sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Miolo Wine Group, RAR Collezione Gewürztraminer, Campos de Cima da Serra 2011 (Brasil)

Vinho: RAR Collezione Gewürztraminer
Safra: 2011
Região: Campos de Cima da Serra
País: Brasil
Vinícola: Miolo Wine Group (http://www.miolo.com.br)


Apesar de minha experiência com a casta ser pífia, as poucas oportunidades que tive de experimentar a Gewürztraminer foram bem agradáveis. Confesso que tinha poucas expectativas com relação à garrafa desta postagem, muito em parte devido à safra já um pouco avançada e à prova não tão empolgante do RAR Collezione Viognier que veio no mesmo pacote.

Mas eu estava enganado.

Como é bom quando nossas expectativas são quebradas da melhor forma possível, não é mesmo?

Um Pouco de História

Apesar de sua impressionante presença de mercado, a Miolo foi fundada há relativamente pouco tempo, tendo iniciado suas atividades no início dos anos 90. A herança do patriarca italiano Giuseppe Miolo foi além do nome da vinícola, que se expandiu nos anos seguintes a atualmente conta com cerca de 40% de market share no mercado nacional de vinhos finos.

A Miolo Wine Group de hoje no Brasil e no mundo (fonte: site da vinícola)

Durante seu plano de expansão, a Miolo adquiriu outras vinícolas e estabeleceu várias parcerias nacionais e internacionais. Em 2006 a empresa passou a ser chamada de Miolo Wine Group, e em 2009, por exemplo, anunciou a compra da Vinícola Almadén, passando a atuar num segmento de mercado em que ainda não participava.

A sede da vinícola fica no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, e possui uma estrutura de enoturismo que conta com sala de degustação, visitação às caves e aos parreirais e cursos de degustação. Para muitos é uma visita obrigatória se você estiver conhecendo a região. Eu já estive lá, e você?


Campos de Cima da Serra

Campos de Cima da Serra é uma das regiões produtoras de uvas mais frias e elevadas do Brasil, com 1.000 metros de altitude. O clima é temperado frio, de verões amenos, com temperatura máxima média de 25°C e mínima média de 15°C. No inverno, mais frio pela altitude, a temperatura máxima está em torno de 16°C e a mínima em torno de 7°C, sendo comum a ocorrência de geadas e até mesmo neve.

A aliança da Miolo com o empresário Raul Anselmo Randon resultou na produção dos vinhos RAR, cujas uvas são plantadas em Campos de Cima da Serra e todos os anos seguem para a sede da vinícola, no Vale dos Vinhedos, onde os vinhos são elaborados.


O vinho degustado: RAR Collezione Gewürztraminer, Campos de Cima da Serra 2011

Como informado no contrarrótulo, as uvas que foram usadas na elaboração deste vinho estavam parcialmente atacadas pelo fungo Botrytis cinerea, responsável pela chamada podridão nobre (o fungo seca a uva e extrai a umidade de dentro dela, concentrando em seu interior os açúcares). A ficha de informação do vinho aponta um percentual de 20% de uvas com podridão nobre.

Além do fator acima, o dulçor que se percebe em boca é devido também à interrupção da fermentação alcoolica por intermédio da redução brusca da temperatura, o que preservou o açúcar residual do vinho e lhe deu a característica de demi-seco. Não houve envelhecimento em carvalho, somente em tanques de aço inox por um período de um ano.

Levamos o vinho conosco em noite de rolha livre no restaurante Taberna Portuguesa. Ao ser aberto, exalou aromas frutados e uma leve pegada mineral, muito agradável. A cor era límpida, e não correspondeu nem um pouco ao que eu esperava de um vinho branco de mais idade, um indicativo de que a garrafa poderia ter tranquilamente permanecido na adega por mais algum tempo.

Decidi harmonizá-lo por contraste com a lagosta à pescadora, que leva na receita molho de limão, manteiga e pimentão (depois de uma fantástica porção de rã ao olho e óleo). A presença redonda e equilibrada em boca casou muito bem com ambos os pratos, especialmente o principal, e o dulçor praticamente desapareceu em meio à textura da lagosta.

Vinho muito bom, realmente um espetáculo em se tratando de um branco demi-seco.

sábado, 17 de setembro de 2016

Se a reputação precede o vinho...

Desde que comecei a me envolver mais com o mundo dos vinhos, há pouco mais de um ano e meio, sempre tive por meta variar as garrafas degustadas. Não ficar sempre no mesmo produtor ou região, e se possível ir atrás dos exemplares mais diferenciados que pudesse encontrar. Repetir uma garrafa jamais, pelo menos por um bom tempo.

Sim, sou meio extremista. Eu proibi a esposa de estocar a adega com Casal Garcia, por exemplo.

Por mais incrível que possa parecer, conheci pessoas que pensam o contrário e se mantêm fieis a um único vinho ou a um único estilo de vinho. Compram sempre as mesmas garrafas, às vezes caixas do mesmo vinho, mas não com o intuito nobre de abri-las de maneira compassada para apreciar sua evolução. A ideia é prová-los no dia a dia, e essas pessoas são perfeitamente felizes com algo que lhes é agradável e lhes traz prazer. Sair da rotina é algo que chega quase a doer fisicamente, tamanho é o risco e o medo de tomar algo que não lhes agrade da mesma forma ou na mesma intensidade.

Apesar de valorizar a variedade sempre e continuar buscando degustar vinhos diferenciados, recentemente passei por uma experiência que me fez reavaliar um pouco este conceito, mudando uma mentalidade que com certeza me levou a provar vinhos que talvez não fossem as escolhas mais adequadas para quem está começando.

A ideia é ficar mais ou menos na intersecção, se é que vocês me entendem

Alguém duvida que os melhores jogadores de basquete atuem nos Estados Unidos, que os melhores chocolates são produzidos na Suíça, que o melhor pequi é o que vem de Goiás, que o melhor serviço de streaming atual é a Netflix ou que os melhores frutos do mar são aqueles preparados frescos? Ainda que algumas pessoas discordem dessas afirmações, a probabilidade é que para a maioria elas sejam verdades consolidadas, seguras, contra as quais fica difícil oferecer argumentos contrários.

