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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Vinho fora de casa - Parte 1: Administrando a garrafa inteira sozinho

Todo enófilo já passou ou ainda passará pela seguinte situação: sedento por um vinho depois de um cansativo dia de trabalho, ou mesmo desejoso de saborear mais uma garrafa para simplesmente celebrar a vida e tudo o que nela há de belo, você se senta à mesa do restaurante e descobre que seu/sua acompanhante não pode te acompanhar por ordens médicas ou é do tipo de pessoa que passa todo o jantar bebericando uma taça somente.

E agora, o que fazer?

Por mais simples que pareça, tal situação implica em vários desdobramentos com os quais muitas pessoas ainda não estão preparadas para lidar, ou se sentem mesmo simplesmente desconfortáveis.

De uns tempos para cá tenho passado por isso, e após observar bastante e testar algumas das alternativas para o “problema” decidi compartilhar minhas experiências. Vou primeiramente elencar as soluções mais óbvias para o dilema, considerando sempre que o enófilo está sentado à mesa diante de uma carta de vinhos:

    Opção 1. Abrir uma garrafa (750 ml).
    Opção 2. Abrir uma meia garrafa (375 ml).
    Opção 3. Tomar vinho por taça (150~175 ml).

Falemos agora sobre a primeira opção.

Abrir uma garrafa inteira significa, em primeiro momento, que você estará propenso a tomar todo (ou quase todo) o vinho. Ainda que alguns caboclos que conheço declarem aos quatro ventos que são capazes de beber uma garrafa de vinho “brincando”, acredito que uma garrafa inteira é demais para uma pessoa normal durante um jantar com duração média de duas horas. O álcool sobe pra cabeça, afeta o discernimento, incita comportamentos inapropriados e impossibilita completamente a direção responsável. Isso é fato, e não adianta achar que o baixo teor alcoolico de um Vinho Verde vai te ajudar pois o importante neste caso é sempre pensar em segurança e moderação.

Há alguns meses atrás, numa das vezes em que saímos para conhecer um novo restaurante, encarei uma garrafa inteira sozinho só para ver como seria a experiência. Bebi tudo, até a última gota, de um Sangiovese toscano com 14% de teor alcoolico (veja abaixo). O resultado foi um mês de gozação da minha esposa, que me zoou muito sobre o derramamento que provoquei em seu suco, o apagar da vela na mesa, as risadas do rapaz do estacionamento ao me observar ziguezagueando em direção ao banco do passageiro e minhas constantes declarações de “estou bem, estou bem...” já dentro do carro.

Castellani, Le Casine Sangiovese, Toscana IGT 2013 (Itália)
Bebendo a garrafa sozinho e enfiando o pé na jaca

Obviamente, quem voltou dirigindo naquela noite foi minha esposa. Por mais que eu soubesse que era ela quem voltaria dirigindo, em determinado ponto do jantar eu já não estava em domínio de meus sentidos olfativos ou gustativos. Nem me recordo do sabor do meu prato, e tenho lembranças somente enevoadas do momento em que paguei a conta.

O que quero dizer, amigos enófilos, é que a atitude de beber uma garrafa inteira durante uma refeição fora de casa é extremamente desaconselhável, mesmo que haja alguém são para dirigir no trajeto de volta.

Por outro lado, nem tudo está perdido caso você decida por pedir uma garrafa inteira. Ora bolas, por que deveríamos beber tudo num intervalo de tempo tão curto? O que te impede de beber somente a metade da garrafa e levar o que sobrou para casa? Você está pagando pelo vinho, e a partir do momento em que chega à mesa ele é seu para fazer o que quiser.

Por acreditar que isso seja falta de etiqueta ou mesmo por timidez ou vergonha, a esmagadora maioria dos frequentadores de restaurantes não leva o vinho que sobrou consigo. Tudo bem se o que restou mal dá para limpar o fundo de uma taça, mas e se estamos diante de uma garrafa que ainda está pela metade? Amigos, não sejamos levianos com o líquido que amamos! Deixando-o na mesa, o destino é o lixo ou o paladar dos funcionários, que se forem espertos não se furtarão ao prazer de degustar um vinho já devidamente aerado assim que a mesa for limpa!

Recentemente, um de nossos restaurantes favoritos tomou a decisão de abolir sua carta de vinhos e manter somente dois rótulos na casa, algo que descobrimos de surpresa durante um jantar (em contrapartida, a rolha é livre todos os dias). Novamente diante do dilema de ter uma garrafa toda para mim, desta vez levei o que sobrou para casa e continuei degustando-a no conforto do meu lar no dia seguinte.

