro para a ingestão de metanol é 2,5 ml (2 g), a intoxicação aguda ocorre com 10 ml (8 g) e uma potencial fatalidade pode acometer a pessoa que consumir 30 ml (24 g).
Sabendo que o teor limite da legislação brasileira para o metanol é de 350 mg/l, a parcela desta substância presente numa garrafa de vinho contendo 350 mg/l é de 0,045%. Considerando esse percentual, conclui-se que o volume admissível de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,3375 ml.
Portanto, ao consumir um vinho com 350 mg/l de metanol (0,045%):
• é perfeitamente seguro beber até 5,9 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 29,6 garrafas.
Eis uma memoriazinha de cálculo básica para os números acima:
Utilizando os mesmos tipos de cálculo, podemos continuar a avaliar os limites de metanol em diversos outros mercados.
Considerando o limite da União Europeia, por exemplo, que é de 250 mg/l para brancos e rosés e 400 mg/l (0,051%) para tintos, temos o seguinte cenário no caso dos tintos:
• é perfeitamente seguro beber até 5,2 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 26,1 garrafas.
Já nos Estados Unidos a FDA (Food and Drug Administration) diz que um teor de 0,1% de metanol no vinho é seguro, e que acima disso ele é considerado adulterado. Para 0,1%, o volume de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,75 ml.
Portanto, ao consumir um vinho com 0,1% de teor de metanol (ou 792 mg/l):
• é perfeitamente seguro beber até 2,6 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 13,3 garrafas.
Observa-se, portanto, que mesmo com valores de metanol um pouco acima dos limites estabelecidos seria impossível se intoxicar bebendo vinho, independente da variedade de uva utilizada para fabricá-lo. Quem em sã consciência bebe 2 garrafas e meia numa refeição ou numa sessão de degustação?
Extrapolando a conta para o máximo admissível de metanol que pode haver numa única garrafa, ou seja, uma quantidade de 2,5 g ou 2 ml, chegamos aos valores de corte de 2.110 mg/l ou 0,26% em volume. Somente para se ter uma ideia, no escândalo dos vinhos italianos envenenados a tal garrafa com 5,7% de metanol continha cerca de 42 ml da substância, quantidade 21 vezes maior que o limite admissível de ingestão segura! Uma única taça desse vinho batizado é capaz de destruir o sistema nervoso de um ser humano e deixá-lo cego, que dirá a garrafa inteira.
O que é possível concluir de tudo isso?
Ainda que alguns "iluminados" insistam em preservar esse mito infundado, agora posso dizer com toda a certeza que ninguém vai passar mal por beber vinhos feitos com uvas Isabel. Para pôr um ponto final ao assunto, confiram aqui um estudo exclusivo feito somente sobre os vinhos de Isabel.
O processo de fermentação de uvas para a produção de vinho é feito ao redor de todo o mundo, inclusive por pessoas e famílias comuns em seus próprios quintais. Independente da qualidade dos vinhos resultantes de processos caseiros, podemos ficar seguros pois nenhum deles será capaz de matar devido ao teor de metanol resultante. A única coisa com a qual devemos nos preocupar, no caso de produção caseira, é com o processo de destilação, algo que exige muito mais cuidado e pode sim resultar em bebidas com um perigoso percentual de metanol.
E se algum dos nobres leitores encontrar uma garrafa do autêntico Fragolino e ainda estiver com medo do metanol assassino diluído dentro dela, pode mandar pra mim que terei o maior prazer em livrá-lo do fardo.
Além dos links colocados acima, os artigos abaixo também contribuíram como fontes de pesquisa para este texto:
http://m.wine-searcher.com/grape-834-isabella
http://en.wikipedia.org/wiki/Pectin
http://winemakersacademy.com/pectic-enzymes-wine
http://revistaadega.uol.com.br/artigo/as-enzimas_6553.html
http://www.oenoblog.info/pt/2009/01/la-filtrabilidad-de-los-vinos
http://en.wikipedia.org/wiki/Methanol#Human_metabolite
http://homedistiller.org/intro/methanol/methanol
http://www.expo2015.org/magazine/en/economy/methanol-wine---we-learned-our-lesson-.html
http://www.thedrinksbusiness.com/2011/08/top-10-wine-scandals/7
http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,961046,00.html
http://www.italybeyondtheobvious.com/the-fragolino-controversy
http://www.science20.com/small_world/exploration_into_the_mystery_behind_fragolino
http://forums.egullet.org/topic/142525-fragolino-the-illegal-wine-venezia-venice-experiences-not-the-spark
http://modernfarmer.com/2013/10/best-wine-cant-buy-fragolino
http://viewitaly.blogspot.com.br/2006/08/tgi-fragolino-free-wine.html
http://www.shroomery.org/forums/showflat.php/Number/13869845
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=364196
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=57733
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