Pois assim são também muitos aspectos no mundo do vinho. Ir contra eles significa colocar-se em risco, trilhar um caminho não tão seguro e incorrer numa maior probabilidade de erro. Onde devemos ir para provar os melhores Pinot Noir? Na Borgonha, claro. É na Espanha que podemos encontrar as melhores garrafas de Tempranillo, mas onde estarão os melhores Rieslings? Se alguém disser algo diferente de Alsácia e Alemanha está com certeza muito equivocado. As melhores garrafas de Carménère não estariam exclusivamente no Chile? Alguém consegue imaginar algum outro país produzindo Nebbiolo e Barbera com a mesma consistência com que essas variedades são trabalhadas no Piemonte?

O caminho mais racional para entender um estilo de vinho ou uma variedade de uva é buscar por produtos cuja reputação os precede.

A probabilidade de provar um excelente Touriga Nacional, por exemplo, é muito maior com um exemplar português do que com uma garrafa norteamericana. Isso absolutamente não significa que os EUA sejam incapazes de produzir bons Tourigas, mas no universo vitivinícola como um todo essa é uma aposta arriscada para qualquer enófilo que busca escolher as melhores garrafas para sua adega.


Caso em questão: Tannat. Casta originária da França e conhecida por ser casca grossa (literalmente) e pelos taninos agressivos, a Tannat foi difundida em diversos outros países mas todas as fontes apontarão que foi no Uruguai que ela melhor se adaptou. O sucesso foi tamanho que nosso pequeno vizinho fez campanha para que a Tannat fosse reconhecida como sua casta emblemática. E conseguiu.

Deve-se esperar, portanto, que os melhores Tannats sejam provenientes do Uruguai. Principalmente no quesito custo-benefício, uma vez que os exemplares provenientes da AOC Madiran, na França, são vendidos por aqui a preços proibitivos (e assim a uva vai seguindo o mesmo caminho já trilhado pela Malbec e pela Carmenere).

Para ratificar o exposto, exponho abaixo fotos da pequena overdose que tive de Tannat há algumas semanas atrás, em ordem cronológica. A amostragem não foi tão abrangente e nem o calibre dos vinhos tão elevado, mas ficou evidente para mim que os mais equilibrados foram realmente os uruguaios.

Montes Toscanini, Reserva Familiar Tannat, Canelones 2015 (Uruguai)

Vinho jovem de corpo leve, mas o que lhe falta de densidade sobra na textura equilibrada, um caldo aveludado com olfato de amoras e sem qualquer indício de taninos. A influência do carvalho ao final da fermentação foi mínima e na minha opinião ideal. Fantástico vinho, pelo que entrega e também por quanto custa (um dos mais baratos da carta do Madero Steakhouse de Cuiabá).

Bodega Garzón, Garzón Tannat, Maldonado 2013 (Uruguai)

Vinho de boa tipicidade, com ótima estrutura de taninos e o esperado leque aromático de frutas negras sinalizado pela coloração rubi escura. O restante da garrafa ficou ainda melhor depois de um tempo de descanso intermediário.

Establecimiento Juanicó, Don Pascual Varietal Tannat, Canelones 2015 (Uruguai)

Mais um Tannat de corpo leve, que desceu macio. Desconsiderando o exemplar Reservado comercializado em terras tupiniquins, esse é o rótulo de entrada da Família Deicas / Juanicó, e chama a atenção pela maciez em boca.

Bodegas El Esteco, Michel Torino Colección Tannat, Salta 2012 (Argentina)

Esse eu procurei de birra, para fugir do eixo Brasil-Uruguai que domina o mercado nacional. O olfato é de frutas negras maduras, com um pouco de chocolate e tabaco e presença sutil de madeira no paladar, além de acidez bem presente. Não tão equilibrado quanto os anteriores, mas ainda assim agradável.

Pizzato Vinhas e Vinhos, Fausto Tannat, Serra Gaúcha 2014 (Brasil)

Este aqui foi marcado por uma presença mais acentuada de carvalho já no olfato, além de taninos dispersos que encobrem a característica frutada e deixam o vinho mais rústico.

Coop. Viníciola Aurora, Aurora Reserva Tannat, Serra Gaúcha 2014 (Brasil)

Até hoje o melhor Tannat brasileiro que provei. Olfato intenso de fruta madura como ameixa e amoras, paladar de textura suave e taninos finos, num vinho saboroso com ótimo equilíbrio em boca. Dentro da linha Aurora Reserva, este Tannat foi a variedade que mais me agradou. E também foi a única garrafa deste grupo que foi capaz de fazer frente aos exemplares uruguaios.


Obviamente ainda estou por provar garrafas de Tannat mais potentes, e a oportunidade com certeza chegará. Os que vieram antes destes foram quase todos brasileiros, e admito que nenhum deles tocou meu paladar como eu esperei que tivessem tocado. Ui!

Vão por mim, as aventuras podem ser agradáveis também, mas se quiserem conhecer a Tannat de maneira mais racional ou simplesmente não errar na escolha de garrafa, optem por um vinho uruguaio.

Saúde e um grande abraço a todos!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Vinho × Metanol

A ciência por trás da produção de vinhos é hoje uma atividade muito bem consolidada, regulada por lei e propagada academicamente por meio de cursos de ensino superior voltados à enologia. Ainda assim, num universo onde a apreciação do produto jamais deixará de lado a interpretação pessoal e uma bem-vinda subjetividade, muitos mitos e histórias mirabolantes foram e continuam a ser criados.

Alguns desses mitos são mais obscuros. Como o de que os vinhos feitos a partir de uvas americanas da espécie Vitis labrusca, em particular da variedade Isabel (ou Isabelle, como é conhecida mundo afora), devem ser condenados porque possuem em sua composição uma substância extremamente tóxica chamada metanol.

Quando ouvi isso pela primeira vez fiquei bem desconfiado, de tal forma que foi impossível não pesquisar o tema um pouco mais a fundo.

Hora de descascar mais uma cebola!


Descoberta e batizada na Carolina do Sul, EUA, em 1816, a Isabella/Isabel rapidamente ganhou notoriedade na região de Nova York, sendo utilizada tanto como uva de mesa quanto como base para vinhos tranquilos e espumantes. De lá a variedade se espalhou para diversos cantos do mundo graças à sua boa resistência ao calor e à sua capacidade de crescer bem em condições adversas.

Os vinhos feitos de Isabel têm corpo leve para médio e um perfil aromático que remete a morangos, além de trazer o olfato característico dos néctares produzidos com Vitis labrusca. O cultivo dessa uva é muito difundido nas Américas, e um grande exemplo disso é o fato dela ainda ocupar a maior área de vinhedos do Rio Grande do Sul. Já na Europa é proibido produzir vinhos de Isabel, muito embora existam pessoas que gostam de fazê-lo em casa para consumo próprio.