Bodega Septima, Septima Cabernet Sauvignon, Mendoza 2013 (Argentina)
Além de acompanhar um rodízio de massas e risotos, acompanhou-me também até a minha casa

Como podem ver, essa foi uma decisão completamente acertada, pois a metade do volume de uma garrafa é na minha opinião a quantidade média ideal a ser consumida acompanhando um jantar fora.

Em vários estados dos EUA e do Canadá, inclusive, existe uma lei que permite que os restaurantes forneçam um serviço de re-selagem das garrafas para que os clientes levem o que sobrou do vinho para casa. Sabe-se que lá é proibido dirigir transportando garrafas abertas, o que acabava motivando as pessoas a beberem tudo antes de deixar o restaurante. A lei foi criada, portanto, para coibir esse comportamento e diminuir a incidência de acidentes decorrentes de bebedeira, o que de fato aconteceu de acordo com as estatísticas. Para saber um pouco mais clique aqui, aqui ou aqui.

Infelizmente todos sabem que no Brasil a lei é bem diferente. E que beber com responsabilidade é responsabilidade absoluta de cada um.

Para encerrar, uma última dúvida que pode surgir quanto a levar o vinho que sobrou para casa é como preservá-lo. Para isto as duas principais alternativas são dispositivos como o vacu-vin ou uma boa borrifada de gás inerte assim que chego em casa. Eu prefiro esta última opção, que venho usando há meses e funciona muito bem.

E você, já levou alguma garrafa de vinho pela metade do restaurante para casa?

No próximo texto discorro sobre o consumo de vinhos em meia garrafa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma experiência com vinho tinto de mesa seco

No último fim de semana decidi realizar uma experiência que senti que precisava fazer, em homenagem a um passado que já pertenceu a muitos entusiastas brasileiros de vinho.

Pergunte a qualquer pessoa adulta de que forma elas inicialmente tomaram conhecimento desse universo. 90% responderão que foi por meio dos vinhos suaves, em sua maioria vinhos de “garrafão”. Eu faço parte desse grupo, porém não bebo vinho de garrafão há muitos anos.

Decidi preparar-me para a experiência ao receber ilustres visitas em minha casa no mês passado. Foi-me solicitado comprar algumas garrafas de vinho suave para serem consumidas durante o almoço. Acabei escolhendo o Campo Largo (Famiglia Zanlorenzi), mas também levei para casa uma garrafa do Chalise tinto de mesa seco, produzido pela Salton a partir de uvas Isabel, Concord e Seibel. Que como todos sabem não são uvas pertencentes à espécie Vitis vinifera e, portanto, não são adequadas à produção de vinhos finos.

Beberiquei o Campo Largo para acompanhar as visitas, mais uma vez relembrando o sabor adocicado característico dos vinhos de garrafão. Alguns goles não matam ninguém, e minha percepção de sabor foi a mesma inicialmente registrada em memória décadas atrás. Já o Chalise seria algo novo, uma vez que eu não me lembro de jamais ter provado vinho seco feito a partir das tradicionais uvas usadas em vinho suave.

A oportunidade surgiu na última manhã de Domingo. Um Torrontés argentino (Cepas Elegidas, Mendoza 2014) abriu os trabalhos enquanto minha esposa cozinhava e as visitas chegavam. Durante o almoço o Chalise foi aberto, e finalmente pude concluir a tal experiência. No olfato senti algo muito parecido com o que se sente do vinho suave, porém não com a mesma intensidade, já no paladar não havia nada além de um gosto metálico, plano, carente de vivacidade. Sem amargor, mas também sem qualquer atrativo que convidasse a mais uma taça.

Vinícola Salton, Chalise Tinto de Mesa
Parece bonito na foto, mas não é

O Chalise seco é muito ruim. Ouso dizer, a partir dessa experiência de desapego, que se o assunto for uvas não-viníferas e eu tiver que escolher entre as duas categorias, eu prefiro o vinho suave ao vinho seco.

Em tempo: o Chalise já foi chamado de Linha de Base da Salton, uma denominação abandonada que sequer é mencionada no site da vinícola. A não ser, é claro, que você acesse uma página que ainda está no ar mas não é divulgada. Empurrar o Chalise para debaixo do tapete dessa forma parece ser bobo, mas a atitude é perfeitamente compreensível para uma empresa que deseja se destacar no mercado por seus vinhos finos, e não por vinhos de mesa – açucarados ou não – vendidos a menos de 10 reais em postos de gasolina e mercados de bairros periféricos.

E chega, garanto que não vou escrever mais sobre Vitis labrusca e respectivos clones. A não ser que role algum tipo de compensação financeira ou ameaça de morte.