Apesar da atual restrição europeia ao cultivo de vinhas de Isabel, nem sempre isso foi assim. A linha do tempo das proibições sobre uvas americanas na Europa é um pouco confusa. Foi na década de 30 que alguns países europeus começaram a proibir o cultivo de uvas americanas, como a Itália, que introduziu o veto à venda e distribuição de vinhos feitos com estas variedades. Já a França proibiu as plantações de Isabel em 1935, no que alguns consideram puro medo do retorno da praga da filoxera (um inseto safado que suga as raízes e mata as videiras de Vitis vinifera) enquanto outros vêm uma tática de protecionismo no sentido de garantir a hegemonia local das castas europeias. Mais tarde, em 1979, a Comissão Europeia consolidou a proibição continental de vinhos europeus produzidos com uvas americanas.

O bullying enológico continuou de forma bagunçada em muitas regiões, contra os mais diversos vinhos penetras. Um deles, no entanto, é emblemático por causa da justificativa dada pelo governo italiano quanto ao seu banimento: a alegação de que era muito difícil controlar os níveis de metanol num produto feito com a variedade Isabel. Fragolino é o seu nome, um termo que vem do italiano fragola e significa morango, referência ao aroma característico aportado pela Isabel durante o processo de fermentação.

Originalmente fabricado em variações tinta, branca e espumante nas regiões de Vêneto e Friuli, o Fragolino é hoje produto de contrabando dentro do próprio país onde nasceu. Sua proibição mais recente encontra ecos em diversas fontes, que apontam como gatilho o escândalo ocorrido no país em 1986, que resultou na morte de 20 pessoas e causou dezenas de casos de cegueira devido à ingestão de vinhos com elevado teor de metanol. Garrafas com proporções de até 5,7% de metanol foram identificadas, cargas inteiras destinadas à França e à Alemanha foram apreendidas e a Dinamarca chegou a proibir a entrada de todas as bebidas italianas após descobrir que o vermute também estava contaminado por metanol.

Existe, porém, um pequeno detalhe que as duvidosas fontes online não revelam. Nenhum parágrafo das páginas que pesquisei aponta para a pobre Isabel como participante ou sequer coadjuvante dessa terrível tragédia. Os vinhos com níveis de metanol estourados ostentavam nomes nobres como Barbera e Dolcetto.


E agora, José? Tudo o que sei é que os Barberas e Dolcettos ainda estão por aí, mas não o pobre Fragolino, tão inocente e antes tão degustado por locais e turistas... O vinho caiu em desgraça e hoje só pode ser encontrado em lugares isolados na Suíça ou no mercado negro italiano, despejado nas taças a partir de vergonhosas garrafas sem rótulo. Se você já viu o Fragolino nos supermercados italianos, saiba que ele é falso pois não passa de um vinho normal aromatizado artificialmente.

A única verdade de todo esse imbróglio é que o envenenamento dos vinhos italianos com metanol foi um ato criminoso. A probabilidade é grande de que a má fama da Isabel com relação ao teor de metanol surgiu da associação entre este evento e a proibição do Fragolino. Mesmo assim, tenho certeza que algumas pessoas podem e vão perguntar:

Mas e se a Isabel for mesmo venenosa?
Já ouviram falar no ditado de que onde há fumaça há fogo?


O metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico, é um dos muitos tipos diferentes de álcool de característica líquida e inflamável. Ao contrário do que acontece com o álcool convencional, conhecido como álcool etílico, o metanol é extremamente prejudicial ao sistema nervoso quando consumido em doses excessivas, podendo causar cegueira, coma e morte. Por outro lado, o metanol é um composto natural encontrado normalmente nos seres humanos, que o produzem a partir da metabolização de certas substâncias nos rins e o exalam na própria respiração.

Acredito que a principal dúvida de todos nós, ao nos depararmos com o boato do metanol no vinho, é saber quanto dessa substância existe na nossa garrafa diária, seja ela de Isabel ou de qualquer outra variedade vínica. Afinal, a ingestão de 10 ml de metanol é suficiente para destruir o nervo ótico e causar cegueira permanente. Já 30 ml pode ser potencialmente fatal. Os efeitos tóxicos começam imediatamente após a ingestão, com sintomas que se parecem com os do álcool mas logo evoluem para um quadro muito grave.

De modo geral, todos os vinhos contêm metanol, em doses que variam em média de 50 a 300 mg/l. No entanto, vários estudos apontam que vinhos feitos de Vitis labrusca realmente possuem mais metanol em sua composição que os vinhos feitos com Vitis vinifera. Este aqui, por exemplo, identificou uma média de 133 mg/l em Isabel/Bordô/Concord contra 57 mg/l em Cabernet Sauvignon. Este outro já mostra 394 mg/l nos Vitis labrusca e 147 mg/l em Malbec/Muscat, sendo que o limite da legislação brasileira é de 350 mg/l.

O principal motivo para essa diferença é uma substância chamada pectina, um polissacarídeo existente nas paredes de plantas terrestres e em seus frutos, que existe em maior quantidade nas videiras da espécie Vitis labrusca. Como o metanol presente no vinho é gerado pela hidrólise dos grupos metoxílicos da pectina da uva ao longo da fermentação, devemos sim esperar um teor de metanol um pouco mais alto nos vinhos feitos com uvas americanas.

Além da espécie de uva, há ainda dois outros fatores que contribuem para aumentar o teor de metanol nos vinhos. Um deles é o uso industrial da enzima péctica ou pectinase, produto regularmente empregado pelas vinícolas para melhorar a cor do suco, promover uma melhor extração de taninos e facilitar o processo de filtração final. Outro fator que pode provocar índices mais altos de metanol é o tempo de maceração do processo, uma vez que a pectina permanece por mais tempo no mosto quanto maior for o contato do suco com as cascas. Esta última observação explica, por exemplo, porque o teor de metanol é sempre mais alto nos vinhos tintos do que nos brancos.

Mas enfim, o metanol que está dentro da minha garrafa de vinho feito com uva Isabel é perigoso ou não?

Vamos exercitar um pouco de matemática para entender o que significam as concentrações de metanol expostas mais acima.

Sabe-se que a densidade do metanol é de 792 kg/m3, ou 792 g/l (muito próxima à do álcool comum). O limiar máximo considerado seguro para a ingestão de metanol é 2,5 ml (2 g), a intoxicação aguda ocorre com 10 ml (8 g) e uma potencial fatalidade pode acometer a pessoa que consumir 30 ml (24 g).

Sabendo que o teor limite da legislação brasileira para o metanol é de 350 mg/l, a parcela desta substância presente numa garrafa de vinho contendo 350 mg/l é de 0,045%. Considerando esse percentual, conclui-se que o volume admissível de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,3375 ml.

Portanto, ao consumir um vinho com 350 mg/l de metanol (0,045%):
• é perfeitamente seguro beber até 5,9 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 29,6 garrafas.

Eis uma memoriazinha de cálculo básica para os números acima:


Utilizando os mesmos tipos de cálculo, podemos continuar a avaliar os limites de metanol em diversos outros mercados.

Considerando o limite da União Europeia, por exemplo, que é de 250 mg/l para brancos e rosés e 400 mg/l (0,051%) para tintos, temos o seguinte cenário no caso dos tintos:
• é perfeitamente seguro beber até 5,2 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 26,1 garrafas.

Já nos Estados Unidos a FDA (Food and Drug Administration) diz que um teor de 0,1% de metanol no vinho é seguro, e que acima disso ele é considerado adulterado. Para 0,1%, o volume de metanol numa garrafa de 750 ml é de 0,75 ml.

Portanto, ao consumir um vinho com 0,1% de teor de metanol (ou 792 mg/l):
• é perfeitamente seguro beber até 2,6 garrafas;
• para se intoxicar gravemente com metanol seria preciso beber 13,3 garrafas.

Observa-se, portanto, que mesmo com valores de metanol um pouco acima dos limites estabelecidos seria impossível se intoxicar bebendo vinho, independente da variedade de uva utilizada para fabricá-lo. Quem em sã consciência bebe 2 garrafas e meia numa refeição ou numa sessão de degustação?

Extrapolando a conta para o máximo admissível de metanol que pode haver numa única garrafa, ou seja, uma quantidade de 2,5 g ou 2 ml, chegamos aos valores de corte de 2.110 mg/l ou 0,26% em volume. Somente para se ter uma ideia, no escândalo dos vinhos italianos envenenados a tal garrafa com 5,7% de metanol continha cerca de 42 ml da substância, quantidade 21 vezes maior que o limite admissível de ingestão segura!  Uma única taça desse vinho batizado é capaz de destruir o sistema nervoso de um ser humano e deixá-lo cego, que dirá a garrafa inteira.


O que é possível concluir de tudo isso?

Ainda que alguns "iluminados" insistam em preservar esse mito infundado, agora posso dizer com toda a certeza que ninguém vai passar mal por beber vinhos feitos com uvas Isabel. Para pôr um ponto final ao assunto, confiram aqui um estudo exclusivo feito somente sobre os vinhos de Isabel.

O processo de fermentação de uvas para a produção de vinho é feito ao redor de todo o mundo, inclusive por pessoas e famílias comuns em seus próprios quintais. Independente da qualidade dos vinhos resultantes de processos caseiros, podemos ficar seguros pois nenhum deles será capaz de matar devido ao teor de metanol resultante. A única coisa com a qual devemos nos preocupar, no caso de produção caseira, é com o processo de destilação, algo que exige muito mais cuidado e pode sim resultar em bebidas com um perigoso percentual de metanol.

E se algum dos nobres leitores encontrar uma garrafa do autêntico Fragolino e ainda estiver com medo do metanol assassino diluído dentro dela, pode mandar pra mim que terei o maior prazer em livrá-lo do fardo.

Além dos links colocados acima, os artigos abaixo também contribuíram como fontes de pesquisa para este texto:
http://m.wine-searcher.com/grape-834-isabella
http://en.wikipedia.org/wiki/Pectin
http://winemakersacademy.com/pectic-enzymes-wine
http://revistaadega.uol.com.br/artigo/as-enzimas_6553.html
http://www.oenoblog.info/pt/2009/01/la-filtrabilidad-de-los-vinos
http://en.wikipedia.org/wiki/Methanol#Human_metabolite
http://homedistiller.org/intro/methanol/methanol
http://www.expo2015.org/magazine/en/economy/methanol-wine---we-learned-our-lesson-.html
http://www.thedrinksbusiness.com/2011/08/top-10-wine-scandals/7
http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,961046,00.html
http://www.italybeyondtheobvious.com/the-fragolino-controversy
http://www.science20.com/small_world/exploration_into_the_mystery_behind_fragolino
http://forums.egullet.org/topic/142525-fragolino-the-illegal-wine-venezia-venice-experiences-not-the-spark
http://modernfarmer.com/2013/10/best-wine-cant-buy-fragolino
http://viewitaly.blogspot.com.br/2006/08/tgi-fragolino-free-wine.html
http://www.shroomery.org/forums/showflat.php/Number/13869845
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=364196
http://www.homebrewtalk.com/showthread.php?t=57733

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Einig-Zenzen, Josef Friederich Liebfraumilch, Rheinhessen 2013 (Alemanha)

Vinho: Josef Friederich Liebfraumilch
Safra: 2013
Região: Rheinhessen
País: Alemanha
Vinícola: Einig-Zenzen (http://www.einig-zenzen.de, http://zenzenwinesusa.com)


Tudo começou no dia em que avistei aquela garrafa azul no armário da sala de dona Diva, avó da minha esposa. Conversa vai, conversa vem, a curiosidade ia aumentando à medida em que meu conhecimento sobre vinho melhorava. Até o dia em que a cantei para ganhar de presente a garrafa. E ganhei. Um legítimo Liebfraumilch, safra de 1996 da mais famosa marca distribuída em nosso país nos anos 90.

É óbvio que eu conheço a má fama deste vinho, e é claro que eu não tinha a mínima intenção de beber algo que devia estar morto. Por outro lado, pensei que seria com certeza muito inusitado abri-lo ao lado da safra mais recente. Eu só não sabia que conseguir a bendita garrafa seria tão difícil, sendo que cheguei até a relatar parte desta saga aqui mesmo no blogue. O mais engraçado é que depois de toda a atribulação que tive para importar a garrafa de São Paulo acabei encontrando a safra 2014 na semana passada, em dois supermercados da cidade...

Enfim, o momento da *aham* grande prova vertical de Liebfraumilch chegou numa manhã ensolarada de Domingo. Mas antes de contar como foi a experiência vamos recapitular um pouco da saga desse emblemático vinho.


Originalmente batizado de Liebfrauenmilch, cujo significado literal é “leite da amada”, dizem por aí que este vinho adocicado nasceu numa igreja da cidade alemã de Worms ainda no século 18. Inicialmente produzido pelos monges, a fama que o marcou foi também responsável por desfigurá-lo com o passar do tempo. No início do século 20, por exemplo, as regiões cujos vinhos podiam usar o nome Liebfraumilch aumentaram sem que qualquer controle de qualidade fosse imposto. E foi somente em 1989 que as atuais regras de produção da marca foram promulgadas, de tal forma que este peculiar e hoje muito odiado vinho ostenta com certo “orgulho” a denominação QbA (Qualitätswein bestimmter Anbaugebiete), que está acima do que poderia ser chamado de vinho de mesa na terra de Herr Kurt Wagner. Por sinal, dizem as más línguas que os vinhos de mesa alemães são horríveis, ao contrário do que ocorre nos países vizinhos (atenção às designações Tafelwein e Landwein).

Muitos consideram que o Liebfraumilch quase acabou com a reputação do vinho alemão nas décadas de 80 e 90 devido à baixa qualidade das garrafas exportadas para todo o mundo. Eu ri muito quando li que a indústria vinícola alemã passou na verdade por três grandes desastres: a 1ª. Guerra Mundial, a 2ª. Guerra Mundial e o Liebfraumilch.

Como um dos mercados onde esse vinho mais fez sucesso, aqui no Brasil inúmeras histórias são contadas por aqueles que vivenciaram o auge do vinho da garrafa azul (veja alguns links no final desta postagem), que foi capitaneado pelo Josef Friederich importado pela Expand e cujo apelo foi tão forte que chegou a afetar vinícolas nacionais de renome como Salton e Aurora. Ainda hoje, por exemplo, é possível encontrar o Liebfraumilch feito pela Aurora a preços abaixo de R$ 15 (pero ele não vem numa garrafa azul). Obviamente será impossível ver qualquer menção a este Liebfraumilch em seu website – se o vinho é motivo de vergonha para os alemães, que se negam a admitir sua existência e o despacham todo para a exportação, que dirá para aqueles que ousam reproduzi-lo em outras terras.

Atualmente o nome Liebfraumilch é usado somente como um sinônimo para vinhos brancos genéricos e adocicados (que se encaixam na denominação “suave” usada no Brasil). As variedades de uva utilizadas nunca aparecem no rótulo, mas a norma exige que o vinho seja produzido somente nas regiões de Rheinhessen, Pfalz (Palatinado), Nahe ou Rheingau e que pelo menos 70% dele seja feito a partir de Riesling, Müller-Thurgau, Bacchus, Silvaner e/ou Kerner. O açúcar residual deve estar na faixa de 18 a 40 g/l.


Sobre a Einig-Zenzen

A vinícola Einig-Zenzen foi fundada em 1939 na cidade de Valwig, situada à margem direita do rio Mosela. A partir de um início tímido, que se valia do passado vitivinícola dos ancestrais dos fundadores, a companhia mudou-se para a cidade de Kaisersesch e expandiu-se em nível internacional, chegando à invejável capacidade de engarrafamento de 40.000 garrafas por hora, tudo isso ainda mantido sob controle familiar.

Atualmente a empresa produz cerca de 3,2 milhões de garrafas por ano, exportando seus produtos para cerca de 50 países. Suas marcas mais conhecidas são a Peter Brum, E-Z, Dr. Zenzen e True Love, além do spritzer Eden’s Dream (uma variação do frisante ao estilo do Keep Cooler).

Em 2009 a Einig-Zenzen obteve os direitos sobre a marca Josef Friederich, que continua a ser distribuída mundialmente. Lembram do que mencionei mais acima sobre vergonha? Desistam de encontrar qualquer menção a este vinho no site da empresa, ou mesmo do Liebfraumilch lançado dentro da linha Dr. Zenzen (mas aqui está ele). Aparentemente, cada mercado externo tem o seu, e mesmo a marca Josef Friederich pode ter rótulos variantes dependendo do país.


O vinho degustado: Josef Friedrich Liebfraumilch, Rheinhessen 2013

Como anunciado, a garrafa foi aberta em conjunto com a safra 1996.  Esta última estava com a rolha completamente podre, e mesmo tentando extraí-la com meu recém-adquirido saca-rolhas tipo pinça a danada acabou indo para dentro da garrafa.

O jeito foi passar a maior parte do vinho para uma jarra. Como esperado, ele estava morto. Opaco ao extremo, de coloração atijolada-escura e marrom. Tive medo até de aproximar o nariz da taça, mas tive que fazê-lo em prol de minha educação enófila... Fui atingido em cheio pelos "aromas" químicos de álcool, mertiolate, iodo, açúcar e fruta podre apanhada em terreno baldio. Em boca era álcool puro, absolutamente intragável (sim, eu bebi um pouco).

Uma das rolhas com aspecto mais deplorável que já vi

Duas contrastantes linhas do tempo em taças

Sobre a garrafa do 2013, que possui fechamento com screw-cap, o aspecto visual do vinho não deixa nada a desejar a nenhum bom vinho branco. Olfato agradável de pêras, seguido por sensação tátil levemente untuosa e adocicada. Infelizmente, o aspecto suave do vinho deixa-o enjoativo já na segunda taça, o que o faz ser uma companhia maçante quando encarada sozinha. Realmente, é muito difícil voltar a encarar coisas suaves depois que se acostuma com vinhos secos. Ainda assim, se for para beber um Liebfraumilch que seja comendo algo sem pensar muito sobre.

É praticamente impossível saber exatamente qual é a composição deste vinho, em qualquer safra que seja. Indo pelo material de uma das importadoras, as castas utilizadas são Silvaner, Riesling e Müller-Thurgau, em percentuais desconhecidos. Há outras fontes, no entanto, que apontam a presença de Sauvignon Blanc.

No final das contas quem vai se importar mesmo? De minha parte já fiz o dever de casa, agora o jeito é compensar e ir atrás de um vinho alemão que seja bom!


Confiram nos links a seguir algumas histórias sobre o Liebfraumilch, escritas por quem viveu o seu auge:
http://www.escrivinhos.com/2008/08/saga-das-garrafas-azuis.html (AGO-2008)
http://piresdemiranda.com.br/site/o-fenomeno-da-garrafa-azul-2 (AGO-2010)
http://piresdemiranda.com.br/site/o-fenomeno-da-garrafa-azul-final (AGO-2010)
http://vinhosamoresetaca.blogspot.com.br/2013/05/uma-volta-aos-anos-90-mappin-e.html (MAI-2013)
http://omundoeovinho.blogspot.com.br/2015/12/o-liebfraumilch.html (DEZ-2015)

Outras fontes de leitura sobre o Liebfraumilch:
http://www.wine-searcher.com/regions-rheinhessen
http://www.foodreference.com/html/artliebfraumilch.html

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

José Maria da Fonseca, Alambre Moscatel de Setúbal DO 2010 (Portugal)

Vinho: Alambre Moscatel de Setúbal DO
Safra: 2010
Região: Península de Setúbal
País: Portugal
Vinícola: José Maria da Fonseca (http://www.jmf.pt)


Como sempre quis provar um vinho licoroso que não fosse tão forte quanto o Porto, não deixei passar a oportunidade de pegar esse rótulo por um preço mais em conta numa promoção da Viña Bebidas Finas.

Posso dizer que não me decepcionei. Aberta como encerramento para o primeiro encontro da Confraria Tênis e Vinho MT, a garrafa foi posteriormente degustada aos poucos e me abriu os olhos quanto a esse estilo peculiar de vinho.

Um pouco de história

José Maria da Fonseca tem a honra de ser a mais antiga vinícola de Portugal. Fundada pelo empreendedor que lhe dá o nome em 1834, ela está atualmente em sua 7ª. geração e vende seus vinhos para todos os continentes do mundo. Alguns deles se tornaram muito famosos no mercado interno e externo, como os rótulos Periquita e o Lancers, bastante conhecido nos Estados Unidos. A relação da vinícola com nosso país sempre foi muito forte.

A José Maria da Fonseca sempre contribuiu para a divulgação e o prestígio dos vinhos portugueses. Dos quase 650 hectares de vinhas, e de uma adega dotada de tecnologia de última geração que rivaliza com as melhores do mundo, resultam vinhos que aliam a experiência acumulada ao longo da sua história com as mais avançadas técnicas de vinificação.

Conforme informação presente no site da empresa, sua produção divide-se entre rótulos "Grandes Marcas", "Premium", "Super Premium" e "Generosos".


O Moscatel de Setúbal

O Moscatel de Setúbal é produzido somente em Portugal, na municipalidade homônima dentro da Península de Setúbal. Considerado um tesouro dos vinhos portugueses, sua história se cruza com a história da José Maria da Fonseca, pois muitas fontes apontam para o fato de que o estilo teria sido inventado pelo visionário fundador da vinícola. Por muito tempo ele teve um quase-monopólio do Moscatel de Setúbal, mas hoje esse tipo de vinho é produzido por várias empresas diferentes.

A Península de Setúbal é ainda uma das denominações mais antigas de Portugal, sendo que a denominação de origem do Moscatel de Setúbal foi inicialmente demarcada em 1907, sendo confirmada e concluída em 1908. No contexto geral, a região de Setúbal DO está geograficamente delimitada pelos conselhos de Setúbal, Palmela, Montijo e a freguesia do Castelo pertencente ao município de Sesimbra. Este terroir é único: a precipitação anual é de 550 a 750 mililitros e há 2.200 horas de sol derramadas sobre terrenos arenosos e argilo-calcários, tudo temperado com uma mão cheia de brisa atlântica.

Similar ao Porto, o Moscatel de Setúbal é envelhecido em barrica até o momento do engarrafamento. As regulações da DO especificam que ele deve ser composto principalmente pelas castas Moscato de Alexandria ou Moscato Roxo, com até 30% de Arinto, Boais, Diagalves, Fernão Pires, Malvasia, Olho de Lebre, Rabo de Ovelha, Roupeiro, Talia, Tamarez e Vital. As uvas podem pertencer a uma mesma safra ou o vinho pode ser feito a partir de um blend de várias safras.


A Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS) é a entidade certificadora das Setúbal DO, ou seja, dos Moscatéis de Setúbal/Roxo e dos vinhos com Palmela DO e IG Península de Setúbal. A área de produção dos vinhos com esta designação regional, conhecida por Terras do Sado até 2009, abrange todo o distrito de Setúbal, desde o conselho de Montijo ao de Santiago de Cacém, enquanto a área dos Palmela DO, à semelhança da dos Setúbal DO, está circunscrita nos conselhos de Setúbal, Palmela, Montijo e Freguesia do Castelo, do conselho de Sesimbra. Para saber mais, visite o website dedicado ao Moscatel de Setúbal.


O vinho degustado: Alambre Moscatel de Setúbal DO 2010

De acordo com a descrição do produtor, a fermentação desse vinho feito 100% com a casta local Moscato é interrompida com a adição de aguardente vínica, seguida por uma maceração pelicular de 5 meses. O envelhecimento é feito em cascos ou tonéis de madeira usados por um período não especificado (supõe-se dois a três anos).

No alto de seus 17,5% de teor alcoolico e 127 g/litro de açúcar residual, a primeira impressão no olfato é definitivamente marcante. "Álcool puro", foi o veredito da minha esposa. É verdade que esta pode ser a sensação inicial, mas basta ter um pouquinho de paciência para reconhecer a forte presença de mel, melado e damasco maduro. Em boca ele faz jus à alcunha de "generoso", pois atinge a língua com peso e doçura, a textura espessa como um bom suco vínico maturado no qual pouco se sente a madeira.

O vinho acompanhou no primeiro dia um mousse de chocolate amargo e limão. Nos dias seguintes repeti o mousse e harmonizei-o ainda com pão de mel, bolo de cenoura, alfajor uruguaio e pão integral com recheio de cranberry. Houve um pouco de evolução no vinho enquanto ele descansava na geladeira, já que passei a sentir aromas bem específicos de caramelo. Todas as combinações funcionaram de maneira soberba.

Um forte abraço a todos e saúde!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Vinhos de mesa e as uvas americanas

Alguém por aí já se perguntou o porquê dos vinhos de mesa brasileiros serem tão massacrados por crítica e público, todos doutrinados a apreciarem somente os vinhos feitos de castas que vieram de berço europeu e pertencem à espécie Vitis vinifera?

Não vale alegar que é porque tais vinhos são feitos de uvas americanas, “não adequadas” à produção de vinho.

Certo dia, enquanto eu degustava um Merlot encorpado, o questionamento subiu-me à mente como as cristalinas borbulhas de um bom espumante. Qual o motivo de tanto desprezo, uma vez que – excetuando os produtos suaves que recebem adição de açúcar – os vinhos de mesa são produzidos exatamente da mesma forma que os vinhos considerados finos?

Foi então que comecei a pesquisar sobre os vinhos de mesa brasileiros e suas origens, e sobre onde eu poderia encontrar produtos equivalentes fora do país. Vou tentar resumir os resultados de minhas muitas leituras e as eventuais mudanças que pretendo fazer em minha forma de enxergar os vinhos de mesa.


A origem da diferença

A origem do desprezo pelos vinhos de mesa nacionais é histórica, e se estende muito além de nossas fronteiras. Foi na Europa, conhecida também como Velho Mundo e historicamente considerada o berço da civilização moderna, que a bebida chamada vinho evoluiu por séculos. As uvas utilizadas no continente, referidas obviamente de castas europeias e pertencentes à espécie Vitis vinifera, são todas as que hoje conhecemos como fonte dos “verdadeiros” vinhos. Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, etc.

Como era de se esperar, com a colonização dos demais continentes as uvas Vitis vinifera se espalharam pelo planeta. O Novo Mundo foi invadido e vagarosamente infestado por estas castas nobres, enquanto algumas das variedades locais, comumente denominadas uvas americanas e não pertencentes à variedade Vitis vinifera, resistiram à invasão estrangeira por serem nativas e naturalmente mais adaptadas ao solo local. As uvas americanas perseveraram principalmente nas regiões onde as cepas europeias mostraram dificuldade em se adaptar nos mesmos padrões de qualidade e volume.

A inevitável mistura de uvas de vários continentes e os cruzamentos entre as espécies (forçados ou não) resultaram nas chamadas uvas híbridas, que em geral apresentam resistência maior às doenças e ao frio, e assim como as americanas possuem um perfil gustativo e aromático distinto das já estabelecidas uvas do velho mundo.

Fisicamente, as uvas americanas diferem das uvas europeias na menor espessura de suas cascas e no tamanho do fruto, que em média é muito maior. É por isso que as uvas americanas são mais indicadas ao consumo in natura. Além disso, sua menor concentração de açúcar tende a render mostos menos alcoolicos, o que aliado aos aromas diferenciados resultam em vinhos de natureza completamente distinta daqueles produzidos com castas europeias.

Hoje em dia os vinhos feitos a partir de uvas americanas são produzidos exclusivamente nas Américas, mas em sua maior parte nos Estados Unidos, no Canadá e no Brasil. Acredito que no início da invasão estrangeira eles tinham todas as chances de se manterem em pé de igualdade com os vinhos feitos com uvas europeias, mas não foi isso o que aconteceu. Principalmente no Brasil.

fonte: Wine Folly

Por que vinho de mesa?

O termo “de mesa”, como difundido em terras tupiniquins, é uma designação unicamente associada às uvas de mesa, que são aquelas que consumimos in natura e pertencem em sua maioria às variedades de uvas americanas da espécie Vitis labrusca e outras espécies híbridas. Vinhos elaborados a partir de castas Vitis vinifera são vinhos “finos”.

Dito isso, é preciso deixar claro que o vinho de mesa como conhecemos por aqui não é o mesmo vinho de mesa de países como a França (Vin de Table / Vin de France) ou a Itália (Vino da Távola). Lá estes vinhos são feitos com as mesmas castas Vitis vinifera das AOCs e DOCs, a única diferença é que eles não seguem nenhuma das regras estabelecidas por essas normas. E esses vinhos podem ser secos ou “suaves”, cujos correspondentes na França e na Itália seriam os moelleux e os amabile, respectivamente.

Tudo bem que em sua grande maioria os vinhos de mesa de lá também sejam produzidos de maneira mais simples e visando volume, mas sempre existem exceções em matéria de qualidade. Aqueles super-toscanos safados, por exemplo, já foram vino da távola um dia, e só deixaram de sê-lo quando algum figurão benevolente sugeriu a criação da categoria IGT.

Vale lembrar que na Europa a vinificação de uvas de origem americana é terminantemente proibida. Portanto, é impossível encontrar por lá um vinho de mesa que seja similar aos vinhos de mesa brasileiros.


A legislação brasileira faz sentido

Ao analisar a origem e a evolução do vinho no Brasil, percebe-se que as regras da legislação do mercado de vinho brasileiro fazem completo sentido. Estas regras surgiram principalmente por causa dos vinhos de mesa, que são feitos a partir de uvas americanas e vendidos com as mais variadas proporções de açúcar em sua composição final. Secos são os vinhos com teor de açúcar abaixo de 4 g/l, suaves são aqueles com teor acima de 20 g/l e tudo o que está entre estes extremos é demi-seco.

O grande problema é que a classificação acima também é aplicada ao vinho fino feitos de castas europeias, seja ele nacional ou importado, algo que lá fora simplesmente não existe. E se isso causa confusão quando os vinhos importados entram no país, o problema é de quem bebe e precisa se informar melhor. As importadoras não têm culpa, pois só estão cumprindo com as normas.

A marginalização dos vinhos de mesa brasileiros

Ainda que haja uma conscientização cada vez maior sobre a alegada superioridade dos vinhos feitos a partir de variedades europeias, é inegável que os vinhos de mesa (especialmente os suaves) ainda figuram como a principal preferência da maioria da população brasileira. Basta tocar no assunto em qualquer roda casual de conhecidos das mais diversas classes sociais. Se entre dez pessoas alguém além de você mencionar Merlot ou Sauvignon Blanc, já se está no lucro. Infelizmente, a probabilidade maior é de que algum engraçadinho do sexo masculino tire sarro da sua cara se você disser Pinot Noir em voz alta.

Brincadeiras à parte, os motivos para o que mencionei acima são muitos, sendo o maior deles o baixo custo final do vinho de mesa para o consumidor. Mas é preciso destacar também a sua inicial facilidade de apreciação (são docinhos e leves) e o grande período histórico que precedeu a abertura de mercado ocorrida na década de 90. A este último aspecto soma-se a inércia e a letargia dos produtores nacionais de vinhos de mesa, que com raras exceções nada fizeram para tentar elevar o status de seus produtos diante da classe fina emergente. O desprezo foi e é tão grande em alguns casos que hoje em dia muita gente toma coquetel composto achando que é vinho.

Façamos uma comparação rápida entre o mercado de vinhos feitos com uvas americanas do Brasil e dos EUA, por exemplo. Quais são os vinhos de mesa brasileiros famosos que estampam no rótulo as variedades de uva a partir das quais são produzidos? Praticamente nenhum. São quase todos tintos/brancos de mesa suaves/secos. Muito provavelmente por uma decisão safada de marketing, a única cepa que aparece com proeminência em rótulos de maior saída é a tal Bordô, uma híbrida de várias Vitis labrusca cujo nome correto é Yves Noir. Que chique seria se esse nome passasse a ser usado, não? Aposto que teria muito entendido por aí que começaria a degustar Bordô como se estivesse bebendo Syrah.

Já nos Estados Unidos a história parece ser diferente. Vinho de mesa é uma designação meio sem sentido, uma vez que qualquer vinho de preço reduzido é genericamente qualificado como Table Wine. Os Barefoot, Yellow Tail e Woodbrigde, por exemplo, são considerados vinho de mesa para os norteamericanos. E quanto aos vinhos feitos com variedades nativas? Ora pois, os rótulos de lá mostram (com orgulho, talvez?) nomes como Concord e Niagara, que são as mais conhecidas para nós brasileiros. Mas há ainda cepas diferentes e interessantes como Catawba, Chancellor, Muscadine/Scuppernong, Norton, Aurore e Mustang, para ficar em algumas das uvas mais proeminentes de outras espécies que não pertencem nem à vinifera e muito menos à labrusca.


Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde os vinhos feitos de uvas americanas não parecem ter vergonha nenhuma de sua própria identidade, para achar informações de como é a composição dos blends dos vinhos de mesa nacionais ou encontrar designações varietais como Isabel ou Niagara é preciso ir um pouco mais a fundo neste mercado relativamente marginalizado, saindo do circuito viciado dos supermercados ou viajando ao coração da região sul do país.

Seguem alguns exemplos de vinhos de mesa secos onde a variedade é devidamente indicada no rótulo:

Sei que isso pode soar como sacrilégio para alguns, mas depois de ler bastante sobre o assunto tomei a decisão de não mais olhar com maus olhos os vinhos de mesa secos. Mas calma lá, isso não quer dizer que vou começar a garimpar empórios de bairro ou encher minha adega com esses tipos peculiares de vinho. O que quero dizer é que sejam eles feitos a partir de Chardonnay ou de Niagara, de Cabernet Sauvignon ou Concord, tratarei a todos com o mesmo respeito e reverência. Já os vinhos de mesa suaves continuam mais ou menos como estavam, relegados a festas juninas e encontros familiares onde a escolha de bebida esteja completamente fora de minha alçada.

Referências de pesquisa para este texto:
http://winefolly.com/review/native-wine-grapes-of-america
http://winefolly.com/tutorial/table-grapes-vs-wine-grapes
http://www.stufftoblowyourmind.com/blog/american-wine-from-american-grapes
http://palatepress.com/2010/06/wine/wine-indigenous-american-grape-varieties-a-primer
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bord%C3%B4_(casta_de_uva)
http://en.wikipedia.org/wiki/Ives_noir
http://www.avindima.com.br/?p=6013
http://www.cnpuv.embrapa.br/tecnologias/cultivares
http://revistas.fca.unesp.br/index.php/energia/article/view/998/pdf_23
http://tudodevinho.blogspot.com.br/2016/04/o-vinho-fino-e-o-vinho-de-mesa-no-brasil.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Vin_de_France
http://en.wikipedia.org/wiki/Table_wine

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

1º encontro da Confraria Tênis & Vinho MT

Baco regozija e sorri em seu trono cravejado de cachos púrpuras, pois nasceu no último fim de semana mais uma confraria dedicada à degustação de vinhos!

Trata-se da Confraria Tênis & Vinho MT, cujo primeiro encontro aconteceu na residência deste que vos escreve. Nosso grupo é pequeno e nasce com o objetivo primário de diversão descompromissada e sem formalidades, mas temos um diferencial: todos os confrades são jogadores e praticantes de tênis.

O tema de nossa primeira reunião foi livre, então cada confrade recebeu carta branca para trazer a garrafa que quisesse. Para harmonizar montamos uma mesa com diversos tipos de queijos.

Listo aqui as garrafas degustadas para referência histórica:

Domaine Christian Moreau, Chablis AOC 2013 (França)

O Chablis se mostrou um mistério para mim no olfato. Nada me veio à mente. Talvez um pouco de mineral, apesar desta característica aparecer mais costumeiramente no paladar, que aqui se mostrou delicado, cristalino e muito agradável para abrir a noite.

Bodega Septima, Septima Cabernet Sauvignon, Mendoza 2013 (Argentina)

Eu já havia provado esta mesma garrafa em outra ocasião, num restaurante. Minha percepção sobre ela não mudou: médio corpo, alguma fruta vermelha e especiaria. Melhor acompanhando comida que sozinho.

Terre di Sava, Luccarelli Primitivo, Puglia IGP 2015 (Itália)

Um degrau acima do Cabernet por apresentar um pouco mais de acidez, na taça este Primitivo jovem mostrou taninos firmes e bom corpo, precedidos por um olfato de frutas do bosque, do tipo que apresenta uma sensação um pouco mais úmida sem no entanto incorrer no terroso.

José Maria da Fonseca, Alambre DO Moscatel de Setúbal, Península de Setúbal 2010 (Portugal)

Este português "generoso" (na definição da própria vinícola) foi uma surpresa de última hora que tirei da adega para acompanhar o mousse de limão e chocolate amargo preparado por minha esposa. Harmonizou muito bem, e devo dizer que nos dias seguintes ficou ainda melhor. Estou pensando em talvez fazer um postagem dedicada sobre ele.

Esta foi a primeira vez que provei tanto um Chablis quanto um Moscatel de Setúbal, e tê-lo feito na companhia dos amigos foi melhor ainda. No aspecto prático das coisas, acredito que só quem já organizou reuniões do tipo sabe como é difícil conciliar a agenda de todas as pessoas. Mas o evento finalmente saiu e a expectativa é que ele continue a ocorrer mensalmente!

Enquanto isso, um novo blogue foi inaugurado para servir de registro para os confrades. Quem tiver interesse em conferir o evento com um pouco mais de detalhes pode visitá-lo no seguinte endereço:
Saúde!